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Farmácias mudam e Mercado Livre quer uma fatia

Consumidor leva menos produtos, mas receita do setor segue avançando e parte disso vem das chamadas canetinhas emagrecedoras

16 de outubro de 2026, às 15:00

Crédito: Envato aprimorada por inteligência artificial

Por Júlia Pestana

O brasileiro está comprando menos medicamentos, mas gastando mais nas farmácias. Por trás desse movimento estão os preços mais altos e o avanço dos chamados GLP-1, medicamentos usados no tratamento da obesidade e do diabetes. A mudança começa a redesenhar o negócio das grandes redes e atrai um novo competidor: o Mercado Livre, que quer transformar a venda de remédios em mais uma frente de seu comércio eletrônico. A entrada, porém, ainda enfrenta dúvidas regulatórias.

Os números de setembro ajudam a dimensionar essa mudança. Segundo a IQVIA, empresa de dados e análises do setor de saúde, o mercado farmacêutico vendeu 742,2 milhões de unidades, 0,7% menos do que em setembro de 2025. O faturamento, por sua vez, cresceu 7,2%, para R$ 23,6 bilhões.

Na prática, o consumidor leva menos produtos, mas a receita do setor continua avançando. Parte desse movimento vem das chamadas canetinhas emagrecedoras. Segundo a Close-Up International, esses medicamentos já respondem por 11% da receita das grandes redes de farmácias no País. Entre maio e julho, movimentaram R$ 4 bilhões, com 3,1 milhões de unidades vendidas.

A farmácia muda por dentro

O efeito vai além do balcão de medicamentos. Na Pague Menos, alimentos processados perdem espaço, enquanto vitaminas, suplementos, whey e outros produtos proteicos ganham terreno. A mudança leva a rede a repensar o próprio modelo de negócio. “Já estamos pensando e redesenhando como é que vai ser a farmácia daqui a alguns anos”, afirmou o CEO Jonas Marques.

A queda de preços dos GLP-1 pode ampliar essa transformação. Marques citou consumidores com renda próxima de R$ 5 mil que chegavam a parcelar em dez vezes medicamentos de cerca de R$ 1,7 mil. Com a entrada de novos fabricantes e genéricos, a expectativa é de maior acesso, mais consumidores e compras recorrentes.

Para o BTG Pactual, os GLP-1 também oferecem pistas sobre o que pode impulsionar as vendas no futuro. O sucesso da categoria combina um público potencial numeroso, tratamento recorrente, preço elevado e distribuição pelo varejo. “Pode não haver outro [produto] na magnitude do GLP-1, mas vários menores”, disse o analista Luiz Guanais.

O desafio das redes, portanto, não é apenas encontrar a próxima categoria de bilhões, mas identificar produtos de maior valor que possam ganhar espaço nas farmácias. Isso aumenta a importância da escala, da cadeia fria, da prescrição, do relacionamento digital e dos serviços clínicos.

Os próprios GLP-1 mostram o tamanho dessa barreira. Segundo a Close-Up, os medicamentos estão concentrados em cerca de 12 mil das 95 mil farmácias do País, em razão de exigências e dificuldades de armazenamento, logística e custo.

Mercado Livre entra no jogo

A transformação do setor também abriu espaço para o Mercado Livre. A empresa começou a vender medicamentos em pequena escala em São Paulo, em março, após adquirir a Farmácia Cuidamos em 2025. Depois, abriu a plataforma para farmácias parceiras, levando ao segmento o modelo de marketplace.

A proposta é reunir vendedores na plataforma, em vez de disputar diretamente com as redes tradicionais. “Não queremos competir com as farmácias. Queremos que elas estejam dentro do Mercado Livre”, disse o líder da companhia no Brasil, Fernando Yunes.

Ao anunciar o plano, no fim de setembro, a empresa projetou incluir três farmácias de terceiros até este mês e chegar a 20 até o fim do ano.

A aposta pode ter efeitos que vão além da venda de remédios. O Itaú BBA estima que a categoria poderá representar 5,3% do valor bruto de mercadorias vendido pelo Mercado Livre no Brasil até 2030. Para o banco, a frequência de compra de medicamentos pode levar os consumidores a acessar mais vezes a plataforma e abrir oportunidades para outros produtos e serviços, inclusive do Mercado Pago.

A reação do mercado financeiro mostrou que a entrada da empresa acendeu um alerta entre as redes. No pregão seguinte ao anúncio, as ações da Pague Menos caíram 8%, as da RD Saúde recuaram 5,38% e as da Panvel perderam 4,9%.

A disputa, no entanto, tende a ser gradual. O Mercado Livre conta com tráfego, logística e entrega rápida. As redes tradicionais, por sua vez, têm lojas próximas dos consumidores, estoques em diferentes dosagens, farmacêuticos e experiência com as exigências sanitárias. A XP estima que a operação tenha “relevância limitada” para os resultados do Mercado Livre no curto prazo.

A barreira regulatória

O principal ponto de interrogação está na regulação. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou à Broadcast Weekend que notificou formalmente o Mercado Livre e pediu dados sobre a regularidade da operação, incluindo responsável técnico, armazenamento e profissional farmacêutico. Segundo o órgão, não há hoje previsão normativa que autorize a intermediação de marketplaces na comercialização de medicamentos.

A agência afirma ter enviado a primeira notificação em 28 de setembro e reiterado o contato em 1º de outubro. O Mercado Livre, por sua vez, diz que ainda não identificou o documento e que procurará a Anvisa para “manter um diálogo permanente e construtivo”. A companhia acrescentou que a operação farmacêutica segue ativa na plataforma.

O setor entra, assim, em uma nova etapa. De um lado, as redes precisam aproveitar a mudança no consumo e encontrar novas fontes de receita. De outro, o Mercado Livre busca conquistar espaço em uma categoria de compras recorrentes, mas ainda precisa esclarecer os limites regulatórios de sua operação. A disputa não será apenas por quem vende mais, mas por quem consegue transformar a mudança no consumo em um negócio sustentável.

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