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5 de junho de 2026
Por Leandro Silveira
São Paulo, 05/06/2026 – A possível aplicação de um taifaço pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros pode provocar fortes impactos no setor sucroenergético do Nordeste, especialmente nas exportações de açúcar realizadas dentro da cota preferencial concedida ao Brasil. O CEO da NovaBio, Renato Cunha, avaliou que a medida representaria uma “punição enorme” para uma região que depende do mercado americano para garantir liquidez e fluxo de caixa no início da safra.
“Eu entendo que seria uma punição enorme para uma realidade que eles não conhecem”, afirmou Cunha. Segundo ele, o Nordeste exporta anualmente cerca de 115 mil a 120 mil toneladas de açúcar para os Estados Unidos dentro da cota americana, volume considerado pequeno diante da produção brasileira de aproximadamente 45 milhões de toneladas.
Atualmente, o Brasil possui uma cota preferencial de 155,9 mil toneladas de açúcar para o mercado americano, distribuída pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) entre 41 usinas das regiões Norte e Nordeste. O País detém a segunda maior participação nesse sistema, atrás apenas da República Dominicana. Além de permitir acesso ao mercado americano em condições tarifárias diferenciadas, a cota tradicionalmente proporciona preços superiores aos do mercado internacional.
Segundo Cunha, a importância do mecanismo vai além do volume exportado. “Nada substitui a cota americana na forma como ela é concebida”, afirmou. De acordo com ele, o sistema oferece previsibilidade comercial, compradores definidos e geração imediata de caixa justamente no início da safra nordestina. “Há uma programação, há uma estabilidade no fluxo de caixa”, ressaltou.
A preocupação do setor ocorre em meio à investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. O órgão concluiu que determinadas políticas brasileiras relacionadas a comércio digital, propriedade intelectual, mercado de etanol, combate à corrupção e desmatamento ilegal prejudicariam interesses comerciais americanos e sugeriu a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. Uma audiência está marcada para o próximo dia 6 de julho e a decisão final deve ser anunciada em 15 de julho, embora o cronograma possa ser estendido caso avancem as negociações entre os dois países. Além disso, o governo dos Estados Unidos propôs uma nova tarifa ao Brasil de 12,5% na investigação comercial aberta sobre o trabalho escravo.
O executivo alertou que uma nova elevação tarifária poderá aprofundar as dificuldades enfrentadas pelos produtores de cana da região. Segundo ele, os efeitos do aumento anterior ainda são sentidos pelo setor. “O que vivenciamos na safra passada foi terrível para o fornecedor de cana. Foi uma situação que está tendo sequelas até hoje”, afirmou.
Questionado sobre a possibilidade de direcionar os embarques para outros mercados, Cunha disse que não existe alternativa equivalente à cota americana. Segundo ele, as exportações para os Estados Unidos contam com maior previsibilidade e liquidez do que as vendas realizadas no mercado internacional, que dependem das janelas de embarque e das condições de negociação nas bolsas.
Apesar da preocupação, o CEO da NovaBio demonstrou confiança na continuidade do diálogo entre Brasília e Washington. “Eu acho que existirão negociações. É um passo positivo, porque no último ano não houve negociação”, afirmou. “Agora tem clima para negociar e dialogar. Acho que vai ser mais construtivo”, completou.
Representantes do setor sucroenergético argumentam que o açúcar nordestino acaba sendo atingido por uma disputa comercial relacionada a temas que não têm conexão direta com a atividade das usinas exportadoras da região. Por isso, a expectativa é que as negociações em curso evitem um novo agravamento das condições de acesso ao mercado americano, considerado um dos mais importantes para a sustentabilidade financeira do setor sucroenergético do Norte e Nordeste.
Cunha destacou que o governo brasileiro tem buscado uma solução negociada para o impasse e defendeu uma relação mais cooperativa entre os dois países, especialmente em áreas como açúcar e biocombustíveis. “Se a gente se unisse, podia ter muita coisa para fazer juntos”, disse.
Na avaliação do executivo, embora o cenário ideal seja a eliminação das barreiras tarifárias, o atual nível de 10% ainda é administrável. “O ideal era zero. Dez por cento é aceitável. Agora, passar para acima de 20% nos pune muito”, afirmou.
Contato: leandro.silveira@estadao.com
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