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Eleições em Análise: Jingles feitos com IA são muito ruins, mas há uma estratégia por trás deles

19 de agosto de 2026

Por Carol Prado*, colunista do Estadão

Brasília, 19/08/2026 – Você já deve ter percebido que a inteligência artificial se tornou um dos principais temas da eleição de 2026. E, no amontoado de peças de campanha produzidas com a ajuda desse tipo de tecnologia, há os famigerados jingles cantados por robôs: muito ruins, mas estratégicos.

Pilar fundamental na divulgação de candidatos, o jingle é “onde” a eleição se aproxima do mercado da música. Há uma indústria em torno dessas criações, com compositores e produtores especializados, e até artistas famosos que se envolvem com as campanhas. Não à toa a história política do Brasil está cheia de jingles históricos, lembrados por várias gerações.

O número de publicações de políticos brasileiros com uso identificado de IA dobrou na última quinzena de julho, segundo um levantamento do Instituto Democracia em Xeque. O Tribunal Superior Eleitoral tem uma resolução que define regras para a utilização dessas ferramentas na eleição, e criou um órgão para monitorar os riscos, especialmente os associados à desinformação.

A preocupação é que as campanhas aproveitem a tecnologia para incluir a imagem ou a voz de alguém em contextos que nunca existiram, criando cenas ou áudios falsos, que podem ser interpretados como verdadeiros pelos eleitores. É o chamado deepfake.

Ainda há dúvidas jurídicas sobre o que pode ou não ser considerado deepfake. No caso dos jingles, a lei permite o uso de IA na composição e produção dessas músicas, e até na interpretação, com as vozes genéricas de robôs. Mas, se a campanha usa a tecnologia para simular uma voz conhecida (de um candidato ou de um artista famoso, por exemplo), isso pode gerar problemas na Justiça Eleitoral.

É fato que a produção de um jingle com inteligência artificial tem um custo muito mais baixo que o de uma música de verdade, cantada por uma pessoa real. Como eles são mais baratos e rápidos de criar, os candidatos podem lançar jingles específicos para cada tipo de público.

Em vez de um único hino de campanha, feito para grudar na memória de todo mundo, são lançadas várias músicas – piores e mais descartáveis -, que atendem a gostos de nichos diferentes.

Se você é mais jovem, pode ver nas suas redes sociais o clipe do jingle de um candidato em ritmo de funk, um tipo de música mais popular nessa faixa etária. Se costuma consumir conteúdos cristãos, pode ser impactado por uma música parecida com um louvor. Esse tipo de segmentação já vinha se tornando uma estratégia comum, e deve se intensificar ainda mais com o uso de ferramentas de inteligência artificial.

Fica a dúvida: nesse novo modelo, um jingle político ainda pode se tornar histórico? Eu acho que não.

*Carol Prado É jornalista desde 2014. Escreve sobre cultura e entretenimento, toda quarta-feira. Nas redes sociais, é chamada de “jornalista pop” por gerar repercussão com críticas de álbuns e comentários sobre tendências do mercado cultural.

O serviço ‘Análise Política’, do Broadcast Político, reúne análises, comentários e bastidores da política nacional.

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