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IA deve perder força em 2027 e rotação voltar, mas Brasil pode ficar de fora, diz especialista

8 de julho de 2026

Por Cynthia Decloedt

São Paulo, 28/06/2026 – A rotação de recursos financeiros alocados em ativos em dólar em direção aos mercados emergentes, que marcou um ingresso expressivo de estrangeiros na bolsa brasileira no início do ano, tende a ser retomado no ano que vem, mas o Brasil pode ficar de fora desse novo ciclo, diz Cameron Brandt, diretor de pesquisa da EPFR, um dos principais provedores de dados sobre fluxos globais de capitais. Em sua opinião, atrair recursos agora depende dos desdobramentos das eleições presidenciais e de sinalizações sobre as perspectivas de um ajuste fiscal.

“Se os investidores acharem que o Brasil sai das eleições com uma história de reforma fiscal crível, você verá muito dinheiro entrando”, diz em conversa com a Broadcast. O especialista, que acompanha o destino do dinheiro que circula entre fundos de ações e de dívida há 30 anos, diz que hoje Inteligência Artificial é “de longe” o tema que mais movimenta os fluxos de recursos no mundo este ano entre as bolsas, mesmo que o conflito no Oriente Médio tenha assumido importante protagonismo nos mercados.

Até agora, os investidores que apostam na IA estão colocando seu dinheiro em mercados acionários dos Estados Unidos, Taiwan e Coreia do Sul, e o Brasil foi perdendo terreno por não ter uma “história de IA para contar”, diz ele. “Uma quantidade desproporcional do dinheiro está indo para os que são vistos como os inovadores na história da IA e outros países estão sofrendo por causa disso”, conta.

Para ativos de tecnologia norte-americanos foram direcionados US$ 118 bilhões em recursos no acumulado deste ano, de acordo com Brandt, seguido por Coreia do Sul (US$ 28 bilhões) e Taiwan (US$ 16 bilhões). A China, acrescenta Brandt, é o maior mercado perdendo recursos para o tema, especialmente em tecnologia e ações domésticas. Além do Brasil, a Índia, que sempre foi considerada um polo de tecnologia no mundo, também não é beneficiada pelo expressivo interesse dos investimentos na IA, uma vez que segue confinada à programas de backoffice, afirma.

Brandt vê a história da IA perdendo força pela constatação dos investidores quanto às “restrições físicas” dessa indústria, como energia e água, que são necessários em abundância nos data centers, onde são armazenadas as informações. “A rede elétrica dos Estados Unidos, francamente, não acho que esteja apta para lidar com esse tipo de aumento na demanda”, afirma.

Ele acrescenta que há ainda globalmente uma pressão pela geração de energia “verde”, o que não é necessariamente simples, já que as alternativas, como a energia solar, não são fontes perenes. Na equação dos “contras”, Brandt comenta também sobre aparentes dificuldades que as empresas de IA demonstram em encontrar profissionais qualificados. “Então, espero que as asas desse segmento comecem a ser cortadas um pouco em 2027”, diz.

Paralelamente à IA, a guerra obviamente tem sido outro motor dos fluxos, que chegou a beneficiar o Brasil e outros países produtores fora do eixo do conflito, mas perdeu força à medida que os profissionais de investimento traçaram uma linha para a trajetória de longo prazo para os preços da energia mais próxima a anterior ao início do conflito.

Mas se a história sobre atração de recursos para a bolsa brasileira não entusiasma, para o mercado de títulos de dívida é um pouco diferente. “A dívida soberana brasileira local e externa é definitivamente popular neste momento”, conta.

Segundo ele, a taxa de juro básica “consistentemente alta” e a “narrativa” de que a moeda brasileira será respaldada pelas taxas de juros e pelo preço das commodities dão sustentação ao interesse pela dívida brasileira. “Se você é um investidor que não quer todos os seus ovos em uma cesta só, o Brasil é certamente um mercado”, afirma.

Contato: cynthia.decloedt@estadao.com

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