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A desistência dos políticos na disputa pelo governo de Minas Gerais

6 de agosto de 2026

Por Lucas Allabi, do Estadão

São Paulo, 06/08/2026 – Após intenso vaivém e um imbróglio partidário no Republicanos, o senador Cleitinho Azevedo se tornou mais um político de Minas Gerais que abandonou sua candidatura ao governo do Estado. Depois, ele tentou voltar atrás, mas seu partido negou uma candidatura. Antes dele, Rodrigo Pacheco (PSB), Nikolas Ferreira (PL) e Marília Campos (PT), outros cotados para o pleito, também decidiram não entrar nessa corrida.

A sucessão de desistências não é mero acaso. Cientistas políticos avaliam que o cenário foi criado pela delicada situação fiscal de Minas Gerais, pelo custo político de administrar um Estado e por lideranças partidárias que preferiram investir na eleição de outros cargos.

O partido de Cleitinho, por exemplo, apontou falta de articulação política e de estruturação de base por parte do parlamentar. O deputado, em vídeo oficial, justificou sua saída com o abalo emocional causado pela morte recente de seu irmão mais novo e outros problemas de saúde da mãe.

Para Carlos Ranulfo, professor titular do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a monumental dívida pública de Minas – que atingiu o patamar de R$ 208,8 bilhões em junho -, torna o cargo pouco atrativo. Ele entende que o pagamento do valor acordado com a União força a redução dos gastos com o funcionalismo público, colocando o futuro governador em uma situação extremamente frágil.

O pesquisador lembra que o governo Romeu Zema conseguiu se manter no poder graças aos acordos com a Vale, que pagou indenizações ao Estado por causa do rompimento da barragem de Brumadinho. Com o fim desses pagamentos, ficará ainda mais difícil equilibrar as contas públicas.

Leonardo Avritzer, cientista político com pós-doutorado no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), acredita que a situação financeira de Minas Gerais não assusta os candidatos: “É um desafio governar Minas hoje, mas não é maior do que o de governar outros Estados com dívidas grandes, como, por exemplo, o Rio Grande do Sul ou o Rio de Janeiro”.

Ele avalia que a conjuntura nacional é que pesa muito mais na atual composição das eleições do Estado. O Partido dos Trabalhadores, que sondou Marília Campos para concorrer ao pleito, está dando mais atenção à disputa das vagas ao Senado neste ano. Dessa forma, a coligação aceitou lançar seu nome na disputa eleitoral da Casa.

“O Senado assumiu um papel fundamental no conflito entre o Legislativo e o Judiciário e, como o próprio presidente Lula falou na convenção do Partido dos Trabalhadores, ele não se deu bem na sua agenda legislativa nesses últimos três anos e meio”, reiterou Avritzer.

O PT e Lula também estão tentando reconquistar o eleitorado de Belo Horizonte, que, desde 2014, vota majoritariamente na direita. Por isso, preferem recorrer a Marília Campos, ex-prefeita de Contagem que saiu do cargo com 60% de aprovação, como estratégia para recuperar espaço na região metropolitana e puxar votos para o atual presidente.

Pacheco, que foi sondado por Lula para ser o nome da esquerda na disputa, resolveu encerrar sua carreira política por motivações pessoais.

Os pesquisadores avaliam que Cleitinho e Nikolas Ferreira, nomes fortes da direita regional, eram fracos para essa eleição. Ambos os políticos têm um perfil parecido, recorrendo às redes sociais como principal forma de crescimento e pautando questões morais para alcançar possíveis eleitores, mas têm pouca experiência administrativa.

Cleitinho tinha por volta de 36% a 38% de intenções de voto para governador, segundo a pesquisa Real Time Big Data divulgada no dia 30 de julho. Mesmo assim, preferiu desistir. Avritzer assegura que o senador não tinha um projeto político estruturado para o governo de Minas.

Já Nikolas Ferreira, para Ranulfo, tem uma visão maior do jogo político: “Ele trabalha para ser uma estrela da direita. E, nesse cálculo, quem quer apostar em ser governador de Minas tão cedo, pegar um Estado numa situação como essa? Ele tem muito tempo pela frente”.

O professor também ressalta que Nikolas teria que se aliar ao senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em nível nacional para se viabilizar como candidato ao governo de Minas. Entretanto, ele está tentando afastar sua imagem da família Bolsonaro para se tornar um nome maior do que o de seus antigos aliados.

Agora, os dois candidatos que aparecem nas pesquisas como mais competitivos para o pleito são Patrus Ananias (PT) e Alexandre Kalil (PDT). Patrus também não desejava concorrer ao governo do Estado, mas foi convencido por Lula de última hora.

“Porque é uma fria hoje governar o Estado de Minas Gerais. É a primeira vez na história do Estado de Minas Gerais que você não tem candidato competitivo. Quem é mais competitivo é o Patrus e o Kalil. Isso é completamente inédito na história”, reitera Ranulfo.

De acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada em 28 de julho, nos cenários em que Cleitinho Azevedo não concorria, como se concretizou, Kalil aparece com 15% dos votos, enquanto Patrus tem 13%. Na sequência aparecem o governador Mateus Simões (PSD), com 9%, Gabriel Azevedo (MDB) com 4%, Ben Mendes (Missão), com 2% e Maria da Consolação (PSOL) com 1%. No momento da realização da pesquisa, o empresário Flávio Roscoe não havia sido anunciado como candidato do PL.

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