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4 de agosto de 2026
Por Tânia Rabello*
Baixa Grande (BA), 04/08/2026 – O presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), João Martins, disse ontem (3) que o aumento da produtividade da pecuária brasileira passa necessariamente pela difusão de tecnologia, assistência técnica continuada e políticas públicas voltadas ao pequeno produtor. Em entrevista coletiva após o lançamento do Rally Forrageiras para o Semiárido, em Baixa Grande (BA), o dirigente afirmou que a adaptação às mudanças climáticas dependerá menos de previsões meteorológicas e mais da capacidade de preparar os produtores para conviver com eventos extremos, como a perspectiva de um super El Niño nesta safra.
“O que nos interessa não é saber se haverá ou não uma grande seca. O que interessa é preparar o produtor para que, caso ela aconteça, ele esteja preparado”, afirmou Martins. Segundo ele, a pesquisa agropecuária precisa ser permanente, justamente porque os cenários climáticos mudam rapidamente. “Há dez anos não se falava em um super El Niño. Hoje estamos discutindo esse risco. Isso mostra que a pesquisa precisa continuar evoluindo”, disse.
O Rally Forrageiras para o Semiárido marca uma nova etapa de um trabalho iniciado há quase uma década pela CNA para identificar e validar espécies forrageiras adaptadas às condições do Semiárido. Depois da fase de pesquisa, realizada em Unidades de Referência Tecnológica (URTs), o projeto passa agora à etapa de transferência de tecnologia para as propriedades rurais, por meio da assistência técnica do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar).
Para Martins, a iniciativa demonstra que é possível elevar significativamente a produtividade da pecuária leiteira, por exemplo, mesmo em regiões sujeitas a longos períodos de estiagem. O dirigente citou uma propriedade visitada pela comitiva no domingo, em Miguel Calmon (BA), onde a produção média de leite passou de 8 para 21 litros por vaca ao dia após a adoção de tecnologias de manejo alimentar e gestão da propriedade.
Segundo ele, a principal deficiência da cadeia leiteira baiana está relacionada à ausência histórica de políticas públicas voltadas ao pequeno produtor. Martins lembrou que a Bahia já liderou a produção de leite no Nordeste, mas acabou sendo ultrapassada por Pernambuco e Ceará. “Isso é uma vergonha nacional. A Bahia, com toda a sua extensão territorial e áreas de excelentes pastagens, deixou de ser o maior produtor de leite do Nordeste porque o governo não soube desenvolver políticas públicas adequadas, principalmente para estimular o pequeno produtor”, afirmou. Na avaliação do presidente da CNA, a produção leiteira tem como base a agricultura familiar e os pecuaristas de menor escala, que necessitam de orientação técnica para elevar produtividade e renda.
Martins destacou que a principal estratégia para reduzir os efeitos da sazonalidade na produção é ampliar a oferta de alimento para o rebanho durante todo o ano. Entre as alternativas citadas estão o uso de palma forrageira, silagem e outras formas de conservação de forragens capazes de formar reservas estratégicas para os períodos de seca. “A produção de leite é sazonal porque a oferta de alimento também é sazonal. Quando o produtor aprende a formar reservas de alimento, consegue reduzir essas oscilações e manter a produtividade ao longo do ano”, afirmou. Embora o depoimento de Martins tenha focado na produção leiteira, o Rally das Forrageiras do Semiárido desenvolveu tecnologias de nutrição também para gado de corte, ovinos e caprinos, criações típicas do clima semiárido.
“Esse foi um programa idealizado para formar uma nova classe média rural no Brasil. Colocamos um agrônomo ou médico veterinário acompanhando cada produtor, orientando desde alimentação animal até gestão da propriedade. Hoje mais de 300 mil produtores já seguem essa assistência técnica e servem de exemplo para os demais”, afirmou.
Martins observou que o objetivo da CNA sempre foi reduzir a concentração de renda no campo, ampliando a competitividade dos pequenos produtores por meio da adoção de tecnologia. Segundo ele, a assistência técnica deveria ser uma política pública permanente, mas a entidade assumiu esse papel por entender que também possui responsabilidade social na aplicação dos recursos arrecadados pelo Sistema CNA/Senar.
Ao comentar a situação da cadeia do leite, Martins afirmou que o aumento da rentabilidade depende principalmente da redução dos custos de produção e voltou a defender medidas para impedir a concorrência desleal de produtos importados. “O leite será rentável quando produzir resultado econômico. E resultado se consegue reduzindo custos, principalmente produzindo alimento mais barato para o rebanho. Ao mesmo tempo, o governo precisa impedir a entrada de leite subsidiado da Argentina e do Uruguai, que distorce a concorrência”, afirmou. Segundo ele, cerca de 20% dos produtores deixaram a atividade nos últimos cinco anos, embora a produção total tenha continuado crescendo graças ao aumento da produtividade das propriedades remanescentes.
Questionado sobre o papel do governo no processo de inovação, Martins respondeu que a principal contribuição do poder público seria criar um ambiente favorável ao desenvolvimento da atividade. “O primeiro papel do governo é não atrapalhar. Se não atrapalhar, já será um grande avanço. Depois, cabe desenvolver políticas públicas consistentes para aumentar a competitividade do produtor brasileiro”, afirmou. Segundo ele, elevar a produtividade continuará sendo a principal estratégia para tornar a agropecuária nacional mais resiliente diante das mudanças climáticas e da crescente competição internacional.
Contato: tania.rabello@estadao.com
*A jornalista viaja a convite da CNA
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