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22 de julho de 2026
Artigo de: Fernando Honorato Barbosa

Ao atravessarmos a primeira metade do ano, a resiliência da economia brasileira merece destaque. Apesar dos choques do petróleo e dos efeitos das tarifas de importação, a economia cresceu mais do que o esperado, com uma taxa de câmbio que se manteve bastante comportada. A taxa de desemprego bateu recordes de baixa e a arrecadação do governo, de alta.
Parte dessa performance responde a estímulos que não irão se repetir adiante, como a desoneração do Imposto de Renda da Pessoa Física, a antecipação de despesas públicas e inúmeras medidas de crédito incentivadas pelo governo. A outra parte vem da diversificação do comércio exterior brasileiro, da nossa posição como exportadores de petróleo e de mudanças estruturais no mercado de trabalho que têm mantido o dinamismo do emprego. Os aspectos mais negativos desse primeiro semestre são as expectativas de inflação desancoradas e uma taxa de juros bastante elevada.
É justamente esse nível de restrição monetária que irá alterar o quadro adiante. Mesmo diante da resiliência do mercado de trabalho e dos inúmeros estímulos, já se notam sinais de fraqueza na ocupação e nos salários. Indústria, comércio e serviços, igualmente, mostram sinais de fraqueza recente. No crédito, houve deterioração da qualidade e aumento das recuperações judiciais e extrajudiciais.
Não fossem os estímulos do governo, a economia e a inflação já estariam mais fracas. Antes da guerra, dos estímulos, do choque esperado do El Niño e das possíveis mudanças na legislação trabalhista, a expectativa era de uma inflação ao redor do centro da meta durante boa parte do ano. O quadro se alterou, mas nem tanto: a inflação esperada até o próximo ano segue consistente com um diagnóstico de choques, majoritariamente sem acelerar além deles e da inércia que os acompanha.
Portanto, é esperado que a economia desacelere e abra espaço para a continuidade dos cortes de juros, uma vez que parte dos choques tende a se dissipar com uma taxa de câmbio relativamente estável e com o fim dos estímulos vindos do governo. De toda forma, o tamanho dos cortes de juros será calibrado à luz do movimento das expectativas de inflação e da própria inflação corrente.
O quadro que mais importa, entretanto, será definido após as eleições. A dívida pública precisa estabilizar para minimizar o risco de um descontrole inflacionário. Com a redução dos estímulos, a queda dos juros tende a ajudar, mas ainda teremos taxas reais mais altas do que aquelas necessárias para estabilizar a dívida aos níveis correntes de crescimento e resultado primário.
O crescimento de curto prazo não deve ajudar, afinal espera-se alguma desaceleração da economia nos próximos trimestres, sem grandes vetores que possam alterar esse quadro. Na eventualidade de haver novos estímulos fiscais ou de crédito, criaremos justamente uma expansão que prejudicará o esforço de estabilização da dívida, seja por juros mais elevados, seja por resultados fiscais piores.
A melhora do quadro fiscal, portanto, deve ser o ponto de partida. Com uma sinalização clara e crível de expansão do resultado primário, há boas chances de vermos uma queda mais sustentada dos juros de mercado, apoiando uma perspectiva mais favorável para a dívida pública.
Do lado do crescimento de médio prazo, por sua vez, uma menor taxa de juros real contribuirá para uma expansão mais robusta da economia, mas um crescimento mais sustentado dependerá da simplificação do ambiente de negócios, da segurança jurídica e patrimonial, da inovação tecnológica, de investimentos em infraestrutura e capital humano, do menor direcionamento de crédito e da maior integração global nas cadeias produtivas de valor. O país possui vantagens comparativas em setores que devem ser críticos para a próxima fase da expansão global, notadamente em commodities, energia e terras raras.
Com a piora da demografia, o crescimento dependerá cada vez mais de ganhos de produtividade. Os avanços globais em inteligência artificial oferecem uma extraordinária oportunidade para avançarmos mais rápido nos setores público e privado, com possibilidades concretas de redução de gaps históricos em saúde, educação e eficiência na prestação de serviços públicos.
Essas deveriam ser iniciativas críticas para o próximo ciclo. Sem elas, ficará mais difícil equilibrar as contas públicas e estabilizar a dívida. São agendas que conversam com o retorno do País ao grau de investimento e com o ingresso na OCDE. Destacar a resiliência da economia brasileira é importante, mas dar perenidade a ela deveria ser a prioridade do debate daqui em diante.
Fernando Honorato Barbosa é economista-chefe do Bradesco.
Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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