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‘No pior cenário para guerra no Irã, IPCA 2026 sobe 6%’

Para economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti, prorrogação do conflito traz esse risco

5 de abril de 2026

Por Gustavo Nicoletta e Renata Pedini

A inflação deve terminar 2026 em 4,5%, mas pode chegar a 6% caso a guerra no Irã continue e o Estreito de Ormuz siga fechado no segundo semestre, de acordo com a economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, Marcela Kawauti. Ela avalia que a prorrogação do conflito para a segunda metade do ano expandiria o choque inflacionário para os preços de alimentos, tornando o efeito econômico do conflito menos transitório.

“O pior dos mundos é a guerra continuar no segundo semestre, a intensidade do conflito no sentido de Estreito de Ormuz fechado. Se isso acontecer, a possibilidade de inflação transitória começa a diminuir”, afirma, em entrevista à Broadcast.

Kawauti avalia que o Banco Central passou a adotar uma postura mais cautelosa em decorrência da incerteza sobre o conflito e estima que a Selic terminará 2026 perto de 13%, acima do consenso do mercado, atualmente em 12,50%. Segundo a economista, a taxa deve cair 0,25 ponto porcentual na reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) em abril e pode seguir este ritmo de quedas nos encontros seguintes. Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

Broadcast: O choque de preços no petróleo será transitório ou vai alimentar mais permanentemente a inflação?
Marcela Kawauti:
Por enquanto parece um choque transitório ao longo de 2026. Acaba sendo um pouco mais contido, dado que a inflação em 12 meses está numa inflexão para baixo. No pior dos mundos, teríamos 2 pontos porcentuais a mais de inflação, para perto de 6% neste ano, depois começaria a convergir para 4%. O que é preciso olhar com lupa para ter certeza se o choque vai ser transitório? O núcleo da inflação que exclui alimentação no domicílio e energia. Se ele continuar em 6% – patamar desconfortável, mas que é o mesmo desde agosto do ano passado -, a sensação é de que será uma inflação transitória. Se houver espalhamento, como aconteceu em 2022, vai ter que mudar o diagnóstico.

Broadcast: O que configuraria esse pior cenário para o choque de preços?
Kawauti:
Um prolongamento da guerra além do primeiro semestre, com o petróleo acima de US$ 100 o barril, por conta de fertilizantes. Eles têm o repasse mais focado num momento específico, que é quando a safra vai ser plantada. Se continuarem caros, as compras vão acontecer a preços maiores e começa a ter repasse para os preços de alimentação. O pior dos mundos é a guerra continuar no segundo semestre, a intensidade do conflito no sentido de Estreito de Ormuz fechado. Se isso acontecer, a possibilidade de inflação transitória começa a diminuir.

Broadcast: Qual seria a trajetória esperada do IPCA nos próximos meses? O resultado de março já vai mostrar os efeitos do choque de preços na inflação?
Kawauti:
O pico da inflação começa em abril. Março pega só uma parte. Os repasses do diesel começaram do meio para o fim de março, e o combustível tem um peso pequeno no IPCA, embora afete o preço de alimentos por causa do frete. No IGP-M, o preço de petróleo no atacado está subindo, e vamos monitorar o IPCA de março para ver se teve alguma diferença em preços de alimentos. Vamos começar a olhar, por exemplo, preços de bens industriais, itens de plástico, cosméticos – por conta de embalagem -, se podem subir. Para o fim de 2026, a previsão é de alta de 4,5% no IPCA.

Broadcast: O que representaria uma melhora no cenário referente à guerra no Irã? Fim de bombardeios à estrutura produtiva ou reabertura do Estreito de Ormuz?
Kawauti:
O Estreito de Ormuz é o mais relevante desses dois. O bombardeio de plantas produtivas está muito focado em gás natural e petróleo, mas há mais coisas que dependem do Estreito de Ormuz. A liberação do estreito é como se fosse o primeiro passo. Provavelmente vai levar de três a seis meses até que tudo seja normalizado. Por isso o IPCA está estimado em 4,5% ao fim de 2026. O que importa para a projeção são as médias móveis do preço do petróleo.

Broadcast: Qual é a média móvel atual para o preço do petróleo?
Kawauti:
No cenário de inflação a 4,5%, é de US$ 100 por barril até o começo de junho. Depois estabiliza em US$ 80 até o final do ano.

Broadcast: Qual é a previsão para a Selic neste cenário?
Kawauti:
Para o final do ano é de 13%, mas estamos entre 12,5% e 13%. Deve ficar um pouco acima do que o Focus está mostrando. O Banco Central vai ter muito medo de efeitos de segunda ordem da guerra. O cenário mudou, e tem a pressão de um mercado de trabalho que continua em expansão. É melhor o BC chegar em 13%, segurar um pouco e depois voltar a cortar do que ir muito longe e depois ter que retomar um ciclo de alta. Na próxima reunião, deve reduzir a Selic em 0,25 ponto, e seguir aos poucos até chegar em 13%.

