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ITMOs: A Arábia Saudita brasileira da nova economia do carbono

11 de agosto de 2026

Artigo de: David Canassa

ITMOs: A Arábia Saudita brasileira da nova economia do carbono

Por David Canassa*

Na COP30, em Belém, a expressão “o Brasil é a Arábia Saudita das Soluções Baseadas na Natureza” circulou intensamente nos corredores. A analogia, repetida por diplomatas, investidores e líderes climáticos, é ousada, mas instrutiva. Assim como a Arábia Saudita se posicionou como fornecedor central da economia industrial do século XX por suas reservas de petróleo, o Brasil concentra o ativo mais cobiçado da economia descarbonizada do século XXI: a capacidade de geração de créditos de carbono a partir de sua mitigação em escala, de sua natureza conservada e de sua agricultura de inovação contínua. A diferença é que ecossistemas não são reservas extraíveis. São patrimônio ambiental cujas funções ecossistêmicas transcendem o sequestro de carbono. Como patrimônio, exigem permanência, monitoramento contínuo e sustentam as condições produtivas do país, hoje e no futuro.

Traduzido para a linguagem dos negócios, isso significa que cada tonelada de CO2 evitado ou removido no território nacional pode, mediante autorização governamental, ser exportada como ativo financeiro a países que precisam cumprir metas climáticas – uma commodity com preço, comprador e balança comercial.
Os Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente (ITMOs), previstos no Artigo 6.2 do Acordo de Paris, representam o instrumento pelo qual essa capacidade pode ser transacionada no mercado internacional. Trata-se do mecanismo que permite a países negociarem bilateralmente resultados de mitigação de GEE, com ajuste contábil correspondente para evitar dupla contagem. Gana emitiu e transferiu quase 12 mil ITMOs para a Suíça em julho de 2025. A Tailândia realizou sua primeira transferência em dezembro de 2023, com o programa Bangkok e-bus. O Brasil, apesar de seu potencial, ainda não autorizou nenhum ITMO.

É importante reconhecer, contudo, que a proposta brasileira de regulamentação desse mercado está em consulta pública e que a cautela do governo tem base legítima: quando o Brasil vende um ITMO, precisa adicionar essa tonelada ao seu balanço de emissões reportado à UNFCCC. Vender demais compromete o cumprimento da própria NDC brasileira. O limite de 50% dos créditos voluntários gerados e o início em 2031 são, em parte, mecanismos propostos de proteção contra esse risco fiscal. A questão não é se a cautela é justificada. A questão é se o grau de complexidade escolhido na proposta é proporcional ao risco que se busca mitigar.

A comparação com Gana e Tailândia é útil como referência metodológica, mas o Brasil precisa de um sistema que abranja um conjunto maior de aspectos, como as SBN, agricultura, resíduos, indústria e energia – cada um com metodologias, riscos e perfis de adicionalidade distintos. Parte da complexidade do processo reflete a complexidade do portfólio nacional, não apenas ineficiência. Mas isso não justifica um processo decisório longo para cada ITMO a ser aprovado, com 11 etapas e 4 instâncias decisórias, enquanto 5 etapas bastaram em Gana.

O arsenal brasileiro: frentes de geração de créditos
A primeira frente são as Soluções Baseadas na Natureza (SBN). O Brasil detém 66,3% de seu território preservado em vegetação nativa e seus projetos de REDD+ (conservação florestal) e ARR (restauração e reflorestamento) estão entre os mais cobiçados do mercado voluntário global. Em 2025, o Google anunciou sua maior compra de remoções de carbono: 200 mil toneladas com a startup brasileira Mombak, voltada à restauração de áreas degradadas na Amazônia. Projetos florestais, porém, têm horizontes de 10 a 40 anos para atingir potencial máximo de mitigação – o que exige arcabouço com previsibilidade de longo prazo, não janelas quinquenais que ignoram a realidade biológica e econômica desses ativos.

A segunda frente é a agricultura de baixo carbono. Com 276 milhões de hectares de terra agrícola e o Plano ABC+ – que visa mitigar 1,1 bilhão de toneladas de CO2 equivalente -, o Brasil tem potencial significativo de captura de carbono no solo. Estudo publicado na Nature Communications em janeiro de 2026 destaca o país como ator chave nessa agenda. Mas escalar práticas é diferente de escalar geração de créditos: o MRV (monitoramento, reporte e verificação) em escala agrícola é caro, técnico e sujeito a variabilidade. Sem metodologias simplificadas e modelos de agregação – como Programas de Atividades (PoA) e cooperativas -, a maioria dos produtores não consegue gerar créditos de carbono com viabilidade econômica, e a geração se concentraria em grandes propriedades. O risco de não-permanência também exige atenção, pois uma queimada ou mudança de cultura pode reverter o carbono sequestrado.

