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Especialistas defendem investimentos, refino, produção de ímãs e segurança jurídica para fortalecer a cadeia produtiva de terras raras no Brasil.
10 de junho de 2026
Em seminário do Ibram, representantes da indústria, academia e mineração apontam gargalos em refino, produção de ímãs, financiamento e segurança jurídica para consolidar cadeia nacional

Transformar reservas minerais em uma cadeia industrial capaz de produzir componentes de alto valor agregado foi apontado como o principal desafio do Brasil para aproveitar a crescente demanda global por terras raras. O diagnóstico foi compartilhado por representantes da indústria, da academia e de empresas de mineração durante painel sobre a cadeia das Terras Raras, realizado nesta quarta-feira (10), no Seminário Internacional de Minerais Críticos e Estratégicos do IBRAM.
Embora o país possua importantes depósitos desses minerais estratégicos, os participantes destacaram que a competitividade brasileira dependerá da capacidade de desenvolver etapas hoje concentradas em poucos países, especialmente a separação, o refino e a fabricação de ímãs permanentes, insumos considerados essenciais para setores como veículos elétricos, energia eólica, defesa, saúde e tecnologias digitais.
“O desafio do Brasil é transformar a dotação geológica, a dotação mineral brasileira, em cadeia produtiva, capacidade tecnológica, separação, processamento, fornecimento confiável e de qualidade”, afirmou Jorge Boeira, analista de Produtividade e Inovação da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).
Segundo Boeira, apesar do nome, as terras raras não são escassas na natureza. O caráter estratégico desses elementos está relacionado à complexidade de separação e ao papel crítico que desempenham em diversas aplicações industriais.
Um dos pontos recorrentes do debate foi a elevada concentração global da cadeia produtiva na China.
De acordo com Boeira, os ímãs permanentes concentram aproximadamente 96% do valor econômico da cadeia das terras raras e permanecem fortemente dependentes da capacidade industrial chinesa.
“A cadeia é hoje altamente concentrada, especialmente em refino e fabricação de ímãs, especialmente na China“, disse.
A avaliação foi reforçada por Ricardo Grossi, presidente da Serra Verde Pesquisa e Mineração e COO do Grupo Serra Verde.
“Nós somos ainda um mercado concentrado. Noventa por cento da mineração está na China, 90% da separação está na China e mais de 90% do restante da cadeia também está na China“, afirmou.
Segundo ele, a criação de uma indústria alternativa exigirá tempo, investimentos e coordenação entre diferentes atores.
“Não se constrói nada, ainda mais num mercado tão desafiador, num curto espaço de tempo.“
Entre as iniciativas apresentadas durante o painel está o Magbras, projeto voltado à produção nacional de ímãs permanentes de terras raras.
O pesquisador Luís Gonzaga Trabasso, do Instituto SENAI de Inovação em Sistemas de Manufatura e Processamento a Laser, explicou que o programa recebeu financiamento de R$ 73 milhões por meio de recursos do antigo Rota 2030, atual programa Mover.
Segundo ele, o projeto reúne montadoras, mineradoras, institutos de pesquisa e universidades para estruturar todas as etapas produtivas, desde a mineração até a reciclagem dos ímãs.
“Nós trabalhamos com o ciclo completo, desde a mina até o ímã“, afirmou.

Atualmente, o projeto opera de forma experimental e utiliza estruturas já existentes em diferentes estados para executar cada fase da cadeia.
“O Magbras é um demonstrador industrial. A ideia é construir uma ponte provisória que leve para uma produção industrial de fato.”
A construção da cadeia nacional também passa pela economia circular.
O professor Giancarlo Lovón-Canchumani, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), destacou que universidades e institutos de pesquisa vêm desenvolvendo tecnologias voltadas tanto à produção primária quanto à reciclagem de materiais contendo terras raras.
Segundo ele, estudos preliminares apontam que processos baseados em reciclagem podem reduzir em até 56% a pegada de carbono em comparação à rota convencional.
“A gente quer ver a visão do ciclo de vida. Vamos trabalhar da mineração à produção e à reciclagem“, afirmou.
Além dos desafios tecnológicos, participantes defenderam avanços regulatórios para atrair investimentos.
A gerente corporativa da Viridis Mineração, Márcia Cunha, afirmou que a criação de um marco legal eficiente será determinante para garantir financiamento e contratos de longo prazo.
“Se a gente não tiver uma norma robusta, que traga segurança jurídica para empresas, investidores e mercado, a gente não vai conseguir avançar“, disse.
A empresa inaugurou no fim de maio uma planta de demonstração em Poços de Caldas (MG) voltada à produção de carbonato de terras raras e planeja implantar unidades-piloto para separação de óxidos e reciclagem de ímãs.
Já Renato Gonzaga, presidente no Brasil da Brazilian Rare Earths, defendeu que o país priorize previsibilidade regulatória e evite medidas que aumentem a percepção de risco para investidores.
“O que a gente quer é um ambiente de previsibilidade. Previsibilidade que não afasta o capital e que não torne esse capital mais caro“, afirmou.
Segundo ele, o principal desafio do setor continua sendo a obtenção de recursos para financiar projetos em diferentes etapas da cadeia produtiva.
Para os participantes, a consolidação de uma indústria brasileira de terras raras dependerá da combinação de investimentos, desenvolvimento tecnológico, formação de mão de obra, segurança regulatória e integração entre empresas, universidades e governos.
“Isso não é uma corrida de 100 metros. Isso é uma maratona“, resumiu Renato Gonzaga.
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