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Entrevista/Caixa Seguridade/Portela: Não há necessidade de mudança na política de dividendos

8 de julho de 2026

Por André Marinho

São Paulo, 08/07/2026 – Sem a urgência de mobilizar caixa para fusões e aquisições (M&A) e com acesso ao maior balcão bancário do País, a Caixa Seguridade espera manter a política agressiva de dividendos, com distribuição superior a 90% do lucro líquido.

“Não vemos na linha do tempo nenhuma necessidade de mudança nessa política”, afirma o diretor-presidente da holding de seguros da Caixa, Gustavo Portela, em entrevista à Broadcast. “Desde o IPO da empresa, já foram distribuídos mais de R$ 15 bilhões em dividendos”, acrescenta ele, referindo-se à oferta pública inicial de ações da empresa, realizada em 2021.

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Foto: Divulgação/Caixa Seguridade

No lado comercial, a companhia está preparada para tocar os planos de negócio independentemente da retomada do seguro prestamista vinculada ao consignado para aposentados e pensionistas, garante Portela. O seguro prestamista cobre dívidas em casos como morte, invalidez ou desemprego do segurado.

A oferta está suspensa desde o final do ano passado, quando a Caixa Econômica Federal firmou termo de compromisso com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) para reavaliar o modelo de comercialização do produto. O movimento agravou os efeitos da Selic restritiva e ajudou a derrubar a arrecadação com a linha prestamista, que caiu mais de 20% no comparativo anual do primeiro trimestre, para R$ 298,9 milhões.

Veja os principais trechos da entrevista:

Broadcast: O balanço da Caixa Seguridade tem sido consistentemente destacado pelo mercado pela previsibilidade, mas isso levanta questionamentos sobre se há espaço para crescer mais. Quais são as principais avenidas de crescimento para dar continuidade a esse desempenho?

Gustavo Portela: Temos aproximadamente 12 milhões de clientes. O mercado endereçável total é de 150 milhões [de clientes da Caixa], mas hoje há 39 milhões de clientes dentro de casa que possuem na Caixa a sua principalidade bancária. Quando olhamos para esse universo e pensamos nos investimentos que a Caixa tem feito em tecnologia e nas apostas no SuperApp, enxergamos as grandes avenidas de oportunidade da Caixa Seguridade. Na área de loterias, acabamos de lançar um produto digital focado em capitalização e filantropia para aquele cliente que frequenta a lotérica e gosta de fazer a sua aposta.

Broadcast: Mas há linhas específicas em que a Caixa Seguridade considera ter baixa penetração me relação ao esperado?

Portela: No seguro de vida, ao analisarmos o ranking da Susep (Superintendência de Seguros Privados), fica claro que ainda temos grandes oportunidades para aumentar a penetração. Temos feito um trabalho muito forte para vender mais, garantindo que o cliente perceba o real valor do produto. Nosso desafio é gerar, tanto na experiência física quanto na digital, mais tempo de disponibilidade para o público enxergar esses benefícios na nossa linha de produtos. O seguro habitacional, atrelado à operação de crédito imobiliário, tem sido a nossa frente mais resiliente. No primeiro trimestre deste ano, essa carteira ultrapassou a marca de quase R$ 1,1 bilhão de reais em prêmios. Ainda assim, temos a oportunidade de oferecer a proteção para o conteúdo do imóvel. Estamos estruturando um trabalho forte com o que chamamos de “Lar Mais Protegido”, que consiste no seguro residencial acoplado ao habitacional.

Broadcast: Há espaço para que esse nível forte de prêmios na linha habitacional continue se sustentando?

Portela: Esse é um produto que traduz a visão de resiliência em nível de companhia. Ele apresenta duas características muito importantes: a primeira é o conceito de empilhamento. A cada mês que passa, os clientes que contrataram o seguro no crédito imobiliário continuam pagando suas prestações e o produto vai se acumulando. Soma-se a isso a estratégia do banco. A área de habitação da Caixa já indicou uma projeção de crescimento para este ano, prevendo uma expansão entre 9,5% e 13% no crédito imobiliário com recursos próprios do SBPE (Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo), e algo entre 8% e 12% para o FGTS. Como a estrutura de planejamento está bem resolvida e equacionada, e considerando que o banco tem sinalizado que não vê grandes desafios estruturantes de funding para os próximos três ou quatro anos, enxergamos a oportunidade de manter esse patamar de originação no crédito no médio prazo.

Broadcast: A pressão no orçamento das famílias afetou principalmente a linha prestamista. Como a Caixa Seguridade busca contornar esse cenário?

