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19 de agosto de 2026
Artigo de: Fernando Honorato Barbosa

As taxas longas de juros estão elevadas globalmente, fruto de uma dívida pública em seu recorde histórico, com governos apostando em soluções via expansão de uma produtividade que não está assegurada. Os mercados já não absorvem esse ritmo de emissão sem exigir um prêmio maior, e esse prêmio se traduz em aperto nas condições financeiras. Some-se a esse quadro um conjunto mais amplo de temas e incertezas, seja sobre a política econômica vinda dos EUA, fragmentação do comércio global, incertezas geopolíticas e gastos militares em expansão e temos a taxa de juros de 30 anos nos EUA em seu maior nível em décadas.
Ainda que estejamos observando um forte aperto nas condições financeiras globais, uma parte do movimento é apenas prêmio de inflação. Essa piora nas perspectivas para os preços combina elementos da dívida pública, mas também os efeitos do choque do petróleo e da comunicação mais recente do Fed. Sem a orientação futura que o banco central costumava dar aos mercados e diante de dúvidas quanto ao compromisso do colegiado em seu mandato de inflação, os investidores respondem de forma menos coordenada.
Esse ruído se somou a choques técnicos simultâneos, que incluem a liquidação forçada de posições ligadas ao tema de IA, movimentos relevantes no iene e emissões de dívidas corporativas que competem pelo espaço com a dívida pública. Esse fenômeno não é exclusivo aos EUA. No Japão, a normalização do BoJ segue tímida diante do diferencial de juros e, na Europa, as altas do BCE se parecem mais com ajustes do que com aperto restritivo. Nesse quadro, o dólar, em si, tem se mantido relativamente estável contra as moedas dos países desenvolvidos.
Ainda assim, isso nos leva a um ponto central: se houver condições cíclicas para que o Fed evite a alta da taxa básica, o cenário de juros longos pode mudar de figura, ainda que o tema fiscal continue no radar.
A economia americana segue forte, mas com alguns efeitos concentrados. O PIB do segundo trimestre cresceu 1,5% e a demanda doméstica avançou 3,9%, puxada por um consumo que ainda se apoia em estímulos fiscais e efeitos-riqueza da valorização dos mercados, já que poupança e massa salarial
estão abaixo do padrão pré-pandemia. Do lado dos investimentos, por exemplo, o capex combinado das hyperscalers deve terminar 2026 acima de US$ 700 bilhões, cerca de sete vezes o nível do fim de 2020, com expectativa de crescimento até 2030. Assim, a economia “fora” do mundo da IA e dos estímulos exibe certa falta de dinamismo.
No mercado de trabalho, o quadro também é ambíguo, mas tem mostrado perda de fôlego. A taxa de desemprego permanece estável, mas essa estabilidade vem menos de vagas criadas e mais da queda na participação da força de trabalho. Esse padrão é pouco comum fora de crises e mistura dois
fenômenos difíceis de separar: uma transformação estrutural do mercado (menor imigração e oferta de trabalho entre os jovens, além da postura pós-pandemia) com uma conjuntura simplesmente mais fraca. Sob taxa de participação constante, o desemprego estaria em 5,4%, fruto de uma geração de vagas bastante mais fraca, recentemente.
A inflação, por sua vez, atravessou uma sequência incomum de choques – shutdown, tarifas, IA, petróleo – mas as leituras mais recentes trouxeram uma composição relativamente benigna, com o núcleo de preços mais próximo das métricas desejadas pelo Fed. O petróleo, por sua vez, ficou bem abaixo dos piores cenários projetados no início do ano e tem respondido menos aos desdobramentos da guerra, graças a uma resposta de oferta, eficiência energética, usos de estoques e uma postura chinesa que contribui para esse quadro, mostrando que a economia global tem alguma capacidade de adaptação.
Assim, se o mercado de trabalho seguir em ritmo lento e a inflação se mantiver bem-comportada, abre-se espaço para o Fed evitar a alta de juros sem comprometer sua credibilidade. Esse é justamente o cenário base do time de Pesquisa Econômica do Bradesco.
No conjunto, o quadro é de resiliência sobre bases estreitas: consumo apoiado no efeito riqueza, crescimento ancorado em IA e um mercado de trabalho cuja estabilidade esconde fragilidades de composição. Nenhuma dessas forças é claramente insustentável no curto prazo, mas todas dependem de condições já tensionadas. O tema dos déficits, junto com a nova onda de emissão privada ligada à IA, deve persistir, mas se o Fed confirmar espaço para não apertar mais, parte do prêmio atual pode se dissipar, ajudando a mitigar, ao menos parcialmente, o aperto das condições financeiras que temos observado.
Fernando Honorato Barbosa é economista-chefe do Bradesco e escreve para a Broadcast na terceira terça-feira de cada mês. Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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