Selecione abaixo qual plataforma deseja acessar.

Entrevista/Bradesco/Fernando Honorato: Aumento da arrecadação permite ao governo segurar diesel

Para o economista, pacote para conter alta no preço dos combustíveis não terá impacto fiscal

10 de abril de 2026

Por Francisco Carlos de Assis e Eduardo Laguna

O economista-chefe do Bradesco, Fernando Honorato, avalia que a arrecadação extra com a escalada do petróleo, em meio aos conflitos no Oriente Médio, deve permitir ao governo financiar sem impacto fiscal o pacote anunciado na segunda-feira para conter altas nos preços do diesel e do gás de cozinha.

Citando estimativas que apontam a um ganho de arrecadação de até 0,1% do PIB a cada 10% de valorização do petróleo, Honorato considera que o efeito fiscal das medidas será neutro. “Estão gastando recursos que, com alta chance, vão arrecadar”, disse o economista para a Broadcast.

Na entrevista, concedida ontem (7), ao fim do primeiro dia do fórum que o Bradesco BBI promove anualmente com investidores, Honorato avaliou também que, embora não seja o mais provável, é plausível pensar numa aceleração nos cortes da Selic em abril.

Veja abaixo os principais trechos da entrevista:

Broadcast: O pacote de subsídios para conter o aumento nos preços do diesel e do gás de cozinha é mesmo neutro do ponto de vista fiscal?

Fernando Honorato: Vários países do mundo têm tomado medidas para tentar compensar ou minimizar uma parte dos efeitos do choque do petróleo. No mundo ideal, você deixaria os preços se ajustarem. Mas, do mundo ideal para o mundo real, não é trivial a sociedade sofrer esses impactos sem algum tipo de anteparo, especialmente no caso do diesel, já que tínhamos até poucas semanas uma ameaça de greve [dos caminhoneiros]. Consigo entender a lógica do governo. Sob o ângulo fiscal, assim que a guerra começou, estimamos que para cada 10% de aumento do preço do petróleo, a arrecadação do governo cresce entre 0,05% e 0,10% do PIB. Então, acho que é verdadeira a afirmação de que o impacto fiscal vai ser neutro. Em outras palavras, estão gastando recursos que, com alta chance, vão arrecadar.

Broadcast: E pela perspectiva da Petrobras e de seus acionistas?

Honorato: O governo evitou a intervenção no preço via Petrobras. Se você reparar, ele permitiu que a empresa repasse [a alta nos preços do petróleo]. Se vai repassar ou não, é uma decisão corporativa e de governo, já que é uma empresa pública. A Petrobras vive dizendo que não repassa a volatilidade, e espera para ver aonde os preços vão. Até este momento, da maneira como foi desenhado, a Petrobras está livre para repassar o preço que quiser.

Broadcast: O governo fala de medidas, inicialmente, para dois meses. Caso a guerra se prolongue, é possível renovar os subsídios por mais dois meses mantendo a neutralidade fiscal?

Honorato: Sim, o tamanho do gasto público associado à medida é equivalente ao que será arrecadado no período. Não vai ser um problema fiscal.

Broadcast: A continuidade da guerra, que já dura mais de um mês, está enfraquecendo a percepção de choque temporário entre os investidores?

Honorato: Acho que está. A ideia de que rapidamente se resolveria foi dando lugar a discussões do tipo ‘o Irã tem mais poder do que se previa de bloquear o estreito [de Ormuz]’. E de que o Irã tem mais poder de provocar algum dano a infraestruturas dos aliados americanos no Oriente Médio do que se previa. Além disso, mesmo que a guerra termine, o fluxo de petróleo que não passou pelo estreito nas últimas semanas impede que as refinarias operem a plena capacidade. Os investidores olharam para o cenário e falaram: ‘puxa, essa guerra pode durar mais tempo’. A percepção foi se alterando de algo que podia ser resolvido em poucos dias para algo que pode demorar algumas semanas, talvez alguns meses.

Broadcast: Por que o real não está sentindo tanto os efeitos dessa instabilidade geopolítica?

