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3 de julho de 2026
Por Carolina Marins, do Estadão
São Paulo, 03/07/2026 – Félix Tovar, 70 anos, ia viajar nos dias seguintes para encontrar no Chile a filha que não via há 10 anos. Estava hospedado na cidade litorânea de La Guaira, na Venezuela, para ficar mais perto do aeroporto, quando aconteceram os terremotos. Mais de uma semana depois, seu filho Daniel Medina 28 anos, que vive no Brasil, tenta mobilizar ajuda para localizar o pai nos escombros.
Félix se mudou para o Brasil há quase 20 anos e tinha residência permanente no país. Decidiu retornar à Venezuela em abril, esperançoso com a possibilidade de melhora econômica no país após a retirada de Nicolás Maduro do poder pelos Estados Unidos.
“Ele se viu se viu bastante afetado pelos últimos anos de crise econômica na Venezuela”, conta Daniel ao Estadão. “O que ele estava planejando fazer era justamente poder trabalhar nos negócios dele lá”. O venezuelano tinha uma empresa de comércio exterior.
O empresário já estava com a viagem marcada para o Chile e ia se encontrar com a filha Elibel, 38 anos, a quem não via há quase uma década. Ele se hospedou em uma pousada em La Guaira, cidade onde a família já morou e cultiva um laço afetivo, para passar uns dias antes da viagem. O principal aeroporto internacional do país fica ali perto.
Na noite do terremoto, Félix saiu para comer algo em uma padaria ali perto. Possivelmente, diz Daniel, também procurava um lugar para assistir ao jogo da seleção brasileira pela Copa do Mundo, que ocorreu quase ao mesmo tempo que o terremoto. Isso é o que a família soube de pessoas que o viram pela última vez, pois o contato com o venezuelano cessou desde então.
“Nesse dia a gente sabia que ele estava na pousada e o que a gente ouviu do dono da pousada é que umas 5:45 da tarde meu pai saiu para comer numa padaria que chama La Almendrina, que fica ali do lado da pousada nesse setor de Praia Grande, que inclusive foi um dos mais afetados pelo terremoto”, conta o filho brasileiro-venezuelano.
A última localização de seu celular aponta para as proximidades do hotel Marriott, que ficava ao lado da padaria. “Estamos direcionando as buscas para lá”.
As buscas, contudo, têm sido difíceis pela falta de equipes de resgate e material adequado.
As buscas têm sido feitas de forma muito improvisadas, pelas próprias famílias organizadas com voluntários de resgate, muitos deles que não tem necessariamente o treinamento para fazer esse tipo de operação e que precisam de muitos equipamentos de certa complexidade para conseguir levantar os escombros. E isso faz com que o processo seja mais sofrido, mais demorado e muito mais desgastante, tanto para os voluntários quanto para as famílias.
Daniel se mobiliza aqui do Brasil para pedir por ajuda enquanto sua irmã viajou do Chile para a Venezuela para acompanhar as buscas no local. Desde que o caso ganhou projeção, primeiro pela Folha de S. Paulo, ele diz que a mobilização aumentou.
“Nesses últimos dias, a mobilização por ajuda tem tido efeito. Contamos muito com a solidariedade das pessoas. Às vezes falta até água para tomar banho, para ir no banheiro. Temos conseguido mobilizar com o apoio das outras pessoas e recebemos, inclusive, contato do governo brasileiro após a repercussão para tentar fazer alguma coisa”, relata.
Ao Estadão/Broadcast Político, o Ministério de Relações Exteriores não comentou diretamente o caso, apenas instruiu buscar o governo venezuelano para obter mais informações.
Por parte do governo interino de Delcy Rodríguez, Daniel diz que até o momento não soube de esforços de ajuda. Missões humanitárias da Espanha e da Costa Rica auxiliaram a família e outras vítimas no local, conta.
Mais de 2500 pessoas morreram nos terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho, segundo o último balanço do governo venezuelano. Estimativas dos EUA, porém, apontam que este número pode estar na casa das dezenas e até centenas de milhares. A ONU estima que 50 mil pessoas estão desaparecidas.
O país foi afetado por dois terremotos gêmeos, um de 7,2 e outro de 7,5 de magnitude, que causaram uma destruição generalizada no estado de La Guaira e também afetaram Caracas. O governo estima que cerca de 200 prédios tenham desabado completamente. Segundo estimativas da Nasa, 58 mil edificações podem ter sido afetadas.
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