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7 de julho de 2026
Por Isadora Duarte
Brasília, 06/07/2026 – O primeiro dia da audiência pública promovida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) sobre a investigação de supostas práticas desleais adotadas no comércio brasileiro transcorreu em “clima ameno”, de acordo com empresários brasileiros e entidades que representam o agronegócio brasileiro. Interlocutores presentes ao longo dos sete painéis do dia, ouvidos Broadcast Agro, classificaram o debate como “técnico”, distante de acusações e de interpelações políticas.
Fontes avaliam que o debate entre os representantes americanos e brasileiros foi mais “equilibrado” quando comparado com a primeira audiência realizada em 3 de setembro do ano passado. As cadeias produtivas estão sendo analisadas individualmente, segundo as fontes. As perguntas, feitas por autoridades sêniores do governo americano, dos departamentos de Agricultura, Tesouro, Trabalho, Saúde e Bem-Estar, eram técnicas e voltadas aos aspectos de competitividade, da agregação de valor para a indústria dos Estados Unidos e dos impactos das exportações brasileiras aos preços ao consumidor americano, relatam as fontes.
A audiência desta segunda-feira durou cerca de sete horas, de acordo com as fontes, incluindo os pronunciamentos dos inscritos e perguntas feitas por representantes do governo americano. “As perguntas foram mais técnicas e aprofundadas. Foi um debate sério. O clima mudou, está muito diferente de 3 de setembro, menos tenso e a régua do debate mais elevada”, afirmou outro interlocutor.
Os EUA acusam o Brasil de adotar práticas ilegais em comércio digital, serviços de pagamento eletrônico – como o PIX -, tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal. A audiência integra as etapas finais da investigação feita pelo governo americano.
A investigação é conduzida pelo USTR, que deverá publicar o resultado final da apuração após as consultas públicas. No relatório preliminar, divulgado em 1º de junho, o USTR sugeriu a aplicação de sobretaxa de 25% sobre os produtos importados brasileiros, com exceção a grande parte dos produtos agropecuários. A consulta pública será retomada amanhã (7) às 10h, no horário local de Washington. A audiência é vista pelos setores como a oportunidade de ampliar a lista de exceções e evitarem a aplicação da nova sobretaxa.
De modo geral, os representantes do setor privado americano defenderam a necessidade da importação de produtos agropecuários do Brasil, principalmente nos mercados nos quais os Estados Unidos não são autossuficientes ou não cultivam em virtude de recursos naturais, caso do café, relatam as fontes. As perguntas feitas pelo governo americano abordavam também a real importância do comércio de determinados itens à estabilidade, suprimento à indústria americana e quanto ao abastecimento ao consumidor dos EUA. “A narrativa mudou. Há um entendimento maior da relação da importação de produtos brasileiros com agregação de valor pela indústria e para a estabilidade de preço para o consumidor”, pontuou uma das fontes. Não houve questionamentos sobre sustentabilidade, qualidade e sanidade dos alimentos brasileiros, diferentemente da audiência de setembro, observam as fontes.
Na análise do Diretor de Relações Governamentais e Comércio Internacional na BMJ Consultoria, José Pimenta, os debates estavam concentrados cadeia a cadeia. “Havia uma preocupação forte e muito comercial com o suprimento e impactos para cada cadeia”, disse. Ele representou a Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel (Abics).
Também houve críticas às exportações do agronegócio brasileiro pelos produtores locais, sobretudo nos segmento de pecuária e etanol, segundo as fontes. “São setores mais protecionistas e reforçaram os tons críticos de ataque sobre o impacto negativo da importação de produtos agropecuários brasileiros para os produtores locais. São setores que querem impedir a entrada de produtos brasileiros por falta de competitividade”, apontou outro painelista. Entretanto, alguns representantes americanos se esquivaram de responder as perguntas pelas autoridades governamentais sobre a capacidade de autossuficiência das cadeias e de capacidade de importar os produtos de outros mercados em caso de desarranjo da cadeia de suprimento em virtude do tarifaço, de acordo com fontes. “Ficou claro que uma nova tarifa seria prejudicial aos próprios consumidores americanos e que não há substitutos em escala e qualidade para os produtos brasileiros”, observou um dos defensores do agronegócio brasileiro.
Em contrapartida, as entidades que representaram o setor produtivo brasileiro destacaram a conformidade trabalhista da produção brasileira, a complementaridade produtiva e comercial entre a produção do Brasil e dos Estados Unidos. “Enaltecemos como os produtos agropecuários brasileiros são fundamentais ao consumidor brasileiro e, se forem, sobretaxados vão encarecer a vida do consumidor americano”, apontou uma fonte.
Entre os argumentos, o setor também argumentou que os acordos firmados pelo Brasil com México e Índia não reduziram o acesso aos Estados Unidos no âmbito do tratamento preferencial. Quanto ao etanol, as entidades argumentaram que o mercado brasileiro permanece aberto e as alíquotas são válidas a todos fornecedores fora do Mercosul. No tema do desmatamento ilegal, entidades do agronegócio defenderão que são contrárias ao ilegal, que prejudica a reputação e não é praticado pelos produtores rurais. Outro tema aventado foi o impacto negativo aos Estados Unidos de um eventual novo tarifaço sobre os produtos brasileiros.
Pelo lado brasileiro, neste primeiro dia da audiência participaram representantes da Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz), a Sociedade Rural Brasileira (SRB), a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o Conselho de Exportadores de Café (Cecafé), a Associação Brasileira da Indústria do Café Solúvel (Abics), a união Nacional do Etanol de Milho (Unem), a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), a Associação Brasileira de Exportadores de Mel (Abepemel). Pelo lado americano, as contrapartes das entidades do agronegócio representaram o setor privado, bem como a Câmara de Comércio dos Estados Unidos. As mesmas entidades participaram da audiência de 3 de setembro.
Contato: isadora.duarte@estadao.com P
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