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Eleições 2026: Filiação de jovens a partidos cai 54% em 16 anos

18 de julho de 2026

Por Bianca Gomes, do Estadão

São Paulo, 18/07/2026 – Ao falar sobre sua relação com a política, a estudante Sophia Macedo, de 22 anos, recorre aos versos da poeta polonesa Wislawa Szymborska: “Somos filhos da época, e a época é política”. O interesse da jovem pela vida pública surgiu cedo, aos 13 anos, quando foi eleita para representar os colegas de escola no programa Vereador Jovem, da Câmara Municipal de Vassouras (RJ), sua cidade natal. Durante o mandato de um ano, Sophia trabalhou em prol do município do Vale do Café e deixou suas digitais em um projeto que criou um espaço público para doação e empréstimo gratuito de livros. “Foi nessa época que entendi a importância de participar da política e estar por dentro daquilo que acontece na minha cidade”, conta a jovem, que, tão logo completou 16 anos, tirou o título de eleitor.

Apesar de acompanhar a política desde a adolescência, Sophia não cogita ingressar na vida partidária. Diz, de forma categórica, que se filiar a um partido político não está entre seus planos. A escolha da estudante reflete uma mudança na relação dos jovens com os partidos. Entre 2010 e 2026, a filiação de pessoas de 16 a 34 anos caiu 54% no Brasil. Nesse período, os partidos perderam quase 1,5 milhão de jovens em seus quadros, segundo levantamento do cientista político Murilo Medeiros, da Universidade de Brasília (UnB), feito a partir de dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Trata-se de um dos mais expressivos processos de esvaziamento da militância desde a redemocratização”, resume o especialista, para quem os jovens não abandonaram a política, mas a forma tradicional de fazer política.

Sophia acredita que a dificuldade dos partidos em dialogar com pessoas da sua faixa etária ajuda a explicar a queda no número de filiações. Em seu caso particular, porém, a decisão de manter distância das legendas está mais relacionada aos efeitos da chamada polarização afetiva, que, em sua avaliação, transformou os partidos em “torcidas de futebol”.

“Estar filiado a um partido é como torcer para um time de futebol: às vezes, é um afeto tão excessivo que beira o ódio contra quem não é do seu time. E, se o partido faz alguma coisa errada, assim como um time, você vai lá e tenta defendê-lo”, afirma Sophia, acrescentando que a filiação partidária se tornou um rótulo que dificulta o diálogo. “O outro passa a te perceber com preconceito pela sua filiação antes mesmo de tentar entender qualquer outra coisa sobre você. E eu não vejo vantagem nisso.”

O diagnóstico é compartilhado pela paulistana Laura Malaquias, de 22 anos. Para ela, filiar-se a um partido hoje significa, em alguma medida, abrir mão da possibilidade de transitar entre diferentes ideias. “É como dizer: ‘esse é o meu partido, eu concordo com o que ele fala e com o que ele propõe’. E eu não sou assim.”

Se Sophia se aproximou da política ainda na adolescência, Laura sempre manteve certa distância desse universo e, na maioria das vezes em que foi às urnas, optou pelo voto nulo. Apesar dos perfis distintos, as duas compartilham a mesma percepção: de que a polarização ajudou a afastar os jovens dos partidos políticos.

“Talvez os jovens não queiram se colocar nesse lugar de ‘eu sou de direita’, ‘eu sou do Bolsonaro’ ou ‘eu sou de esquerda, eu gosto do Lula’. Porque quando você diz isso, significa muita coisa. É quase como dizer: ‘eu concordo com tudo o que ele fala'”, diz Laura.

A empreendedora reconhece que, entre os jovens, também há desinteresse pela política, mas isso não isenta os partidos de responsabilidade. Na visão dela, as siglas deveriam dedicar mais atenção a pautas que impactam diretamente a vida das novas gerações e apostar em lideranças capazes de dialogar com elas.

Laura também demonstra desconfiança em relação à classe política e diz que seu contato com o tema, quando acontece, geralmente se dá por meio de notícias sobre corrupção e outros escândalos. “Parece que a política tem um jeito de funcionar que não muda. Independentemente de quem estiver lá.”

Especialistas apontam descrença na política tradicional e dificuldade de acompanhar as transformações da sociedade

Renato Dorgan, CEO do instituto Travessia, que realiza levantamentos qualitativos em todo o País, avalia que os partidos já não conseguem criar nenhum amálgama com os jovens. Entre as poucas exceções, estão PSOL, Novo e Missão.

“Há uma descrença total dos jovens na política convencional, uma sensação de que está tudo errado, de que todo mundo rouba. Por isso, o sentimento entre muitos jovens é o de uma mudança total do sistema. Eles estão acima da divisão entre direita e esquerda: são antissistema. É uma nova fase.”

