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Eleições 2026: Lula e Haddad miram interior de SP com Alckmin, França e ofensiva contra Tarcísio

14 de julho de 2026

Por Hugo Henud, do Estadão

São Paulo, 14/07/2026 – As pré-campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Fernando Haddad (PT) vão concentrar esforços no interior de São Paulo, região onde o partido historicamente enfrenta maior resistência e que será decisiva para a disputa no maior colégio eleitoral do País. A aposta é reduzir a vantagem da direita expressa nas pesquisas com uma combinação da presença do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e de Márcio França (PSB), da interlocução de Simone Tebet (PSB) com setores do agronegócio e do empresariado e de uma ofensiva sobre temas em que aliados identificam pontos de desgaste do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), com destaque para a segurança pública.

O desempenho na região é tratado pelas duas pré-campanhas como peça central tanto para a disputa estadual quanto para a presidencial. Para Haddad, avançar no interior é condição para reduzir a resistência ao PT, tornar a eleição ao Palácio dos Bandeirantes competitiva e ampliar suas chances de chegar ao segundo turno. Para Lula, uma candidatura estadual mais forte ajuda a estruturar o palanque presidencial em São Paulo e a diminuir a margem que Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tenta construir no Estado como herdeiro político do pai na corrida ao Planalto.

A estratégia ganhou contornos mais claros após Haddad definir a chapa majoritária que irá acompanhá-lo na disputa pelo governo paulista. Márcio França foi escolhido para a vice, enquanto a ex-ministra do Planejamento Simone Tebet e a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) irão disputar as duas vagas de São Paulo ao Senado.

Presidente do PT paulista e coordenador da campanha de Haddad, o deputado federal Kiko Celeguim afirma que a largada pelo interior busca mobilizar militantes, candidatos a deputado e lideranças locais em torno de um projeto estadual conectado à campanha presidencial. “A partir do interior, vamos iniciar uma jornada para mobilizar o Estado de São Paulo em torno de um novo projeto”, diz.

A avaliação no entorno petista é que a participação de nomes com trajetória própria em São Paulo, especialmente Alckmin e França, ajuda a abrir canais em regiões onde o partido enfrenta mais dificuldade. “A presença deles nos atos de campanha, no processo de mobilização de diversos setores econômicos e sociais do Estado, pode trazer gente a engajar no nosso projeto”, afirma Celeguim.

Alckmin é tratado pela campanha como o principal ativo para abrir portas no interior. Ex-governador de São Paulo e vencedor de quatro eleições estaduais, o vice-presidente mantém relações com prefeitos e lideranças regionais construídas ao longo de décadas de atuação política no Estado.

França, por sua vez, é apresentado como um nome com trajetória própria na política paulista: foi prefeito de São Vicente, deputado federal, secretário estadual, vice-governador e comandou o governo do Estado por nove meses após a saída de Alckmin para disputar a Presidência em 2018.

A coordenação da campanha de Lula em São Paulo, por sua vez, avalia que a tentativa de ampliar o alcance do palanque não se limita ao uso dos dois como pontes com o interior. O advogado Marco Aurélio de Carvalho, responsável pela campanha presidencial petista no Estado, afirma que a composição reúne nomes com experiência administrativa, trajetória parlamentar e histórico eleitoral entre os paulistas.

Ele destaca, nesse desenho, o papel de Tebet e Marina, duas ex-senadoras que já disputaram a Presidência da República e agora concorrerão novamente a cadeiras na Casa. Para Marco Aurélio, a experiência acumulada pelos integrantes da chapa permitirá à campanha oferecer elementos de comparação com os adversários e apresentar um grupo com conhecimento da realidade paulista.

Aliados ouvidos pelo Estadão afirmam que Tebet e Marina deverão cumprir funções distintas na tentativa de ampliar o alcance da chapa para além da base tradicional do PT. Tebet é vista como uma ponte com setores do agronegócio e do empresariado, segmentos com forte presença no interior, enquanto Marina reforça a identificação do palanque com a agenda ambiental e agrega ao grupo uma liderança de projeção nacional.

