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Temporada de balanços do primeiro tri será marcada por guerra, Selic alta e inadimplência

Analistas apontam efeitos mistos: óleo e gás se beneficiam do salto do Brent, enquanto varejo sofre com a Selic e bancos podem ser pressionados pela inadimplência

27 de abril de 2026

Por Ana Paula Machado

A temporada de balanços do primeiro trimestre de 2026 deve mostrar ainda a pressão dos juros altos, além dos custos majorados em função da guerra no Oriente Médio, que eclodiu no fim de fevereiro.

Analistas consultados pela Broadcast afirmam que, diante desses fatores, os resultados das empresas devem vir com sinais distintos. De um lado, as companhias de óleo e gás devem ser beneficiadas pela escalada dos preços do petróleo. De outro, a Selic ainda alta pressiona os números do setor de varejo, enquanto os bancos podem ser penalizados pela inadimplência.

No primeiro trimestre, a cotação do barril do Brent saltou 71%, na esteira da guerra contra o Irã, escalando para além dos US$ 100. A disparada pressionou custos em cadeia e colocou um fator de incerteza no ciclo de cortes de juros aqui no Brasil. O Banco Central até começou a reduzir a Selic, mas a intensidade da primeira queda – de 0,25 ponto porcentual, para 14,75% – foi menor do que aquela esperada no começo do ano.

“Será uma temporada mista, não uma mega temporada, com destaque positivo para as petroleiras que tendem a capturar a escalada dos preços do petróleo. Vejo menos ganhos somente para a Brava e Petrorecôncavo porque elas têm uma política de hedge muito forte e se protegeram em nível de preço antes da guerra”, resume o diretor de Equity Research Latin America do Citi, André Mazini.

Por consequência, destaca ele, o setor de distribuição de combustíveis também deve mostrar bons resultados. Neste segmento, afirma Mazini, há ganhos ainda com a diminuição do imposto de importação, que pode levar a uma competição mais justa.

Com isso, empresas como Ultrapar e Vibra tendem a apresentar resultados mais robustos, com margens mais altas no primeiro trimestre. “Será uma temporada positiva para elas, pois haverá consumo do estoque doméstico com a combinação de medidas de combate à ilegalidade do setor”, diz Mazini.

O analista do Daycoval, Gabriel Mollo, afirma que os números do primeiro trimestre devem ser “positivos na medida, mas com uma forte dispersão entre os setores”.

Essa dispersão será vista, inclusive, dentro dos próprios setores. Nas varejistas, segundo a XP, o Mercado Livre, a Smartfit, a Vivara e as farmácias devem se destacar positivamente. Por outro lado, os varejistas de alimentos devem continuar sofrendo com o macroeconômico difícil e as dinâmicas de inflação alimentar pressionadas.

Para Mollo, contudo, o varejo apresentará os resultados mais pressionados da temporada, o que não significa, necessariamente, pressão nas cotações.

“Pode ser o momento de comprar esse tipo de papel porque, quando a guerra acabar e se ganhar força o ciclo de afrouxamento monetário, essas empresas tendem a melhorar as margens e pode haver um potencial de valorização interessante”, afirma.

Agro sob pressão

A persistência da Selic alta acaba pesando também sobre os números do setor financeiro. A inadimplência dá sinais de seguir alta, em particular no setor do agronegócio.

Mais uma vez, os analistas são unânimes em dizer que os números do Banco do Brasil serão acompanhados com lupa. O BB informa o balanço em 13 de maio.

Desde o ano passado, a instituição tem enfrentado os efeitos da deterioração nas métricas de qualidade de sua principal carteira, a do agronegócio, sob pressão dos juros restritivos e da volatilidade dos preços das commodities. Em 2025, a inadimplência na carteira agro subiu a 6,09%, pelo critério de atrasos acima de 90 dias.

“O Banco do Brasil deve apresentar o resultado sequencial mais fraco, à medida que a sazonalidade típica do período se combina ao ciclo de risco do agronegócio, levando a crescimento praticamente estável da carteira, NII (margem financeira líquida) menor, provisões mais elevadas e uma queda relevante do lucro trimestral, ainda assim amplamente em linha com o guidance e com uma dinâmica mais concentrada no segundo semestre de 2026”, escrevem os analistas da XP Bernardo Guttmann, Matheus Guimarães e Guilherme Meneghetti, que projetam lucro em torno de R$ 3,5 bilhões para o BB.

A pressão é maior no Banco do Brasil, mas não se restringe a ele, ponderam analistas. “Será um trimestre menos favorável, pressionado pela inadimplência e maior provisionamento, pois, a maioria está com medo de aumentar a inadimplência muita pelo agro, além da demora da flexibilização monetária. Diante disso, o lucro deve ficar estável ou até menor”, acrescenta Mazini, do Citi.

Um subsetor do agro também chama a atenção de analistas: os frigoríficos. Mollo, do Daycoval, diz que o segmento deve sentir os efeitos do aumento do frete decorrente da guerra. Mazini, do Citi, vê com preocupação principalmente a exposição às exportações de frango, uma vez que o Oriente Médio é destino de 25% dos embarques do produto.

“As empresas de commodities, em geral, podem ver aumentos de custos logísticos. Uma delas é a CSN Mineração, que não tem uma política de hedge para a sua produção, como a Vale”, diz Mazini.

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