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1 de agosto de 2026
Artigo de: Tatiana Pinheiro

Desde 28 de fevereiro, quando o Irã restringiu a navegação no Estreito de Ormuz em resposta aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, o comércio marítimo na região não voltou à normalidade. Quase cinco meses depois, o conflito ganhou uma nova dimensão com a decisão dos houthis – movimento político-militar xiita do norte do Iêmen apoiado pelo Irã – de restringir, a partir de 22 de julho, o tráfego no Estreito de Bab el-Mandeb. Se Ormuz representa um choque concentrado sobre o mercado de petróleo, Bab el-Mandeb amplia o problema para as cadeias globais de suprimentos, tornando a pressão inflacionária mais disseminada e persistente.
Esse cenário mostrou-se muito mais complexo do que o antecipado pelos mercados. Diante da superioridade militar de Israel e dos Estados Unidos, prevalecia a expectativa de que eventuais interrupções nesses estreitos seriam breves, o que se provou ser um grande equívoco. A persistência das hostilidades transformou um choque temporário em uma fonte relevante de risco para a economia mundial.
A importância estratégica dessas duas rotas ajuda a dimensionar o tamanho desse risco. Ormuz é o principal corredor para o escoamento do petróleo produzido no Golfo Pérsico. Bab el-Mandeb conecta o Oceano Índico ao Mar Vermelho e, por meio do Canal de Suez, constitui a rota marítima mais curta entre a Ásia e a Europa. Por esse corredor transitam não apenas petróleo e derivados, mas também alimentos, máquinas, componentes eletrônicos, produtos químicos e uma ampla variedade de insumos industriais. Caso as restrições em Ormuz e Bab el-Mandeb se prolonguem simultaneamente, cerca de um quarto das rotas globais de abastecimento de petróleo poderá ser afetado.
Embora o bloqueio dos houthis esteja, a princípio, direcionado a embarcações sauditas que tinham transferido parte de suas exportações de petróleo de Ormuz para o Mar Vermelho, seus efeitos tendem a extrapolar esse universo. Porque diante do atual cenário de deterioração das condições de segurança, armadores e seguradoras já reavaliam suas rotas diante. Mesmo sem um fechamento completo do estreito, o aumento da percepção de risco já é suficiente para elevar os prêmios de seguro, encarecer os fretes, alongar os prazos de entrega e aumentar os custos de produção ao longo das cadeias globais de suprimentos.
Os dados já mostram esse movimento. Segundo a Kpler (Plataforma de Inteligência Marítima), o tráfego marítimo recuou 31% no Estreito de Ormuz e 34% em Bab el-Mandeb. Ao mesmo tempo, o MSCI Composite, índice global de custos de frete marítimo, registra alta média de 124% desde o início do conflito no Golfo Pérsico.
A experiência da pandemia evidencia a importância do custo dos fretes sobre a inflação. Entre 2020 e 2022, o mesmo índice avançou 536%. Utilizando um modelo que relaciona inflação ao consumidor aos custos de frete, usando o índice de preço das commodities como variável de controle, estimo que a alta dos fretes respondeu por aproximadamente 2,2 pontos porcentuais do pico de 7,5% da inflação média das economias avançadas e por 1,5 ponto porcentual do pico de 8% observado nas economias emergentes. Os resultados também indicam que o efeito máximo sobre a inflação ocorre cerca de 15 meses após o choque nos fretes.
Aplicando o mesmo modelo ao cenário atual, as simulações sugerem que a maior pressão inflacionária ainda está por vir. Caso o conflito permaneça próximo do estágio atual, o impacto do aumento dos fretes sobre a inflação mundial deverá atingir seu pico no início de 2027.
Essa dinâmica ajuda a explicar a postura mais cautelosa do Federal Reserve e de outros bancos
centrais. Choques dessa natureza pressionam a inflação em dois momentos: inicialmente, por meio da alta dos preços da energia; posteriormente, de forma mais persistente, pelo encarecimento do transporte marítimo e dos insumos importados. Embora a política monetária não elimine restrições de oferta, ela precisa evitar que esses choques desancorem as expectativas de inflação e que essa desancoragem se propague pelos mecanismos de formação de preços, tornando a inflação mais persistente.
Caso o cenário externo permaneça adverso, a probabilidade de um novo ciclo de alta de juros nas economias avançadas aumentará, o que representa uma má notícia para os mercados emergentes. No Brasil, juros reais próximos de 10%, muito acima da taxa neutra estimada pelo Banco Central, oferecem espaço para acomodar parte desse choque de oferta. Ainda assim, esse ambiente reduz significativamente a margem para a continuidade do atual ciclo de flexibilização monetária, tornando uma pausa no atual ciclo de flexibilização monetária a estratégia mais prudente.
Tatiana Pinheiro é pesquisadora da FGV-EESP e consultora econômica, escreve artigos para o Broadcast quinzenalmente, às sextas-feiras. Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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