A composição também será usada para marcar contraste com os adversários no debate sobre representação feminina. A campanha de Haddad pretende explorar o fato de as principais chapas rivais não contarem com mulheres entre os candidatos aos cargos majoritários, diante de um palanque petista que terá duas candidatas ao Senado.

Outro eixo da estratégia será avançar sobre temas em que aliados das duas pré-campanhas identificam fragilidades na gestão Tarcísio. A segurança pública aparece entre as principais apostas, apesar de ser um terreno no qual a esquerda tradicionalmente enfrenta maior resistência eleitoral e dificuldade para disputar a narrativa com a direita.

Como mostrou o Estadão, a pré-campanha de Haddad avalia que há uma forte sensação de insegurança entre os paulistas e vê nesse cenário espaço para apresentar o petista como alternativa à política adotada pela atual gestão.

O ex-ministro decidiu colocar a segurança pública no centro de sua campanha e, na elaboração de um plano para a área, tem recorrido a especialistas historicamente ligados ao PSDB, partido que rivalizou com o PT e comandou o Palácio dos Bandeirantes por quase 30 anos, além de representantes de legendas aliadas, coronéis da Polícia Militar e delegados críticos ao governo Tarcísio.

A tentativa é transformar esse diagnóstico também em estratégia de comunicação. Aliados de Lula e Haddad apostam em uma ofensiva na propaganda eleitoral e nas redes sociais para vincular a percepção de insegurança ao desempenho do governo estadual e, ao mesmo tempo, apresentar o petista como capaz de oferecer uma resposta baseada em maior integração entre São Paulo e o governo federal no combate ao crime organizado.

Convencer o eleitor, no entanto, será um desafio. Pesquisa Atlas/Estadão mostra que Tarcísio é visto pelos paulistas como mais confiável do que Haddad para enfrentar a criminalidade: 57% dizem confiar mais no governador, ante 39% que apontam o petista. O levantamento também mostrou que a criminalidade é citada por 60% dos entrevistados como um dos principais problemas do Estado.

A segurança pública será apenas uma das frentes da ofensiva. Segundo o deputado federal Jilmar Tatto (PT-SP), coordenador do Grupo de Trabalho Eleitoral do PT, a estratégia também prevê expor a gestão Tarcísio em torno da privatização da Sabesp, da expansão dos pedágios free flow e da relação do Palácio dos Bandeirantes com prefeitos, especialmente no interior.

Na avaliação do petista, a privatização abriu espaço para críticas sobre aumento das contas, problemas no abastecimento e demissões. Os novos pedágios, por sua vez, deverão ser apresentados como uma “indústria de multas” e um custo adicional para motoristas. O terceiro eixo será explorar o descontentamento de prefeitos que, segundo Tatto, teriam sido “abandonados durante os quatro anos de governo”.

Por meio da assessoria, o governo Tarcísio rebate a avaliação e afirma manter diálogo permanente com as 645 cidades paulistas. Em nota, a gestão diz ter realizado mais de 500 agendas no interior, no litoral e na Grande São Paulo desde 2023 e repassado mais de R$ 3 bilhões às prefeituras em convênios para obras e projetos municipais. Sobre a Sabesp, o governo sustenta que a desestatização permitiu ampliar investimentos e antecipar a universalização do saneamento para 2029. Em relação free flow, o governo diz que a implantação ocorre de forma gradual, com campanhas de orientação (leia a nota completa mais abaixo).

O tamanho do desafio petista aparece no mapa da eleição de 2022, quando Haddad e Tarcísio se enfrentaram pelo governo paulista. No segundo turno, o petista venceu em apenas 79 dos 645 municípios do Estado, ante 566 conquistados pelo atual governador. As principais vitórias de Haddad se concentraram na capital e em cidades da Região Metropolitana, enquanto Tarcísio dominou amplamente o interior, justamente o território que a nova estratégia tenta agora disputar.

A tentativa de reverter esse quadro esbarra também em uma diferença expressiva de capilaridade municipal: PT e PSB juntos administram somente 14 das 645 prefeituras paulistas. O Republicanos, legenda de Tarcísio, comanda 85 municípios, enquanto partidos aliados do governador controlam outras 501 cidades. Somados, o partido de Tarcísio e seus aliados administram 586 municípios, uma vantagem de estrutura especialmente relevante no interior.

