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Após ruídos de junho, BC fecha flancos de comunicação e reforça ciclo data dependent

6 de agosto de 2026

Por Cícero Cotrim, Marianna Gualter e Mateus Maia

Brasília, 05/08/2026 – O Comitê de Política Monetária (Copom) usou o comunicado desta quarta-feira para reforçar que mantém o compromisso de levar a inflação à meta e sinalizar mais uma vez que os seus próximos passos vão depender da evolução do cenário, recusando novamente oferecer um guidance ao mercado.

Desta vez, a busca por graus de liberdade envolveu também um soft reboot do comunicado, que passou a ser mais enxuto e direto, depois que a decisão de junho causou uma série de ruídos com o mercado por causa do que a cúpula da instituição classificou como excesso de informações.

O Copom cortou a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 14% ao ano, um movimento em linha com as expectativas do mercado e favorecido por uma sequência de surpresas positivas desde a última reunião do colegiado, com resultados de inflação abaixo do esperado e sinais mais fortes de desaceleração da economia.

Apesar da série de dados positivos, o colegiado evitou declarar vitória. Repetiu, no comunicado, que é necessário “serenidade e cautela” na condução da política monetária, diante do significativo aumento da incerteza, da desancoragem das expectativas e de riscos elevados em torno do seu cenário-base.

E foi além ao dizer que vai manter a taxa Selic em nível restritivo para alcançar a meta. “Em decorrência da dinâmica dos riscos associados à evolução dos preços, o Comitê reafirma que a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”, disse o Copom.

Desde a reunião de junho, o IPCA-15 e o IPCA de junho, além do IPCA de julho, ficaram sensivelmente abaixo das expectativas do mercado. Os dados de atividade reforçaram o cenário de moderação esperado pelo BC, em um movimento coroado pela forte retração da produção industrial de julho, divulgada na terça-feira.

Em contrapartida, as expectativas de longo prazo de inflação continuaram aumentando diante do temor do mercado com a política fiscal que pode ser adotada a partir de 2027, por causa do favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na eleição deste ano. A alta não está relacionada à política monetária, mas pressiona o BC.

Como resultado, como antecipado pela Broadcast, a dissonância entre as estimativas de inflação do mercado e do BC cresceram. A estimativa da autoridade monetária para o IPCA do primeiro trimestre de 2028, horizonte relevante, permaneceu em 3,2%, enquanto a mediana do Focus passou de 4% para 4,07% no período.

“O comitê monitora com atenção a desancoragem adicional das expectativas de inflação para prazos mais longos na medida em que esta contribui para a determinação dos preços e aumenta o custo de desinflação”, disse o Copom nesta quarta-feira.

Em linhas gerais, o Copom sinalizou que continua atento para a evolução dos dados correntes e das expectativas e deixou a porta aberta para seus próximos movimentos, buscando comprar graus de liberdade – mas garantindo, ao mesmo tempo, que os juros vão permanecer em território restritivo.

Horas antes, nesta quarta-feira, o presidente Lula reclamou do nível da taxa Selic, dizendo que o governo precisaria buscar uma proposta de “seriedade fiscal” para permitir uma baixa dos juros. Se o mandatário levar a própria declaração a sério e for reeleito, as expectativas podem cair e o BC pode ter espaço para aprofundar o ciclo de cortes.

Contato: cicero.cotrim@broadcast.com.br, marianna.gualter@broadcast.com.br e mateus.maia@broadcast.com.br

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