19 de agosto de 2026
Artigo de: Andrea Cordeiro

Brasil, Paraguai e Argentina se preparam para a safra 2026/27 em meio a desafios climáticos, margens pressionadas e decisões sobre tecnologia que podem redefinir produtividade, custos e resultados
Nos últimos dias, estive no Paraguai para uma sequência de reuniões e encontros com famílias produtoras rurais, empresas e diferentes agentes ligados ao agronegócio. Mais do que uma agenda profissional internacional, essa passagem pelo país foi uma oportunidade de estar próxima da origem produtora, investidores, tradings, canais de distribuição e tomadores de decisão, ouvindo diferentes percepções sobre o momento atual do agro e os desafios que se desenham para o próximo ciclo. Voltei dessas conversas com uma percepção ainda mais clara: a América do Sul está a um passo de uma safra decisiva, que exigirá muito mais do que capacidade de produzir.
Estamos diante de uma safra de múltiplos desafios. Custos crescentes, margens pressionadas, um ciclo de preços mais desafiador, variações cambiais, incertezas climáticas e os possíveis impactos do El Niño formam um cenário que reduz a margem para erros e não permite negligência nos protocolos de gestão. Individualmente, nenhuma dessas variáveis é desconhecida das famílias produtoras rurais. O desafio está justamente na possibilidade de sobreposição. E quando vários riscos passam a dividir a mesma mesa, errar fica ainda mais caro.
Duas safras dividem hoje a mesma mesa de decisão
A safra 2026/27 começa a ser desenhada enquanto a 2025/26 ainda está sendo processada comercial e financeiramente. No Brasil, pouco mais de 70% da soja 2025/26 foi comercializada, enquanto as vendas antecipadas da safra 2026/27 estão próximas de 15%. De um lado, parte da safra atual ainda está vinculada a produto a comercializar, compromissos financeiros e margens a realizar. De outro, as famílias produtoras rurais já precisam decidir sobre custeio, crédito, insumos, tecnologia, comercialização e proteção para um ciclo que ainda não chegou materialmente ao campo. Por isso, defendo que a colheita não representa, por si só, o encerramento de uma safra. Enquanto houver produto a comercializar ou escoar, compromissos a liquidar e margem a proteger, a safra continua sendo gerida.
O Brasil chega a esse momento depois de uma produção expressiva em 2025/26, mas toneladas produzidas são insuficientes para explicar a realidade econômica do campo. Dentro de uma mesma safra convivem desempenhos, estruturas financeiras, níveis de endividamento e custos muito diferentes. Uma família produtora rural pode colher bem e enfrentar margens apertadas. Pode alcançar excelência agronômica e errar comercialmente. Pode produzir mais e ganhar menos. E pode chegar à próxima safra carregando efeitos financeiros da anterior.
No Paraguai, encontrei um agro cada vez mais tecnológico, mais sustentável nos manejos e mais conectado ao mercado internacional, ao mesmo tempo em que lida com os efeitos dessa própria integração. A soja continua sendo fundamental para a economia paraguaia, mas sua força exportadora vai além dos grãos. A proteína animal amplia relevância e presença internacional. Entre janeiro e julho de 2026, as exportações paraguaias de carne bovina geraram aproximadamente US$ 1,12 bilhão, mesmo com redução no volume embarcado. No primeiro semestre, as exportações de carne de aves cresceram mais de 70% em volume. Essa força exportadora gera divisas, abre mercados e fortalece cadeias produtivas, mas também produz reflexos internos. Uma proteína mais valorizada internacionalmente pode representar uma prateleira mais cara para o consumidor paraguaio. É um paradigma clássico das economias agroexportadoras: aquilo que fortalece sua inserção internacional pode, em determinados momentos, pressionar os preços internos.
Outra variável importante é o câmbio. A valorização do guarani frente ao dólar pode favorecer componentes importados e aliviar parte dos custos dolarizados, mas interfere na conversão das receitas de exportação para a moeda local e na competitividade. Para quem produz e comercializa commodities, moeda nunca é apenas uma variável macroeconômica. Câmbio também é margem.
