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Juros, dívida e a armadilha da causalidade

13 de agosto de 2026

Artigo de: Márcio Holland

Juros, dívida e a armadilha da causalidade

Há algo curioso no debate fiscal brasileiro. Quase todos concordamos com a conta, mas frequentemente discordamos quando tentamos interpretá-la. Os números mostram que os juros passaram a responder por parcela muito elevada da expansão recente da dívida pública. A partir daí, porém, é comum transformar uma identidade contábil em uma explicação causal.

Em junho de 2026, a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 81,9% do PIB, ante 73,5% em dezembro de 2022. Em valores nominais, o estoque passou de R$ 7,2 trilhões para R$ 10,8 trilhões. Ao mesmo tempo, os juros nominais do setor público consolidado, que somaram R$ 586 bilhões em 2022, chegaram a cerca de R$ 1,2 trilhão, nos 12 meses até junho de 2026.

A conta é inequívoca. O estoque da dívida aumentou muito e os juros foram componentes relevantes dessa alta no período recente. Mas é justamente aqui que começa o problema da interpretação. Contabilidade não é dinâmica econômica nem causalidade.

A dinâmica da dívida pública pode ser decomposta, de forma simplificada, entre resultado primário, pagamento de juros, crescimento do PIB e outros ajustes patrimoniais. Se a taxa de juros é elevada e o estoque da dívida é grande, a despesa financeira será necessariamente elevada. Nosso caso recente é emblemático e tem causado muita confusão.

Uma deterioração das expectativas fiscais, como a que estamos experimentando, pode elevar o prêmio de risco, aumentar as taxas de juros de mercado, pressionar as expectativas de inflação e tornar mais difícil a condução da política monetária. Juros maiores, por sua vez, elevam a despesa financeira e podem acelerar o crescimento da dívida. Surge, assim, um mecanismo de retroalimentação. É aqui que muitos se perdem na interpretação dos fatos.

Se os juros explicam boa parte da variação da dívida, precisamos explicar os determinantes dos juros. E eles são múltiplos: inflação corrente e esperada, potência da política monetária, condições financeiras internacionais, câmbio, crescimento potencial, prêmio de risco, estrutura e indexação da dívida, indexação de preços no sistema econômico, poupança doméstica, crédito direcionado e, evidentemente, a situação fiscal corrente e a percepção sobre a sustentabilidade fiscal ao longo do tempo.

Não se trata de afirmar que todo juro elevado no Brasil decorre exclusivamente do gasto público. Choques externos importam. A política monetária americana importa. O câmbio importa. Commodities importam. A credibilidade da política monetária importa. A inflação passada e esperada importa. O Banco Central tem uma função clara de preservar a estabilidade de preços. Mas o fiscal é um dos determinantes mais relevantes do custo de financiamento soberano e das expectativas.

A comparação dos últimos anos é instrutiva. A Selic estava em 13,75% ao ano no final de 2022 e permaneceu em patamar elevado desde então, com um curto ciclo de queda entre 2023 e 2024, antes de voltar a subir e atingir 15% ao ano. A taxa Selic média em todo esse período, de janeiro de 2023 a junho de 2026, foi de 13,16% ao ano, um patamar muito elevado, que coloca o Brasil entre os países com as maiores taxas de juros reais do mundo.

O aumento da despesa financeira, contudo, foi muito maior do que a variação da taxa básica. Uma razão elementar é que taxas de juros elevadas passaram a incidir sobre um estoque de dívida muito maior. Isso mostra como estoque e preço interagem. Mas, também, mostra outra coisa: se quisermos reduzir de forma sustentável a conta de juros, não basta desejar uma Selic menor.

Reduzir juros de maneira sustentável exige atacar suas causas: melhorar a trajetória fiscal, de modo a gerar resultados primários compatíveis com a estabilização da dívida; controlar o crescimento das despesas obrigatórias; fortalecer a credibilidade das regras fiscais; reduzir as incertezas da política macroeconômica; elevar a produtividade da economia, criando condições para maior crescimento potencial; entre outras medidas.

Se o diagnóstico for simplesmente “a dívida aumenta porque pagamos muitos juros”, a solução parecerá simples como “vamos reduzir os juros”. Mas reduzir juros sem enfrentar suas causas pode produzir o efeito contrário ao desejado. Sem equilíbrio fiscal consistente ao longo do tempo, os preços tendem a subir e, com eles, a taxa de juros.

Em suma, juros elevados ajudam a aumentar a dívida pública, mas essa é uma constatação contábil, não uma explicação para o elevado custo do dinheiro no Brasil. A questão decisiva é entender por que o País precisa pagar juros tão altos. Sem enfrentar as causas, como fiscais, inflacionárias, de risco e de baixo crescimento potencial, não haverá redução sustentável do custo do dinheiro. A contabilidade mostra o tamanho da conta; a política econômica precisa atacar as razões que fazem essa conta ser tão alta.

Márcio Holland é professor da FGV EESP, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, conselheiro na Raiô Benefícios, membro do Conselho Superior de Economia da FIESP, e sócio fundador da Genesys Consulting. É autor do livro “Taxa de Juros no Brasil”, Editora Alta Cult. 2026.

Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.

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