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Por Saftec Digital
3 de julho de 2026

O Brasil bate recordes de exportação de mármores, granitos e quartzitos, mas cada chapa produzida deixa para trás lama e cacos que ainda terminam, na maior parte, em aterros. Para o diretor administrativo da Agiliza Marmoraria, o resíduo da pedra é um problema com solução conhecida e adoção lenta.
O setor brasileiro de rochas ornamentais vive seu melhor momento comercial, com exportações recordes e o quartzito nacional disputado pelo mercado de luxo internacional. Há, porém, uma conta que não aparece nas estatísticas de embarque. Da pedreira à bancada instalada, cada etapa da cadeia deixa resíduos pelo caminho: blocos descartados na extração, a lama gerada na serragem das chapas e os cacos e aparas do corte final nas marmorarias. O destino mais comum desse material, segundo órgãos ambientais, ainda são os aterros de resíduos industriais, uma solução que enterra, junto com o rejeito, qualquer chance de aproveitamento futuro.
O problema tem uma característica que o diferencia de outros passivos industriais: a pedra não se decompõe. Diohn do Prado, diretor administrativo da Agiliza Marmoraria, no Paraná, lida com essa sobra todos os dias. “Pedra não apodrece nem vira fumaça. Tudo o que entra na marmoraria e não sai como produto fica no pátio. A pergunta que todo gestor do setor carrega é o que fazer com isso”, define. A resposta existe, e passa pela economia circular. O que falta, como em boa parte da agenda ambiental brasileira, é a ponte entre a solução conhecida e a prática cotidiana.
O que sobra quando a pedra vira produto?
A cadeia da rocha ornamental gera dois tipos principais de resíduo. O primeiro é sólido: casqueiros e blocos sem aproveitamento na pedreira, cacos e aparas nas serrarias e marmorarias. O segundo é a chamada lama de beneficiamento, mistura de pó de rocha e água que resulta da serragem e do polimento das chapas, conhecida no setor pela sigla LBRO. Estudos técnicos apontam que esse material, quando descartado sem tratamento, pode contaminar solos e cursos d’água.
O peso do problema se distribui de forma desigual pela cadeia. Grandes serrarias, concentradas no Espírito Santo, têm escala e capital para investir em filtros-prensa e centrais de tratamento. Já o elo final, formado por milhares de marmorarias de pequeno porte espalhadas pelo país, enfrenta o resíduo com estrutura mínima. Pesquisas sobre o setor apontam o baixo investimento em tecnologia das pequenas e médias empresas como um dos gargalos centrais da gestão de resíduos. Para essas empresas, o descarte correto é um custo recorrente de frete e taxas de aterro, sem retorno algum.
A distância entre a lei e o pátio da empresa
Desde 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos obriga as empresas a dar destinação ambientalmente adequada ao que produzem de rejeito, com responsabilidade compartilhada ao longo da cadeia. No papel, o arcabouço existe. Na prática, a fiscalização desigual e a falta de alternativas locais de reaproveitamento empurram o resíduo da rocha para o caminho mais simples, o aterro, ou, nos piores casos, para o descarte irregular. O padrão se repete em outros setores, mas na rocha ele tem um agravante econômico: o material enterrado tem valor.
É essa a mudança de olhar que a economia circular propõe. O caco de granito e a lama de mármore não são lixo, são matéria-prima fora do lugar. “O resíduo que vai para o aterro custa duas vezes: o frete para tirar do pátio e a taxa para enterrar. Quando vira piso, brita ou artefato, ele para de custar e começa a valer”, afirma Diohn Prado. O raciocínio que ele descreve é o argumento central de quem defende a economia circular no setor: o material que hoje é despesa pode virar receita, desde que exista estrutura para transformá-lo.
As rotas que já transformam rejeito em produto
O que acontece com as sobras de mármore e granito quando há reaproveitamento? As rotas já mapeadas pela pesquisa e pela indústria são variadas. Os cacos triturados viram brita para pátios, jardins e base de estradas. O pó e a lama entram na composição de artefatos de concreto, pisos intertravados, lajotas e argamassas, agregando resistência ao material. Aparas maiores se transformam em soleiras, tampos, mosaicos e peças de decoração. Há até pesquisa do Instituto Nacional de Tecnologia para o uso do resíduo de granito e mármore na fabricação de vidro, que aproveita os óxidos presentes na composição da rocha.
Algumas experiências coletivas mostram o caminho em escala. No noroeste do Espírito Santo, uma associação que reúne dezenas de serrarias comprou um terreno para destinar os resíduos da região e acabou transformando o espaço em um complexo de reaproveitamento, com projetos que vão de pré-moldados de concreto a uma escola de artesanato feita com sobras de rocha, cuja produção é doada. O caso ilustra o que a literatura sobre economia circular repete: a solução individual raramente fecha a conta para o pequeno negócio, mas a solução coletiva, organizada por região ou por polo produtivo, muda a conta do resíduo.
O teste de maturidade de um setor em alta
A discussão chega em boa hora. O momento de recordes do setor amplia a produção e, com ela, o volume de rejeito, ao mesmo tempo em que o mercado internacional passa a cobrar credenciais ambientais de quem fornece. A rocha ornamental carrega ainda uma particularidade que torna o desperdício mais grave: é um recurso natural não renovável. Cada jazida tem fim, e cada tonelada extraída que termina em aterro é uma fração desse patrimônio geológico convertida em passivo, não em produto.
Para as milhares de pequenas empresas que formam a base do setor, a transição depende de três coisas: tecnologia acessível de tratamento, logística regional de coleta e um mercado comprador para os produtos do reaproveitamento. Nenhuma delas se constrói sozinha, e é nesse ponto que o tema deixa de ser setorial e vira questão de política pública, envolvendo licenciamento, incentivo e articulação local. A experiência de quem trabalha com isso todos os dias, como Diohn do Prado, indica que a disposição existe onde a conta fecha. O desafio do país é fazer a conta fechar em mais lugares.
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