Broadcast: O risco de a Selic aumentar está descartado?
Kawauti:
Por enquanto, sim. Tem aquele caminhão de juros a partir de agosto fazendo efeito, um peso importante para baixo na atividade. O mercado de trabalho está respondendo, ainda que lentamente. O risco de alta seria só se houvesse uma reversão muito importante, muito rápida da inflação. Para isso teríamos que ter mudança numa variável que ainda não se mexeu, que é o câmbio.

Broadcast: Por que o câmbio não reagiu? Tem a ver só com o retorno elevado nas operações de arbitragem?
Kawauti:
Tem, mas também está ligado à rotação geográfica de portfólio e ao fato de o dólar estar perdendo valor no mundo todo, ainda que continue sendo a moeda principal. Isso se intensificou quando Trump assumiu em 2018, e depois em 2022, quando teve a guerra da Ucrânia, quando o dólar foi usado como uma arma de guerra por meio das sanções. O mundo começa a pensar: preciso de alternativas. Quando Trump assumiu em 2025, a incerteza toda do mundo veio dos Estados Unidos. E o Federal Reserve já tinha começado a cortar um pouco os juros em 2024. Havia mais incerteza e menos rendimento. O investidor olha para um lado, para o outro, e vê no Brasil 15% de juros, upside de bolsa e um mercado emergente que é maduro. Quando compara com outros emergentes, geograficamente estávamos longe do problema da Rússia, do Leste Europeu. E os cortes da Selic iam sendo adiados. O Banco Central foi bastante técnico. O real ficou mais ou menos estável por conta desse fluxo que continua entrando. Não é só carry trade.

Broadcast: Qual é a previsão para a taxa de câmbio ao fim de 2026?
Kawauti:
É de R$ 5,40 por dólar. O risco à projeção é a volatilidade eleitoral. A depender da volatilidade das eleições, se houver algum tipo de risco de ruptura, o câmbio pode mexer um pouco mais.

Broadcast: Há risco de desancoragem das expectativas de inflação? Como é que você vê a questão da ancoragem?
Kawauti:
Para ancoragem gosto de olhar mais 2027. Se o Focus trouxer 4,5% em 2026, mas 2027 e 2028 com um aumento discreto ou com a mesma trajetória, não se considera desancoragem. Se 2027 e 2028 começarem a subir, aí sim é uma desancoragem adicional de expectativas. As expectativas não estão ancoradas onde o Banco Central gostaria. O mercado coloca em 3,5%, o ideal seria em 3%. Mas, dado o histórico brasileiro, parece confortável o suficiente para o BC baixar juros. Mas existe esse risco de desancoragem, sim, se houver os efeitos de segunda ordem sobre os preços de serviços, se a inflação se espalhar para o resto da economia.

Broadcast: Qual a sua avaliação sobre o comportamento da inflação de serviços?
Kawauti:
É a que chamamos de inflação teimosa. Existe uma questão inercial. O mercado de trabalho está muito forte. O copo meio vazio é: temos uma inflação de serviços rodando a 6% desde agosto do ano passado. É incômoda. O copo meio cheio é: ela está rodando a 6%, não está piorando. Mas é um limitador importante à queda de juros.

Broadcast: A inflação de serviços pode ficar abaixo de 5% ao ano?
Kawauti:
Já tivemos isso, mas depende de o mercado de trabalho esfriar. Há impulso de demanda, impulso fiscal, e existe uma mudança estrutural importante, a uberização do trabalho. Antigamente a pessoa perdia o emprego e procurava emprego. Hoje há opções para a pessoa que fica desempregada. Há saídas para fazer dinheiro que ajudam a manter o mercado de trabalho superaquecido. Por isso a inflação de serviços deve demorar um pouco mais para chegar a 5%.

Broadcast: A economia está efetivamente desacelerando para permitir isso ou estabilizou num nível elevado de atividade?
Kawauti:
A economia está esfriando, mas não está fria. O Caged mostrou que fevereiro foi o nono mês consecutivo em que a média móvel de geração de vagas em 12 meses desacelerou. A velocidade de crescimento do mercado de trabalho está menor, mas o mercado continua crescendo. Na Pnad Contínua, o desemprego no trimestre até fevereiro subiu a 5,8%, mas com ajuste pela sazonalidade foi o menor desemprego para fevereiro na série histórica. Isso quer dizer que ainda tem efeito de política monetária para afetar a economia. Alguns indicadores mostraram uma melhora da atividade – o IBC-Br, e vemos indicadores proprietários de grandes bancos também indicando alguma volta. Se houver uma interrupção da desaceleração, é mais uma pulguinha para olhar a inflação de serviços.

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