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8 de julho de 2026
Por Isadora Duarte
Brasília, 08/07/2026 – O governo federal vem monitorando, com mais atenção, os potenciais impactos do fenômeno climático El Niño sobre o setor agropecuário. A atuação se concentra em duas frentes: apoiar os produtores em medidas preventivas e mitigar eventuais pressões inflacionárias nos alimentos. A estratégia deve incluir, ainda, a revisão orçamentária do seguro rural.
O movimento do governo, capitaneado pela equipe agrícola do Executivo, vem em meio à expectativa de um “Super El Niño”, que ameaça a produção brasileira de grãos na safra 2026/27. A previsão meteorológica é a de que ele se converta em um “episódio forte” entre julho e setembro, o que aumenta a probabilidade de ondas de calor, secas e chuvas intensas que podem prejudicar a produtividade das lavouras da nova safra, que começa a ser semeada em setembro.
Na última semana, o Ministério da Agricultura instituiu, por meio de portaria publicada no Diário Oficial da União, um grupo de trabalho para avaliar os impactos de El Niño. Entre as funções da equipe, estão mapear vulnerabilidades regionais e setoriais e propor estratégias de mitigação e instrumentos de proteção do produtor rural. A avaliação deverá considerar os impactos por região geográfica e nas principais culturas, como soja, trigo, milho, feijão, cana-de-açúcar, café e mandioca.
Deverá, também, formular propostas institucionais relativas aos efeitos do El Niño na produção e produtividade da agropecuária brasileira e elaborar um relatório contendo estratégias de adaptação e mitigação frente ao fenômeno climático com um plano de trabalho e um cronograma de ações e respectivos impactos na agropecuária brasileira. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) participam do grupo.
O colegiado deverá atuar, além disso, como uma espécie de “comitê de crise” para subsidiar as ações do ministério e eventualmente orientar a necessidade de suplementações ou remanejamentos orçamentários para o enfrentamento do fenômeno climático. “A avaliação preliminar é a de que instrumentos de gestão e mitigação de risco, como o seguro rural, precisarão ser fortalecidos com urgência”, apontou uma fonte.
No seguro rural, a intenção é incluir a discussão nos debates de estratégias de mitigação do El Niño. O orçamento do seguro rural foi contingenciado em mais de 53% pelo governo ao longo do último mês, com os recursos para subvenção ao prêmio caindo para R$ 473,8 milhões neste ano. A partir das análises do colegiado, entretanto, técnicos da equipe agrícola veem espaço para recomposição do orçamento do seguro rural, relatam fontes ao Broadcast Agro.
O governo optou por não incluir eventuais anúncios ao seguro rural no lançamento do Plano Safra, política oficial de crédito rural, e tratá-lo sobre a ótica ampliada dos desdobramentos de El Niño, disse ao Broadcast Agro o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Campos. “O indicativo foi tratar o Plano safra na área do financiamento e deixar o seguro rural para ser tratado dentro do esforço do governo sobre a potencialidade dos impactos de El Niño, em uma análise mais ampla e interministerial”, continuou. “A ideia é pensar não apenas no resultado final de El Niño como potencial impacto inflacionário, mas na segurança ao produtor rural para ter apetite em plantar a safra, em meio à situação de endividamento, aos preços baixos das commodities e à insegurança climática dominante”, esclareceu. “O seguro rural minimiza o efeito limitador da questão climática sobre a safra”, afirmou.
Campos destaca ainda o aspecto inflacionário de um eventual impacto de El Niño sobre a safra. “Dois componentes preocupam: El Niño sobre a safra 2026/27 e o aumento do custo de produção, com a alta dos fertilizantes em virtude do conflito no Oriente Médio. Há canal de repasse direto à inflação dos alimentos e os instrumentos para contê-la não estão sendo eficazes como esperado”, pontuou, mencionando o peso do agronegócio para o desempenho da economia, já que responde por mais de 25% do Produto Interno Bruto (PIB).
Na inflação, antes mesmo dos efeitos de El Niño, o grupo alimentação e bebidas vem contribuindo para a aceleração do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA 15), que acumula alta de 3,45% neste ano até junho. “Há uma preocupação latente com o aumento do custo dos alimentos”, reforçou Campos.
No segmento da agricultura familiar, o Ministério do Desenvolvimento e Agricultura Familiar busca recursos, no âmbito do grupo que estuda impactos de El Niño, para formar brigadas de incêndio em assentamentos da reforma agrária, assim como ocorre em territórios indígenas, sobretudo na Região Norte do País, no Estado do Amazonas. A intenção é a de que a formação das brigadas seja financiada pelo Fundo Amazônia, disse a ministra do MDA, Fernanda Machiaveli, em coletiva de imprensa.
Outro tema em debate pelo MDA é a necessidade de ampliação da formação de estoques de produtos agropecuários para enfrentamento de oscilações de preço – hoje, entretanto, não é possível legalmente a dotação de recursos extraordinários para estoques de forma preventiva, apenas em emergências. “Ao longo dos últimos anos, compramos 800 mil toneladas de alimentos que estão armazenados pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab)”, apontou Machiaveli, citando ainda a discussão com o Ministério do Planejamento e Orçamento em relação à construção de contratos de opções para a safra.
Os impactos de El Niño também são acompanhados, pelo MDA, no âmbito do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro). Em anos de adversidades climáticas é comum as indenizações do Proagro dispararem. No momento, o MDA descarta a possibilidade de “estouro” do orçamento do programa, previsto em R$ 6,6 bilhões para indenizações neste ano. “O Proagro foi aperfeiçoado. Ainda há espaço confortável, mas precisamos monitorar. Todas as evidências científicas apontam que El Niño será grave e continuaremos monitorando”, apontou o diretor de Financiamento, Proteção e Apoio à Inclusão Produtiva Familiar do MDA, José Henrique Silva.
O Proagro é uma espécie de seguro rural usado para socorrer pequenos e médios produtores em caso de eventos climáticos extremos, pragas ou doenças e, nessas hipóteses, o beneficiário fica isento de pagar os financiamentos contratados com bancos ou cooperativas, e o custo é assumido pela União. O programa, que tem participação do Tesouro e é rubrica obrigatória, vem sendo alvo de escrutínio pelo Banco Central e pelo Executivo, após o orçamento do programa ter quintuplicado e do aumento de denúncias de fraudes relacionadas ao Proagro. O programa é obrigatório na contratação de financiamentos do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).
O tema perpassa ainda a equipe econômica do Executivo, que já considera os efeitos de um “Super El Niño” nas projeções macroeconômicas do próximo ano. No seu último Boletim Macrofiscal, o Ministério da Fazenda apontou que a maior probabilidade de ocorrência de El Niño neste segundo semestre e o prolongamento do choque nos preços de fertilizantes são vetores que podem afetar em maior medida a safra de 2027 e pressionar a inflação de alimentos, com alguma antecipação ainda para este ano. A expectativa de inflação da pasta foi revisada de 3% para 3,5% em 2027.
Contato: isadora.duarte@estadao.com
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