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a próxima safra já começou

14 de julho de 2026

Artigo de: Andrea Cordeiro

a próxima safra já começou

Muito antes do plantio, o agronegócio convive com um ambiente de decisões cada vez mais complexo. Crescimento mais seletivo da área cultivada, crédito restritivo, maior cautela nos investimentos, riscos climáticos e incertezas geopolíticas passam a influenciar, de forma simultânea, a construção da safra brasileira 2026/27.

As primeiras projeções para a safra brasileira 2026/27 já ocupam espaço nas análises de mercado. As atenções se voltam para a evolução da área plantada, para o comportamento do clima e para o potencial produtivo das principais culturas. Esses indicadores continuam fundamentais. Mas, em especial nesta safra, eles já não são suficientes para explicar o ambiente que começa a se desenhar para o agronegócio brasileiro.

Muito antes da primeira semente tocar o solo, produtores, cooperativas, indústrias, tradings e instituições financeiras já se posicionam em um cenário marcado pela convergência de fatores econômicos, climáticos, geopolíticos e comerciais. A próxima safra começa a ser construída justamente nesse momento.

Foi diante desse contexto que o tradicional levantamento realizado pelo Grupo Labhoro no período pré-plantio evoluiu para o Panorama Estratégico Labhoro – Safra Brasileira 2026/27 – Edição Pré-Plantio. Há mais de 34 anos a empresa acompanha diariamente os mercados agrícolas e elabora análises sobre as perspectivas para cada novo ciclo. Nesta edição, o estudo passou a reunir uma visão integrada dos principais fatores capazes de influenciar a construção da próxima safra.

Entre os primeiros pontos identificados está a expectativa de continuidade da expansão da área destinada à soja no Brasil. As projeções preliminares apontam para aproximadamente 49,1 milhões de hectares, mantendo a trajetória de crescimento da cultura. Entretanto, esse avanço tende a ocorrer em ritmo mais moderado do que em temporadas anteriores.

Os levantamentos realizados nas principais regiões produtoras mostram um produtor mais criterioso na tomada de decisões. O crédito mais seletivo, o elevado custo financeiro, a responsabilidade de preservar margens e um ambiente econômico mais desafiador levam muitos produtores a reavaliar investimentos, renegociar contratos de arrendamento e buscar maior eficiência no uso dos recursos. O mais conservador desde a safra 2015/2016.

O estudo aponta para uma queda de qualidade e volume de tecnologia motivando uma previsão conservadora de produtividade, estimada em 3.620 quilos por hectare, o que representaria uma safra sub 180 milhões de toneladas.

Ao mesmo tempo, o cenário internacional continua oferecendo sinais importantes. Embora o padrão de aquecimento das águas do Pacífico tenha consolidado o fenômeno El Niño e o NOAA – Nacional Oceanic and Atmospheric Administration esteja prevendo que o fenômeno permaneça ativo até início da primavera no Hemisfério Norte que corresponde a março, abril de 2027.

Nos Estados Unidos o mapa de umidade de solo mostra manutenção nas áreas de seca, o que vem permitindo condições das lavouras favoráveis até então. 65% das áreas de soja e 68% das áreas de milho estão classificadas entre boas e excelentes, reforçando, neste momento, uma expectativa de oferta consistente para a safra norte-americana. Para o Brasil, o USDA – Departamento de Agricultura dos Estados Unidos projeta uma produção de 186 milhões de toneladas de soja na safra 2026/27. Embora o número chame atenção pelo seu potencial, sua concretização dependerá de uma combinação de fatores que vai muito além da área cultivada.

O comportamento do clima durante o desenvolvimento das lavouras, a disponibilidade de crédito, a manutenção do nível tecnológico, a dinâmica da demanda internacional, as políticas de biocombustíveis, a evolução do câmbio, a geopolítica e a logística continuarão influenciando diretamente a competitividade do setor. Talvez esse seja o principal aprendizado trazido por esta nova etapa de análise.

Durante muitos anos, discutir safra significava discutir hectares, produtividade e produção. Esses fundamentos permanecem indispensáveis. Mas passaram a dividir espaço com variáveis que, até pouco tempo atrás, tinham influência muito menor sobre o resultado econômico da atividade.

A política monetária norte-americana afeta o custo do capital. Tensões geopolíticas alteram fluxos comerciais. Mudanças regulatórias modificam mercados consumidores. Eventos climáticos extremos ampliam a volatilidade. Tudo isso chega, de alguma forma, à porteira da propriedade. É justamente por isso que a inteligência de mercado ganha um papel cada vez mais estratégico. Não apenas pela capacidade de reunir informações, mas principalmente por permitir interpretar cenários, conectar variáveis e apoiar decisões em um ambiente cada vez mais complexo.

A elaboração do Panorama Estratégico reforça uma percepção importante: a competitividade da safra 2026/27 dependerá menos da quantidade de informações disponíveis e muito mais da capacidade de transformá-las em decisões consistentes e essa talvez seja a principal mudança pela qual o agronegócio brasileiro está passando.

Continuaremos acompanhando produtividade, clima, área plantada e produção. Esses fundamentos continuarão sendo essenciais. Mas acredito que a principal pergunta desta safra seja outra: Estamos preparados para decidir em um ambiente em que mercado, clima, economia, geopolítica e tecnologia estão sensíveis e mudam ao mesmo tempo? Na minha avaliação, esse será um dos maiores diferenciais competitivos do agronegócio brasileiro nos próximos anos. Porque toda safra começa muito antes do plantio. Ela começa nas decisões.

Andrea Cordeiro é advogada, especialista em Agronegócios pela Esalq/USP, mestranda em Negócios com China e Ásia Pacífico pela Fundação Universitária Iberoamericana

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