Portela: O seguro prestamista segue prejudicado em função da redução do poder de compra do cliente. Além disso, no final do ano passado, tivemos a suspensão da oferta do prestamista vinculado ao crédito consignado do INSS, o que de fato nos impactou. Para avançar nessa linha enquanto o INSS enfrenta seus desafios, precisamos buscar alternativas internas. Temos feito um trabalho forte de reformulação do nosso portfólio. No primeiro semestre deste ano, disponibilizamos de forma digital o produto de seguro proteção desemprego, voltado para o cliente do crédito consignado privado que não está necessariamente focado apenas no risco de morte ou invalidez permanente, mas se preocupa com a possibilidade de perder o emprego e ter problemas com o crédito e com o seu nome. No segundo semestre, a Caixa dará início ao lançamento escalonado do SuperApp. Trata-se de um grande aplicativo unificado no qual as funcionalidades que hoje estão dispersas em 15 aplicativos diferentes – como conta corrente, seguros, loterias e FGTS – atuarão como mini apps dentro de uma única plataforma. Isso nos permitirá conversar com o cliente de maneira muito mais direta e fluida. O banco também está preparando uma oferta mais forte do “Pix parcelado”. Estamos trabalhando para que, já na primeira ou segunda fase de lançamento, a oferta do seguro esteja integrada a esse momento.

Broadcast: Em relação à suspensão do seguro para clientes do consignado do INSS, como tem sido o diálogo com o órgão? A Caixa Seguridade espera a retomada dessa oferta em breve?

Portela: A interlocução com o INSS segue próxima. Mas estamos preparados para tocar o nosso plano de negócios de maneira independente do retorno dos aposentados do INSS no curto prazo. Nós não modelamos esse retorno para o ano de 2026. Mantemos as conversas abertas com o INSS, mas, por ora, não estamos trabalhando com o retorno do seguro prestamista do INSS dentro das nossas ofertas.

Broadcast: A linha voltada ao consignado privado tem escala suficiente para absorver esse vácuo deixado pelo INSS?

Portela: O INSS tinha uma participação muito relevante no crédito consignado do banco, chegando a representar entre 30% e 40% da nossa oferta de prestamista. Entendemos que o consignado privado terá avanços importantes na linha do tempo, embora ainda não tenhamos no radar em que momento essa carteira chegará a compensar 100% o volume de crédito feito pelo INSS. Nós sempre fomos um banco com forte atuação em convênios estaduais e municipais, e essa linha continua operando fortemente do nosso lado. Agora, a Caixa vem registrando um crescimento paulatino no consignado privado. A nossa expectativa na maturidade do produto é buscar uma performance de seguro prestamista entre R$ 10 milhões e R$ 15 milhões mensais em prêmios nessa linha.

Broadcast: No segmento de previdência, o mercado enfrentou os efeitos da nova regra de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras), que passou a incidir sobre aportes superiores a R$ 600 mil em planos VGBL por ano. O pior momento desse ciclo ficou para trás?

Portela: Nós sentimos os impactos, mas realizamos um trabalho muito positivo junto à nossa força de vendas com ações comerciais e campanhas. A iniciativa do “IOF Cashback” funcionou muito bem, além de termos focado em ações direcionadas aos clientes com foco na portabilidade de entrada. Como resultado, registramos R$ 1,3 bilhão de captação líquida positiva e ultrapassamos a fronteira de R$ 200 bilhões em reservas de previdência. No momento atual, diante de uma postura confortável de captação (funding) e sem desafios de capital pelo banco, conseguimos liberar mais alternativas e dar mais foco para o gerente buscar a previdência. Por isso, estamos otimistas com o produto. Acreditamos que teremos um ano positivo, mantendo a boa performance que a previdência tem apresentado até agora.

Broadcast: A Caixa Seguridade é reconhecida como uma das maiores pagadoras de proventos do mercado, mantendo um indicador de payout superior a 90%. Há alguma mudança prevista na governança de alocação de capital ou a holding avalia oportunidades de crescimento inorgânico via fusões e aquisições (M&A)?

Portela: O nosso modelo atual de acesso ao balcão do banco nos permite manter uma estrutura de caixa mínimo bem organizada. Não temos a necessidade de comprar mais espaço dentro do balcão, pois o acesso já está garantido para nós. Isso significa que temos a oportunidade de buscar novas frentes dentro da própria estrutura do banco sem a necessidade de realizar novos investimentos. Essa característica nos permite manter uma política de dividendos bastante agressiva. Embora não esteja escrito em pedra, temos mantido um payout superior a 90%. Inclusive, aprovamos no primeiro trimestre a distribuição de R$ 1,05 bilhão em dividendos intercalares antecipados. Não vemos na linha do tempo nenhuma necessidade de mudança nessa política. Desde o IPO da empresa, já foram distribuídos mais de R$ 15 bilhões em dividendos. Quando combinamos isso a um indicador de retorno elevado e à frequência das distribuições de resultados, conseguimos atrair uma base expressiva de investidores pessoas físicas. Hoje, contamos com aproximadamente 430 mil investidores individuais. Para nós, esse público é muito relevante, e não temos no radar nada que sinalize uma mudança sensível nessa dinâmica.

Contato: andre.marinho@estadao.com

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