Honorato: A guerra não muda o cenário de diversificação dos investimentos para fora dos Estados Unidos, que vinha acontecendo por conta da maior incerteza com a política econômica americana. Como foi um movimento unilateral dos Estados Unidos, não consultando a Otan, não consultando o Congresso americano, a guerra provavelmente reforça essa diversificação. Todo esse contexto global conspira a favor de um dólar mais fraco, e isso ajuda muito as moedas dos emergentes, incluindo o real. Fora isso, o Brasil está protegido por ser um produtor importante de petróleo, por ter deixado a Petrobras livre para fazer os reajustes, por não ter tido impacto fiscal grande até agora. E um terceiro elemento, obviamente, é o diferencial de juros, que ajuda a manter o real bem comportado.

Broadcast: Num cenário de resolução do conflito, os preços do petróleo voltam para qual nível?

Honorato: Qualquer pessoa que fizer uma estimativa disso vai estar sujeita a muita incerteza. É muito difícil. Eu e meu time não somos especialistas em petróleo. Então, o que eu vou te responder é diferente. A hipótese que adotamos é que o petróleo termina o ano entre US$ 70 e US$ 80 pelo excesso de oferta. Antes da crise, estávamos discutindo se o petróleo poderia terminar o ano em US$ 50. Até o momento, não houve uma grande destruição de capacidade no mundo. Se a guerra terminar mais cedo, dá tempo de normalizar [os preços] até o fim do ano. Mas fica um certo prêmio do risco de guerra. Mesmo que a guerra acabe, por um tempo as seguradoras vão ter um pouco mais de receio, vão cobrar prêmios maiores, as empresas vão ter reticências em passar lá pelo estreito. Colocamos esse prêmio entre US$ 10 e US$ 20. É uma hipótese, não é uma projeção.

Broadcast: O Bradesco revisou de 3,80% para 4,30% a projeção para a inflação deste ano. Essa previsão continua ou pretendem alterar?

Honorato: Continua. Em crises desse tipo, ou choques como esse, um fator que é propagador da inflação no Brasil é justamente o câmbio. Esta não é mais uma fonte de propagação. O real está em R$ 5,15. Esse é o primeiro componente. O segundo é que o governo está fazendo um esforço hercúleo para evitar que o preço do diesel seja aumentado. Para a gasolina e no GLP [gás de cozinha] não tem muitas medidas sendo divulgadas, mas aqui talvez a Petrobras vá ser um pouco do amortecedor.

Broadcast: A Petrobras, então, vai contribuir para evitar uma disparada do IPCA?

Honorato: Não é um choque de demanda típico que poderia se propagar via serviços e aumento de salários, que faria a parte rígida do IPCA subir. É um choque de bens industriais. Sem a propagação do câmbio e com esses amortecedores, especialmente na gasolina e no GLP, talvez o IPCA fique dentro do teto da meta mesmo. Agora, se o petróleo subir mais do que a gente está prevendo, se essa hipótese de US$ 70, US$ 80 estiver errada, a defasagem vai aumentando e talvez tenha uma mudança no quadro que faça o real se desvalorizar. Aí a inflação vai ser maior. Mas eu não estou vendo a inflação muito acima do teto da meta.

Broadcast: O BC tem condições de continuar cortando os juros em abril ou o senhor atribui alguma probabilidade de pausa no ciclo?

Honorato: Nosso cenário-base contempla alta probabilidade de o BC cortar 0,25 ponto porcentual em abril. Mas com aceleração [dos cortes] depois, terminando o ano em 12,50%. E, aqui, o componente que conecta essas histórias é o seguinte: se de um lado vai ter um pouco mais de pressão inflacionária de curto prazo; para o horizonte relevante, o BC não tem uma piora tão significativa. Pelos nossos modelos, com os preços de ontem [segunda-feira] do câmbio e do petróleo, o IPCA teria voltado para 3,20% no horizonte relevante, que rola e vai para o quarto trimestre de 2027. Não vai ter uma piora relevante. O segundo componente é o que vai acontecer com o PIB/atividade. Falamos muito do impacto na inflação, mas tem um impacto que já vínhamos enxergando antes: da política monetária na atividade.

Broadcast: Há espaço para o BC cortar a Selic em 0,50 ponto porcentual no próximo Copom?

Honorato: Até tem uma chance de 0,50, acho que a probabilidade de 0,50 não é zero na próxima reunião. Mas se o Copom fosse hoje, acho que seria 0,25. Como tem algumas semanas, e se o Estreito de Ormuz for liberado, e o petróleo voltar para US$ 90, e o câmbio for a R$ 5,05, o mercado vai discutir corte de 0,50. Não acho que é o cenário-base hoje, mas é algo que é plausível de se pensar também.

Veja também