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Maior oferta de etanol e petróleo volátil reforçam demanda para elevar mistura

Para presidente da Unem, Guilherme Nolasco, é possível avançar no aumento do porcentual de etanol anidro na gasolina

16 de março de 2026

Por Leandro Silveira

O aumento previsto da oferta de etanol no Brasil em 2026/27, combinado à volatilidade do petróleo provocada pelo conflito no Oriente Médio, reacendeu no setor sucroenergético o debate sobre ampliar a participação do biocombustível na matriz de combustíveis do País. Na avaliação do presidente da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Guilherme Nolasco, o cenário abre espaço para elevar a mistura de etanol anidro na gasolina como forma de absorver o crescimento da produção, reduzir a dependência de combustíveis importados e mitigar pressões sobre os preços ao consumidor.

Segundo ele, o Brasil poderia avançar na elevação do porcentual de etanol anidro na gasolina, hoje em 30%, mas com limite legal de até 35%. “Talvez seja o momento de tentar caminhar para 32%, 33%, 34% ou até 35%, diminuindo a dependência de importação de gasolina e tentando segurar o preço final do combustível”, afirmou Nolasco em entrevista ao Broadcast Agro.

A possibilidade de aumentar a mistura ganhou respaldo legal com a sanção da chamada Lei do Combustível do Futuro, que estabeleceu um intervalo de mistura entre 22% e 35% de etanol anidro na gasolina, dependendo de avaliações técnicas conduzidas pelo governo e pelo setor automotivo.

A discussão ocorre no momento em que a oferta de etanol tende a crescer de forma relevante. De acordo com a consultoria Datagro, a produção deve avançar de 33,89 bilhões de litros em 2025/26 para 38,42 bilhões de litros em 2026/27 – tanto de etanol de cana quanto de milho.

Parte desse aumento da oferta está ligada a uma mudança esperada no mix de produção das usinas de açúcar e etanol. Mesmo com maior disponibilidade de açúcar de cana, a Datagro projeta um deslocamento da produção em direção ao biocombustível. A participação da cana destinada ao açúcar deve cair de 50,7% em 2025/26 para 48,5% em 2026/27.

Esse movimento tende a tornar o mix produtivo mais alcooleiro ao longo da próxima safra. “Esse cenário deve direcionar maior volume de cana para a produção de etanol”, afirmou o especialista em agronegócio da equipe de pesquisa econômica do Bradesco, Filipi Oliveira, em entrevista ao Broadcast Agro.

Segundo ele, a valorização da gasolina também pode reforçar a competitividade do biocombustível. “A alta da gasolina pode ampliar a margem do etanol, incentivando o consumo e reforçando a competitividade do biocombustível no mercado doméstico.”

“Temos um cenário de aumento de oferta de etanol para 2026/27 em torno de 4 bilhões de litros”, disse Nolasco. “Cerca de 2 bilhões virão de um mix mais alcooleiro nas usinas de cana e outros 2 bilhões de litros do crescimento do etanol de milho.”

Hoje, o etanol responde por cerca de 45% da matriz de combustíveis leves do Brasil, considerando o consumo de hidratado e a mistura obrigatória na gasolina. Apesar da expansão da produção, o setor também reconhece riscos associados ao aumento da oferta. “Existe a possibilidade de diminuição de preço e redução de margens, isso é inevitável”, afirmou Nolasco.

Executivos do setor apontam ainda que o mercado vive um momento incomum de incertezas. Para o CEO da Associação dos Produtores de Açúcar, Etanol e Bioenergia (NovaBio), Renato Cunha, o equilíbrio entre oferta e demanda será um dos principais desafios nos próximos ciclos. “Faz muitos anos que a gente não vê um cenário tão nebuloso”, disse. Segundo ele, o crescimento da produção de etanol, impulsionado tanto pelo milho quanto pela cana, exige atenção ao comportamento da demanda, especialmente no mercado interno.

Choque do petróleo

Para Nolasco, a instabilidade no mercado internacional de petróleo reforça o argumento em favor do biocombustível. O petróleo chegou a superar US$ 100 por barril nos primeiros dias após a escalada do conflito no Oriente Médio, diante de temores sobre possíveis interrupções no fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz. “Quem pode ser afetado é o consumidor”, disse Nolasco. “Essa volatilidade no preço do petróleo e a insegurança de abastecimento acabam pressionando os combustíveis.”

Segundo ele, o Brasil ainda depende de importações de gasolina e não possui capacidade de refino suficiente para atender plenamente à demanda doméstica. Nesse contexto, o etanol passa a funcionar também como instrumento de segurança energética. “Ter um biocombustível como opção é uma segurança nacional. É um combustível limpo e produzido aqui?, afirmou.

Parte do crescimento da produção de etanol de milho ocorre em regiões onde o consumo de hidratado ainda é relativamente baixo, o que pode abrir espaço para a formação de novos mercados. Projetos em instalação no Maranhão, no oeste da Bahia e no Piauí fazem parte desse movimento, segundo Nolasco.

Nos últimos anos, o etanol de milho se consolidou como um dos principais vetores de expansão da produção de biocombustíveis no País e já responde por cerca de 20% da produção nacional de etanol. “Você terá aumento de volume justamente em regiões onde há capacidade de crescimento de novos consumidores”, disse.

Política da Petrobras

Outro fator apontado por executivos do setor é a necessidade de maior previsibilidade na política de preços da Petrobras. “Resta saber qual será o mecanismo da Petrobras para mitigar esse impacto de preço”, afirmou Nolasco.

Para Cunha, o mercado precisa de maior clareza sobre o papel da estatal na formação de preços dos combustíveis. “A sociedade precisa saber qual será o caminho que a Petrobras tomará”, disse. Segundo ele, a previsibilidade das regras é essencial para manter investimentos e garantir o equilíbrio do mercado de combustíveis.

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