O potencial produtivo da safra 2026/27 existe, mas ainda precisará ser construído dentro das lavouras. Neste pré-plantio, considero precipitado tratar uma grande safra sul-americana como algo definitivo. Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai possuem escala, conhecimento técnico e regiões agrícolas altamente eficientes. Mas potencial não é produção realizada. Quanto investir? Qual pacote tecnológico utilizar? Onde equacionar custos sem comprometer produtividade? Quanto financiar e a que custo? Quanto comercializar antecipadamente? Qual produtividade será necessária para alcançar o equilíbrio? Quanto risco é possível carregar? Essas perguntas ganham relevância porque os custos estão elevados, o dinheiro continua caro e as margens exigem atenção.
No Paraguai, não há grandes questionamentos sobre área de plantio, historicamente mais constante, mas existem dúvidas sobre o nível de tecnologia a ser utilizado. Assim como no Brasil, reduções em fertilidade, sementes, defensivos ou aplicações podem aliviar o desembolso inicialmente, mas também aumentar a vulnerabilidade das lavouras e limitar seu potencial produtivo. No sentido oposto, manter um pacote tecnológico elevado sem considerar capacidade financeira, custo do capital, produtividade de equilíbrio e perspectiva de preços também aumenta a exposição econômica. Não existe uma resposta única. Existe gestão. E gestão foi um dos temas recorrentes nas conversas durante minha passagem pelo Paraguai. O dinheiro continua caro, e a próxima safra começa a consumir capital muito antes de começar a produzir receita.
No Brasil, o volume de recursos destinado ao financiamento da agricultura é teoricamente robusto, mas disponibilidade de crédito não significa capital barato nem burocracia descomplicada. Juros, endividamento acumulado, renegociações e maior seletividade na concessão de crédito aumentam o peso da estrutura financeira nas decisões das famílias produtoras rurais. Com características diferentes, Paraguai e Argentina enfrentam a mesma necessidade de equilibrar preços dos insumos, câmbio, financiamento, custos e expectativa de receita.
A decisão tecnológica da próxima safra será também uma decisão financeira. Enquanto a América do Sul decide quanto e como plantar, o Hemisfério Norte ainda está definindo a oferta que chegará ao mercado. Brasil, Paraguai e Argentina começam a comprometer capital para 2026/27 justamente quando os Estados Unidos atravessam uma fase determinante de suas lavouras.
O relatório de agosto do USDA mostrou como essas projeções continuam em movimento. No milho americano, a produtividade foi reduzida para 180,7 bushels por acre e a produção estimada em 16,013 bilhões de bushels, ainda suficiente para representar, se confirmada, a segunda maior safra da história. Na soja, produção, produtividade, esmagamento, exportações, demanda internacional e biocombustíveis continuam influenciando o balanço global. Europa e região do Mar Negro adicionam outras variáveis à oferta. As famílias produtoras rurais sul-americanas, portanto, começam a investir antes de terem previsibilidade sobre os preços que encontrarão na colheita. Chicago muda. Os fundos mudam posições. A demanda é cíclica. As projeções de produção são revisadas. O câmbio oscila. E a margem precisa ser construída dentro desse ambiente. Acompanhar os fundamentos de perto ganha ainda mais importância em momentos de maior incerteza.
Daqui a duas semanas, embarco para os Estados Unidos justamente em uma fase importante para a definição das safras norte-americanas de soja e milho. Participarei de alguns dias da 50ª edição do Crop Tour EUA Labhoro e estarei também na Farm Progress Show representando o Grupo. Será um momento para observar in loco parte dos fundamentos que o mercado vem precificando nos últimos meses: condições das lavouras, expectativas de produtividade e percepções dos diferentes agentes do agro norte-americano.
Enquanto Brasil, Paraguai, Argentina e Uruguai se preparam para plantar, os Estados Unidos caminham para a definição de uma safra que ajudará a determinar o balanço mundial de oferta e demanda e o ambiente de preços dos próximos meses.
Em um mercado tão interdependente, acompanhar diferentes origens ajuda a compreender movimentos que rapidamente chegam às decisões tomadas dentro e fora da porteira.
