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El Niño já muda plano de empresas do agro antes do início da safra 2026/27

1 de junho de 2026

Por Gabriel Azevedo

São Paulo – Embora a ocorrência do fenômeno climático El Niño ainda não esteja cravada, a possibilidade de o evento se concretizar faz com que grandes empresas produtoras de grãos avaliem alternativas aos cultivos mais sensíveis. Em teleconferência com investidores para comentar os resultados do primeiro trimestre, El Niño foi tema recorrente. A 3Tentos, por exemplo, que ampliou sua presença em Mato Grosso e está prestes a iniciar sua primeira operação de etanol de milho no Estado, vê possibilidade de aumento da demanda por sorgo se a janela de chuvas ficar mais curta para o milho segunda safra com ocorrência do fenômeno climático. O CEO da 3Tentos, João Marcelo Dumoncel, afirmou que o sorgo pode funcionar como alternativa para produtores que perderem o período ideal do milho. “Estamos vendo um crescimento importante no interesse e na demanda por sorgo”, disse.

Segundo Dumoncel, o sorgo tende a entrar quando o calendário deixa de ser confortável para o milho. “À medida que a janela for saindo da ótima, ele já migra para plantar sorgo, que demanda menos chuva, é mais rústico e tem investimento menor”, afirmou. A mudança também interessa à indústria. A planta de etanol da 3Tentos em Porto Alegre do Norte (MT), com capacidade para processar 2,8 mil toneladas de milho por dia quando atingir plena operação, também pode usar sorgo como matéria-prima. “Para nós não é ruim, porque o sorgo também é uma matéria-prima viável para a produção de etanol”, disse.

Na BrasilAgro, o possível El Niño também entrou no planejamento da próxima temporada. O CEO da BrasilAgro, André Guillaumon, afirmou, em teleconferência com analistas e investidores, que a companhia deve fazer mudanças no plantio de grãos na safra 2026/27. Segundo ele, a empresa não espera chuvas no começo de outubro e terá de avaliar com mais cuidado áreas com menor cobertura de solo. “Áreas onde a gente entende que não tem palhada ideal, ou essas áreas vão sair do sistema, ou vão ser plantadas a posteriori”, afirmou.

A palhada é a cobertura vegetal que fica sobre o solo depois da colheita anterior. Na prática, ajuda a conservar umidade, reduzir a temperatura e melhorar a germinação quando a chuva é irregular. Por isso, áreas mais bem cobertas tendem a suportar melhor um começo de safra incerto. O CEO da BrasilAgro disse que uma área com boa palhada e 70 milímetros de chuva em outubro tem condições de germinar bem. Nas demais, a companhia poderá mudar o destino. “Pode ser, por exemplo, plantio de milho, que tem janela de plantio mais tarde”, afirmou.

Na SLC Agrícola, uma das maiores produtoras de grãos e algodão do País, a resposta ao risco climático passa pelo custo. O CEO da empresa, Aurélio Pavinato, disse que a companhia deve avaliar fazenda por fazenda para ajustar o pacote de fertilizantes nas áreas com maior risco. “A estratégia é trabalhar cada fazenda, analisar cada cultura e tentar mitigar riscos, ajustar o pacote de fertilizantes buscando economizar. E, se não chover, tem redução de custos”, afirmou. A estratégia busca preservar margem em um ano no qual o clima exige cautela e os insumos seguem pressionados, especialmente os nitrogenados, cujos preços subiram com o impacto do conflito no Irã sobre o mercado de gás natural.

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