A terceira frente são os resíduos. Aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto geram metano – gás com potencial de aquecimento mais de 80 vezes superior ao CO2 em horizonte de 20 anos. O Brasil opera mais de 800 plantas de biogás e 23 de biometano. Em 2025, a BP anunciou planos para desenvolver pelo menos nove projetos de biometano no país. A captura e uso de metano em aterros e sistemas de esgoto gera créditos de altíssima qualidade e produz energia renovável e bioinsumos, uma intersecção entre saneamento, energia e clima que combina necessidade de infraestrutura, retorno financeiro e impacto ambiental mensurável.
Para um país onde aproximadamente 40% da população ainda não tem acesso a coleta de esgoto, essa frente representa uma oportunidade dupla: cada nova estação de tratamento ou aterro gerido é simultaneamente infraestrutura sanitária e fonte de créditos de carbono de alta integridade.

A quarta frente é tecnológica. Melhorias de eficiência industrial, eletrificação de processos, transição de combustíveis fósseis e abatimento de GEE em processos produtivos compõem um portfólio de créditos de adicionalidade inequívoca e medição precisa. O Brasil aprovou recentemente a transição de 80 projetos do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (MDL) para o Mecanismo de Crédito do Acordo de Paris (PACM), tornando-se líder entre os países geradores desses créditos. Esses créditos têm valor estratégico próprio, por possuírem um sistema de MRV mais robusto. Adicionalmente, a indústria brasileira é também compradora potencial de créditos no mercado interno – não apenas geradora -, o que adiciona uma camada de complexidade à decisão de exportar.

A interconexão entre SBCE, ITMOs e CBAM

O SBCE e o mercado de ITMOs são instrumentos complementares de um mesmo arcabouço de precificação de carbono, e a forma como o Brasil desenha essa interconexão determinará a capacidade da indústria nacional de competir em mercados sujeitos a barreiras climáticas. O CBAM (Carbon Border Adjustment Mechanism) da União Europeia, em operação desde janeiro de 2026, já incide sobre US$ 2,2 bilhões em exportações brasileiras de aço, alumínio e cimento. O mecanismo permite abater o preço do carbono efetivamente pago no país de origem do custo do CBAM – o que significa que o compliance da indústria no SBCE pode se converter em redução direta da conta europeia.

A indústria brasileira possui vantagens estruturais: intensidade de carbono no aço de 1,7 tCO2/t (abaixo da média global de 1,92) e no alumínio, 3,7 tCO2/t, quase cinco vezes menos intensivo em carbono que a média mundial (~16,7). Mas o SBCE só gerará preço reconhecível internacionalmente a partir de 2029, quando os leilões onerosos entrarem em operação. Sem preço efetivamente pago, não há abatimento. A janela de oportunidade para alinhar cronogramas, construir mecanismos de MRV aceitos pela Europa e negociar regras de equivalência começa agora, e a arquitetura de ITMOs precisa ser parte integrante dessa conversa, não uma agenda paralela.

Lições do MDL

O Brasil foi o terceiro maior gerador de projetos de MDL durante a vigência do Protocolo de Quioto, com 343 projetos registrados até 2018. Porém, a experiência foi contraditória: atraiu volume e gerou divisas ao país, mas o processo de aprovação brasileiro foi percebido como um dos mais burocráticos entre os países geradores de projetos. A IETA, em relatório de 2025, alertou que o Brasil precisa de um processo de autorização simplificado. A proposta atual de regulamentação de ITMOs corre o risco de replicar esse padrão – com janelas bienais, editais discricionários e limite uniforme de 50% que ignora a heterogeneidade setorial.

Análise de opções

O Brasil não precisa escolher entre rigor e agilidade – pode ter ambos. Três caminhos podem oferecer essa solução. Primeiro, um programa-piloto entre 2027 e 2030, com montante limitado e rito simplificado, que geraria aprendizado institucional antes da operação em escala. Segundo, a substituição da alocação administrativa prévia por autorização sob demanda, baseada em critérios técnicos objetivos e permanentes, o que eliminaria janelas bienais e editais discricionários.
Terceiro, limites setoriais diferenciados, baseados em custo de abatimento e perfil de risco de cada setor, substituindo o teto uniforme de 50% por um mecanismo mais racional. Nenhuma dessas opções compromete a integridade ambiental – todas, ao contrário, poderiam fortalecê-la ao tornar o sistema mais transparente e previsível.

A COP30 deixou claro que o mundo olha para o Brasil como potencial fornecedor central de créditos de alta integridade. A janela de oportunidade não é infinita. Países concorrentes estão se movendo. Mas o caminho não é apenas acelerar – é desenhar um arcabouço que proteja a NDC, potencialize a competitividade da indústria nacional em mercados sujeitos a barreiras climáticas e ofereça previsibilidade de longo prazo a investidores e comunidades. A diferença entre pioneiros e espectadores, nos mercados de commodities ambientais, costuma ser medida não em décadas, mas em decisões tomadas – ou adiadas – nos meses decisivos.

*David Canassa é especialista em sustentabilidade estratégica, com foco em energia, mercados de carbono e capital natural. Fundador da David Canassa Strategy & Advisory – consultoria para líderes que transformam complexidade climática em valor competitivo.

* Os artigos publicados no Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.

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