A volatilidade deixou de ser um evento extraordinário e passou a fazer parte da rotina de gestão. O quadro macroeconômico e geopolítico adiciona outra camada de complexidade. Acontecimentos a milhares de quilômetros das lavouras sul-americanas chegam rapidamente aos custos e às receitas do agro. Conflitos no Mar Negro afetam grãos, fertilizantes e logística. Tensões no Oriente Médio atingem petróleo, energia, seguros, fretes e rotas marítimas. Disputas comerciais podem redirecionar fluxos de commodities, enquanto decisões de política monetária influenciam juros, moedas e capital. A geopolítica nunca foi apenas contexto. Em um mercado global, ela está dentro da porteira.
Energia afeta fertilizantes e fretes. Juros afetam capital. Câmbio afeta custos e receita. Conflitos alteram rotas. Política comercial muda destinos. Tudo isso chega à relação entre preço, custo e margem. Se mercado, custos e geopolítica já tornam a equação complexa, o clima adiciona talvez a variável mais difícil de controlar.
O El Niño está presente e vem ganhando intensidade. As projeções mais recentes indicam elevada probabilidade de um evento muito forte nos próximos meses. Parte importante do desenvolvimento do fenômeno poderá coincidir com a implantação e o desenvolvimento das culturas sul-americanas. Mas El Niño não pode ser tratado simplesmente como sinônimo de safra boa ou ruim. Seus efeitos dependem da região, da intensidade e, principalmente, da distribuição das precipitações ao longo do ciclo.
No Sul do Brasil, Paraguai e Argentina, maior disponibilidade hídrica pode favorecer as culturas em determinados períodos, enquanto excessos podem trazer alagamentos, erosão, perdas de nutrientes, maior pressão de doenças e dificuldades operacionais e logísticas. Em outras regiões brasileiras, especialmente no Centro-Norte, temperaturas elevadas e irregularidade das precipitações podem criar desafios distintos. Um atraso na implantação da soja pode ainda comprimir posteriormente a janela ideal do milho de segunda safra. Por isso, a pergunta não deve ser simplesmente se teremos El Niño. Precisamos observar onde, quanto e, principalmente, quando choverá. Talvez o maior risco da próxima safra não esteja em uma única adversidade, mas em administrar várias delas ao mesmo tempo.
Foi ouvindo famílias produtoras rurais e diferentes agentes do agro nos últimos meses no Brasil e, mais recentemente, no Paraguai que essa percepção ganhou ainda mais força. Clima, custos, crédito, tecnologia, ciclo de preços, câmbio, logística, geopolítica e comercialização estão conectados. O que torna 2026/27 particularmente desafiadora é a possibilidade de vários desses riscos se manifestarem simultaneamente. É uma safra de múltiplos desafios. E não há espaço para negligenciar protocolos de gestão.
Isso não significa assumir uma visão pessimista. Significa reconhecer que o potencial produtivo sul-americano ainda precisa ser construído e protegido e que boa produtividade terá também de ser transformada em resultado econômico. Quando não podemos controlar todas as variáveis, precisamos aumentar a qualidade das decisões sobre aquelas que podemos controlar.
Uma família produtora rural não controla clima, Chicago, câmbio, conflitos geopolíticos, governos ou movimentos dos grandes fundos internacionais. Mas pode conhecer profundamente seus custos, calcular sua produtividade de equilíbrio, avaliar endividamento, estruturar crédito, definir o pacote tecnológico, estabelecer protocolos de acompanhamento, construir uma política de comercialização, utilizar instrumentos de proteção e decidir quanto risco está disposta a carregar. É justamente por isso que gestão ganha ainda mais importância nesta safra.
A safra 2026/27 não começa com uma promessa de recorde. Começa com um potencial que ainda precisa ser construído e, sobretudo, protegido. A América do Sul continuará ocupando posição decisiva na oferta mundial de alimentos. O tamanho da produção será uma parte importante da história. A outra será determinada pela capacidade de transformar produtividade em margem, informação em inteligência e risco em decisão. Porque, quando a margem para errar diminui, gestão deixa de ser diferencial. Passa a ser condição para atravessar a safra.
Andrea Cordeiro é advogada, especialista em Agronegócios pela Esalq/USP, mestranda em Negócios com China e Ásia Pacífico pela Fundação Universitária Ibero-americana
Veja também