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13 de agosto de 2026
Por André Marinho e Altamiro Silva Junior
São Paulo, 13/08/2026 – Depois de um primeiro semestre difícil, o Banco do Brasil aposta todas as fichas na Medida Provisória 1376, publicada pelo governo em julho para facilitar a renegociação de dívidas do agronegócio, para superar o que o próprio CFO da instituição, Geovanne Tobias, classificou de “tormenta” e “meteoro” sobre o agronegócio.
O banco público espera renegociar cerca de R$ 30 bilhões em dívidas atrasadas do agronegócio em um primeiro momento, o que já promoveria alívio sensível na inadimplência e abriria caminho para uma rentabilidade de volta aos dois dígitos. Como resultado, o BB segue confiante na capacidade de entregar provisões e lucro dentro das projeções já estabelecidas.
No trimestre, o banco registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,9 bilhões, uma alta de 3,3% em base anual, acima das estimativas dos analistas consultados pelo Prévias Broadcast. O retorno sobre patrimônio (RoE) avançou 1 ponto porcentual na passagem trimestral, a 8,3%, enquanto a margem financeira demonstrou certa resiliência.
Por outro lado, a inadimplência manteve a trajetória ascendente e fechou junho em 5,61%, pelo critério de atrasos superiores a 90 dias. Em resposta, as despesas líquidas com provisões contra calotes, o chamado “custo do crédito”, saltaram 16% no confronto anual, para R$ 18,5 bilhões.
Na apresentação dos resultados, a presidente do BB, Tarciana Medeiros, foi franca sobre o “tamanho do desafio”, mas reforçou perspectivas mais benignas com a MP do agro. “Com essa atuação, nossa expectativa é retomar, nos próximos meses, patamares de pontualidade de pagamentos na casa dos 90%, apoiando a convergência do custo de crédito para o intervalo do guidance“, disse. Pelo guidance, o custo de crédito deve ficar entre R$ 65 e R$ 70 bi este ano. No primeiro semestre, foi de R$ 37,7 bilhões.
Incertezas
O otimismo, no entanto, parece insuficiente para convencer o mercado de que o pior já passou. O ano já chega à metade do terceiro trimestre e as repactuações ainda nem começaram efetivamente. A MP tem tido problemas de implementação, em meio a relatos de regras ainda pendentes de equalização de taxas de juros e restrições orçamentárias. Por isso, qualquer eventual impacto positivo ficaria para os três meses finais de 2026, em um cronograma que alimenta dúvidas sobre o guidance. Em paralelo, investidores ainda tentam digerir o acentuado repique na inadimplência em cartões de crédito, que saltou mais de 7 pontos porcentuais em um único trimestre, a 14,58%.
Somados esses dois fatores, a ações do BB derreteram ao longo da teleconferência em que a liderança do banco apresentou os resultados. Por volta das 12h30, os papéis caíam mais de 3% e contaminavam os pares. O temor é de que a deterioração da carteira de pessoa física seja o prenúncio de um movimento mais generalizado em meio à escalada do endividamento das famílias.
Para o head de research da Genial Investimentos, Eduardo Nishio, a degradação no segmento de pessoas físicas sugere que a normalização do ciclo pode demorar mais tempo que o previsto originalmente, após o agro encontrar um primeiro ponto de estabilização. “A questão passa a ser se a estabilização do agro será suficiente para compensar a deterioração que começa a aparecer em outras carteiras”, avalia em relatório.
Os executivos do BB, de sua parte, buscaram minimizar as preocupações em relação ao portfólio de cartões. Explicaram que a piora ficou concentrada nos públicos das classes D e E, por conta de um mecanismo de reparcelamento de faturas automático, que acabou suspenso.
Já no consignado, o aumento nos atrasos foi atribuído aos gargalos na operacionalização de garantia do FGTS e por conta das mudanças de emprego da população, que deixam a dívida velha na empresa anterior, aumentando a inadimplência, o que a portabilidade de salário na modalidade voltada para profissionais CLTs pode ajudar a resolver. “Temos confiança na normalização dessa inadimplência”, disse.
A “nítida deterioração” da qualidade dos ativos de crédito é o ponto que o BTG Pactual chama atenção ao avaliar o balanço do BB. O analista Eduardo Rosman e sua equipe ressaltam que a inadimplência dobrou em cartões e segue pressionada no agro. Para ele, uma revisão para baixo nas projeções (guidances) de 2026 é apenas uma questão de tempo. Outro fator é a aposta do banco na MP 1376, que tem tido problemas de implementação maiores que o antecipado. Esse ponto sugere que a normalização da carteira de crédito rural do banco será “mais lenta, menos linear e mais incerta”, ressalta o BTG.
O BB acredita ainda que os efeitos da MP do agro devem ter reflexos positivos nos demais segmentos, uma vez que muitos dos produtores rurais também são clientes PF. Ao mesmo tempo, embora demonstre preocupação, a instituição entende que o El Niño só terá algum eventual efeito no ano que vem, se tiver. Segundo o vice-presidente de Agronegócios do BB, Gilson Bittencourt, a perda efetiva de produção por conta do fenômeno, historicamente, costuma ser pequena.
Este conjunto de variáveis deve apoiar um custo de crédito mais perto do topo do guidance, mas o lucro deve ficar na parte inferior do intervalo de projeções, que vai de R$ 18 bilhões a R$ 22 bilhões, disseram os representantes do BB.
Contato: andre.marinho@estadao.com; altamiro.junior@estadao.com
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