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Exportadores devem diversificar mercados e usar crédito contra risco de novas tarifas

14 de julho de 2026

Por Gabriela Jucá, Letícia Correia e Daniel Tozzi

São Paulo, 13/07/2026 – Quase um ano após o choque tarifário dos Estados Unidos, empresas brasileiras diversificaram mercados, ajustaram contratos e contaram com linhas de crédito subsidiadas pelo governo para mitigar as perdas, enquanto investidores passaram a precificar com mais rigor a dependência das companhias do mercado americano. As empresa passaram a lidar com um ambiente internacional imprevisível e mais sensível, cenário que não é exclusivo ao Brasil e traz um entrave às decisões de longo prazo.

Com uma nova ameaça tarifária à espreita, o mercado tem mais dispositivos à mão em caso da confirmação da taxa de 25% sobre produtos brasileiros no dia 15, e deve manter a postura de diversificação de novos mercados e diálogo constante com outros compradores internacionais. Há, porém, receios de mais enfraquecimento da competitividade brasileira, que ainda sofre os efeitos das primeiras tarifas americanas.

Levantamento da ApexBrasil indica que 72% das empresas apoiadas com vendas nos EUA abriram ao menos um novo destino de mercado após agosto de 2025. Eventuais novas tarifas devem reiterar esse movimento, com destaque para as relações com a União Europeia, no âmbito do acordo com o Mercosul.

Mesmo que o País encontre novos mercados, os Estados Unidos seguem como destino fundamental para as exportações brasileiras, o que corrobora os apelos do governo e das empresas que podem ter os negócios afetados. Hoje, é o segundo principal parceiro comercial em bens e maior destino das exportações industriais, atrás apenas da China. O primeiro tarifaço ainda reverbera negativamente nas relações entre os países como um todo – e um adicional tende a deteriorar ainda mais esses vínculos.

“É uma medida que, se confirmada, tende a perdurar por um bom tempo. Uma ação dessa na relação bilateral entre os países dificultaria bastante o aprofundamento do comércio e dos investimentos de médio e longo prazo”, observa o presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto.

Pesquisa da entidade, com dados desde o primeiro semestre de 1997, mostra que a participação dos EUA no comércio exterior brasileiro atingiu a mínima histórica no primeiro semestre deste ano, refletindo os efeitos das imposições comerciais. Os EUA responderam por 9,4% das exportações brasileiras e por 11,1% na corrente de comércio (exportações + importações) com o País, enquanto China (21,9%) e União Europeia (12,8%) despontam à frente das exportações.

O choque comercial de 2025 ainda levou o governo a fornecer auxílios para o setor exportador brasileiro, com o Plano Brasil Soberano. Especialistas apontam que novas tarifas devem ampliar a atuação do programa, que tem liberação de crédito do BNDES para proteger empresas exportadoras e setores afetados. “Há, também, a expectativa de redução ou flexibilização dos critérios para o financiamento dessas empresas”, diz Verônica Cardoso, diretora da LCA Consultoria Econômica.

Para Livio Ribeiro, pesquisador do FGV Ibre e sócio da BRCG Consultoria, o Brasil Soberano representou uma mudança na relação entre o setor público e privado. “O Estado usou o tarifaço do ano passado para ampliar a política industrial. Não é sobre mudança na relação com as exportadoras, se passaram a demandar mais prêmio ou não, mas ampliou as interligações entre Estado e empresas – vale para crédito, garantias e demais negociações”, nota.

Setores afetados

No ano passado, o setor de aço foi um dos mais críticos às taxas de Trump. De acordo com o Instituto Aço Brasil, os produtos laminados sofreram mais rapidamente o impacto das restrições, porque concorrem diretamente com os produtos fabricados nos EUA. Por outro lado, as placas representam mais de 80% do volume exportado para os EUA, matéria-prima para a indústria siderúrgica americana, dependente dessas importações e que ainda tem o Brasil como o principal fornecedor.

O setor é afetado pela tarifa de 50% no âmbito da Seção 232, diferente da nova ameaça, delineada na Seção 301. “Se aplicadas, as medidas da Seção 301 não serão cumulativas com a da Seção 232. Portanto, o novo tarifaço não terá impacto direto nas exportações brasileiras de aço”, afirma o setor, que espera avanço das negociações entre Brasil e EUA.

Já o setor madeireiro, também um dos fortemente afetados no ano passado e representado pela Abimci, reforça que as empresas ainda estão em processo de recuperação gradual do primeiro choque tarifário, após meses de queda na atividade, redução da produção, demissões e insegurança comercial. O setor alerta que os efeitos da eventual medida, via Seção 301, são “significativos”. “Além das consequências das novas tarifas, preocupa o fato de que concorrentes internacionais poderão operar com tarifas menores, ampliando ainda mais a perda de competitividade da indústria brasileira”, diz, em nota.

Seção 301

As possíveis novas medidas estão desenhadas na Seção 301, instrumento americano para investigar e, se for o caso, aplicar sanções comerciais a países acusados de práticas consideradas “desleais” aos interesses das empresas dos EUA. A ação é diferente da imposta no ano passado, pela Seção 232, e desta vez conta com respaldo jurídico mais robusto e maior dificuldade para reversão judicial.

Contato: gabriela.silva@estadao.com; leticia.silva@estadao.com e daniel.mendes@estadao.com

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