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Quem paga e quem lucra com a inteligência artificial

25 de julho de 2026

Artigo de: Marcello Estevão

Quem paga e quem lucra com a inteligência artificial

A discussão sobre inteligência artificial costuma começar pela produtividade. Quanto ela acrescentará ao crescimento? Quantos empregos serão transformados? Em quanto tempo os ganhos aparecerão nas estatísticas? Essas perguntas são centrais, mas não explicam o que já está acontecendo. Antes mesmo de conhecermos o retorno final da nova tecnologia, a inteligência artificial começou a redesenhar os fluxos de capital, comércio e renda entre países.

A nova infraestrutura precisa ser financiada, construída, equipada e energizada. Sobretudo, ela precisa pertencer a alguém. O capital financia centros de dados e capacidade computacional; as importações fornecem semicondutores, servidores, equipamentos elétricos e sistemas de refrigeração; plataformas, softwares e propriedade intelectual geram depois receitas recorrentes. Ao final, a distribuição dos lucros depende menos do local onde um servidor foi montado do que de quem controla a nuvem, o algoritmo, a plataforma e a relação com o cliente.

Surge, assim, uma nova camada de desequilíbrios globais. O mapa tradicional, organizado em torno de fábricas, petróleo e comércio de bens, começa a ser coberto por outro, baseado em capacidade computacional, eletricidade, chips, serviços digitais, propriedade intelectual e ativos financeiros. A inteligência artificial não substitui os antigos desequilíbrios; ela se instala sobre eles e modifica a maneira como poupança, investimento e renda atravessam fronteiras.

Os Estados Unidos ocupam hoje a posição mais favorável nessa arquitetura. Suas grandes empresas de tecnologia dispõem de balanços robustos, acesso aos mercados de capitais, capacidade de engenharia e infraestrutura de nuvem para investir em escala.

O país pode importar parcela relevante dos equipamentos físicos e ainda capturar boa parte da renda digital gerada posteriormente. Plataformas americanas estão bem posicionadas para vender serviços de nuvem, softwares empresariais, assinaturas, licenças e acesso a modelos de inteligência artificial em todo o mundo.

Logo, há uma diferença decisiva entre importar hardware e controlar a renda produzida por ele. Os bens cruzam a fronteira uma vez; as receitas de software, nuvem e propriedade intelectual podem atravessá-la todos os meses. Uma economia pode registrar déficit na compra de equipamentos e, ao mesmo tempo, construir uma fonte duradoura de receitas externas se suas empresas controlarem os serviços e os ativos intangíveis associados à infraestrutura.

Os mercados financeiros já antecipam essa possibilidade. Desde o fim de 2022, ações ligadas a semicondutores e inteligência artificial se distanciaram dos índices globais mais amplos. Parte do movimento reflete expectativas de lucro, mas também a escassez de alternativas para investidores que desejam exposição líquida à nova tecnologia. O capital se concentra em um grupo reduzido de empresas, bolsas e instrumentos financeiros, fortalecendo o papel dos Estados Unidos como destino da poupança mundial.

O investidor estrangeiro compra ações e títulos das empresas que lideram a expansão; a valorização desses ativos aumenta o valor das posições já existentes; e, se os investimentos gerarem as receitas esperadas, essas mesmas empresas passarão a receber pagamentos de clientes e operações espalhados pelo mundo. O efeito sobre os fluxos de capital aparece primeiro. O efeito sobre a conta de serviços e a renda de investimentos vem depois.

A Ásia ocupa uma posição diferente. Coreia do Sul, China, Taiwan, Malásia, Vietnã e outros centros industriais fornecem boa parte dos semicondutores, memórias, equipamentos e componentes necessários à expansão. Essa demanda já produz ganhos importantes de exportação e investimento. No entanto, fabricar o equipamento não equivale a controlar a plataforma que gerará receitas durante anos. A indústria de hardware recebe o impulso inicial; a renda mais persistente tende a permanecer onde estão a propriedade intelectual, o software e o cliente final.

A geografia da inteligência artificial é, portanto, mais complexa do que uma simples disputa entre Estados Unidos e China. A China combina escala industrial, política tecnológica, produção eletrônica e presença crescente em plataformas digitais. A Coreia e outras economias asiáticas ocupam posições estratégicas em cadeias específicas. Os Estados Unidos concentram financiamento, ativos investíveis, plataformas e propriedade intelectual. Cada economia participa de uma camada diferente, e o saldo final dependerá de quanto valor consegue reter depois que o investimento físico estiver concluído.

Para os países emergentes fora dos grandes polos de hardware, a questão central será transformar a adoção da inteligência artificial em capacidade exportadora. Sem empresas capazes de vender software, processamento de dados, serviços empresariais, soluções de nuvem ou aplicações especializadas, a difusão tecnológica pode elevar a eficiência doméstica (o que é ótimo para o crescimento de longo prazo e o bem-estar da população) e, ao mesmo tempo, ampliar a conta de importações digitais, distribuída entre assinaturas de software, uso de plataformas, serviços de computação, licenças, equipamentos e remessas de lucros. Esses pagamentos não representam, por si só, um problema; a vulnerabilidade pode surgir quando a dependência se prolonga sem gerar exportações, conhecimento local ou receitas externas suficientes para compensá-la.

A experiência recente sugere que o tipo de capital recebido será tão importante quanto o volume. Investimentos de portfólio permitem adquirir participação nos atuais líderes globais, mas raramente constroem capacidade produtiva no país receptor. O investimento estrangeiro direto pode produzir outro resultado ao financiar centros de serviços, infraestrutura de dados, plantas industriais, equipes de engenharia e conexões com redes internacionais de clientes. Em nosso trabalho no IIF, a associação entre investimento direto e crescimento das exportações de tecnologia da informação se fortalece depois de 2017, enquanto os fluxos de portfólio continuam muito mais sensíveis à liquidez global e à percepção de risco.

Para o Brasil, essa agenda exige escolhas mais precisas do que uma política genérica de apoio à inovação. O país dificilmente reproduzirá toda a cadeia tecnológica, mas pode buscar posições em segmentos nos quais já dispõe de mercado, empresas, energia, capacidade financeira e conhecimento setorial. Aplicações para agricultura, finanças, saúde, energia, segurança digital e serviços empresariais parecem mais promissoras do que a tentativa de competir em todas as etapas. A transformação dessas vantagens em receitas externas dependerá de eletricidade confiável, mão de obra qualificada, regras estáveis para dados e investimentos, concorrência e acesso aos mercados internacionais.

A inteligência artificial já está mudando os desequilíbrios globais antes que seu efeito final sobre a produtividade seja conhecido. O capital flui para os mercados que financiam a expansão; os ganhos comerciais favorecem os países que fornecem seus componentes físicos; e a renda mais duradoura tende a se concentrar entre os proprietários de plataformas, propriedade intelectual e capacidade digital exportável. Para cada país, a pergunta decisiva será menos quanto de inteligência artificial conseguirá consumir e mais quanto valor poderá produzir, reter e vender ao resto do mundo.

Marcello Estevão, PhD MIT, é Diretor Gerente e Economista Chefe do Institute of International Finance e professor da Universidade de Georgetown em Washington, DC. Foi Secretário para Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda e trabalhou no Banco Mundial, FMI, Federal Reserve e Tudor Investment Corporation.

Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.

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