É diante dessa desvantagem de estrutura que o professor do Insper Leandro Consentino vê o principal desafio da estratégia petista. Para ele, um bom desempenho fora da capital e da Região Metropolitana é fundamental para que Haddad avance ao segundo turno e, consequentemente, dê sustentação ao palanque de Lula em São Paulo.

Embora considere correto o diagnóstico das duas pré-campanhas da esquerda sobre a necessidade de reduzir a vantagem da direita, o professor avalia que as medidas adotadas podem ser insuficientes para produzir a mudança pretendida.

“O diagnóstico está correto: sem reduzir a diferença no interior, Haddad dificilmente consegue tornar a disputa competitiva e chegar ao segundo turno. A questão é saber se as medidas escolhidos serão suficientes para romper a vantagem”, afirma.

Na visão do cientista político, nomes como Alckmin, França e Tebet já não são necessariamente percebidos pelo eleitor conservador como representantes de um campo de centro ou de direita, mas como lideranças incorporadas ao lulismo. A presença deles, portanto, não garantiria por si só uma ponte com parcelas do eleitorado que hoje se identificam com Tarcísio e o bolsonarismo.

Consentino também pondera que uma ofensiva sobre segurança pública dificilmente será suficiente, sozinha, para provocar uma mudança brusca na percepção de um eleitorado que tradicionalmente associa a direita ao tema. Para ele, o principal desafio está em furar a capilaridade construída por Tarcísio por meio de partidos aliados e administrações municipais.

“O caminho talvez esteja menos em tentar converter de uma vez um eleitor conservador já identificado com a direita e mais em explorar fissuras na própria base municipal de Tarcísio”, diz.

Leia na íntegra a nota do governo de São Paulo:

“Desde o início de 2023, o Governo de São Paulo mantém diálogo permanente com as 645 cidades e atendimento contínuo a prefeitos, prefeitas e secretários municipais. Ao longo de mais de três anos, a gestão realizou mais de 500 agendas de governo no interior, litoral e cidades da Grande São Paulo, fortalecendo a relação institucional com as administrações locais e o trabalho conjunto para entregas, anúncios de investimentos e reuniões de trabalho. Além disso, o Estado repassou mais de R$ 3 bilhões às prefeituras em convênios para obras e projetos municipais que beneficiarão diretamente a população.

Em relação à Sabesp, a desestatização da companhia permitiu a ampliação de investimentos e antecipação da universalização do saneamento para 2029, quatro anos antes do prazo estabelecido pelo Marco Legal do Saneamento. O novo contrato prevê R$ 260 bilhões em investimentos, sendo R$ 70 bilhões até 2029, além de mais de 1,1 mil frentes de obras em andamento. Em 2 anos, 2,1 milhões de pessoas passaram a ter acesso à água potável e 4,3 milhões foram incluídas na cobertura de coleta e tratamento de esgoto.

A ampliação dos investimentos foi acompanhada pelo fortalecimento da proteção às famílias de baixa renda. A Tarifa Social Paulista já beneficia cerca de 6 milhões de pessoas nos 371 municípios atendidos pela Sabesp, com descontos de até 78% para as famílias mais vulneráveis.

Em relação ao Siga Fácil, a implantação é conduzida de forma gradual, com medidas de orientação aos usuários, campanhas de comunicação, ampla sinalização nas rodovias e divulgação dos prazos e formas de pagamento pelo Estado e pelas concessionárias. O sistema garante justiça tarifária, uma vez que o condutor passa a pagar somente pelo trecho percorrido, e representa a modernização da infraestrutura viária estadual ao substituir praças físicas de pedágio por pórticos que eliminam paradas e melhoram a fluidez e a segurança do tráfego.

Os condutores passam a contar também com descontos para uso recorrente e pagamento automático via tag. A modernização é aderente às políticas promovidas pela Agência Nacional de Transportes Terrestres para as rodovias federais.”

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