Para Murilo Medeiros, cientista político da Unb, o esvaziamento das fileiras partidárias também é reflexo da incapacidade dos partidos de se adaptarem às transformações da sociedade. Boa parte, sustenta ele, ainda permanece preso a um modelo organizacional burocrático e pouco atrativo para uma geração acostumada à velocidade, à interação e à produção descentralizada de conteúdo.

“Os partidos continuam funcionando como estruturas analógicas para uma geração que vive integralmente no ambiente digital. Hoje, muitos se assemelham a cartórios: possuem pouca vida orgânica, reduzida democracia interna, baixa renovação de lideranças e escassa capacidade de dialogar com os novos repertórios da juventude.”

A trajetória de Gabriel Cassiano é um exemplo do que descreve Medeiros. Às vésperas das eleições municipais de 2020, o então estudante de 23 anos falava entusiasmado ao Estadão sobre o seu programa de governo para disputar a Câmara Municipal de São Paulo. O documento, de 133 páginas, pouco comum de ser apresentado para esse tipo de cargo, foi resultado de cinco meses de estudos em parceria com nomes conhecidos da política, como os dos ex-ministros da Fazenda Luiz Carlos Bresser Pereira e Antônio Delfim Netto. Apesar da pouca idade, aquela já era sua segunda disputa eleitoral. Em 2018, havia concorrido a uma vaga de deputado estadual.

O que parecia ser o início de uma trajetória promissora na política, no entanto, não prosperou. Hoje, aos 29 anos, Cassiano não cogita voltar às urnas nem se filiar a um partido. Segundo ele, a decisão nada teve a ver com as derrotas eleitorais.

“O que me fez realmente desistir foi que os partidos políticos no Brasil possuem uma estrutura anacrônica e viciada, que retroalimenta um sistema falido e de conchavos individuais e de grupos de lideranças já estabelecidas. Isso na direita e na esquerda.”

Para o economista, que foi filiado ao PDT e chegou a negociar sua entrada no PSB, o que afasta as novas gerações dos partidos são as pautas defendidas pelas legendas, que pouco dialogam com as reais necessidades dos jovens.

“Nenhum partido está propondo algo concreto para resolver as questões essenciais dos jovens e lhes oferecer uma opção de futuro. O que fazer com quem se formou e não consegue emprego, não consegue financiar um carro ou um imóvel e vê na inteligência artificial seu principal concorrente no mercado de trabalho? Essas perguntas os partidos não estão respondendo”, diz ele, que hoje atua ajudando candidatos individualmente por meio de consultoria na área econômica.

Para Gabriel, as siglas se renderam aos debates identitários, que diz considerar importantes, mas insuficientes para responder aos desafios de um país das dimensões do Brasil. “Hoje, você vai à sede de um partido de esquerda e já te perguntam se vai militar no coletivo de mulheres ou de LGBTs. E o coletivo do projeto nacional de desenvolvimento? Onde está? Eu, como homem branco, apesar de ser gay, não me identifico com esse tipo de construção partidária. Essa pauta está polarizando o Brasil e, se você reparar bem, é ela que retroalimenta o atual debate entre direita e esquerda.”

De 2022 para este ano, menos 419 mil jovens filiados

Nos últimos quatro anos, quase todos os grandes partidos viram o número de filiados jovens cair. Entre junho de 2022 e junho deste ano, as legendas perderam 419 mil integrantes de 16 a 34 anos, ainda segundo dados levantados por Murilo Medeiros.

O levantamento considerou os 15 maiores partidos do País e excluiu siglas que passaram por processos de incorporação no período, a fim de evitar distorções na comparação dos dados.

União Brasil, Cidadania, PSD, PP, PV, PSB, Republicanos, MDB, PDT, PT e PSDB registraram queda no número de jovens filiados. Na contramão, PL, Novo, PSOL e Rede ampliaram suas bases entre esse público. Segundo o especialista, os partidos que mais cresceram entre os jovens foram justamente aqueles que conseguiram construir uma identidade ideológica mais clara e uma comunicação digital mais eficiente.

Algumas legendas têm adotado medidas para tentar reverter esse quadro. O MDB, partido com o maior número de filiados do País, decidiu reservar uma parcela dos recursos do Fundo Eleitoral para incentivar candidaturas jovens nas eleições deste ano.

Segundo a regra aprovada pela legenda, ao menos 1% do valor total do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) deverá ser obrigatoriamente destinado a campanhas de candidatos entre 18 e 34 anos. Os recursos serão distribuídos igualmente entre homens e mulheres.

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