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4 de julho de 2026
Artigo de: Tatiana Pinheiro
Passados o comunicado, a ata da última decisão de juros e o Relatório de Política Monetária, vale uma reflexão, à luz da literatura sobre metas de inflação, sobre qual deve ser o horizonte relevante da política monetária. Sob essa perspectiva, a literatura de Lars Svensson, Frederic Mishkin e Ben Bernanke sustenta que alongar o horizonte de convergência não é, por si só, sinal de leniência. Desde que seja transparente, bem comunicado e consistente com as defasagens da política monetária e com a natureza dos choques enfrentados pela economia, esse alongamento pode fazer parte da condução ótima da política monetária.
Nesse contexto, a discussão recente no Brasil deve ser entendida à luz dos choques que atingem a economia. Seja o diagnóstico de choques de oferta, com a recente alta do petróleo, ou de múltiplos choques, de oferta e demanda – petróleo, El Niño e expansão fiscal -, ambos podem justificar a flexibilização do horizonte relevante.
O ponto central: não é abandono da meta de inflação nem dominância fiscal. A questão é reconhecer que diferentes choques interagem, podendo amplificar ou reduzir seus efeitos sobre inflação e atividade econômica. Nessas circunstâncias, o horizonte relevante deixa de ser um parâmetro fixo e passa a depender das defasagens da política monetária, da persistência e da interação entre os choques, com o objetivo de minimizar os custos sobre a economia.
Svensson (1999) mostrou que a política monetária deve responder à inflação projetada, e não à inflação corrente, em razão das defasagens da transmissão monetária. Mishkin (2000) transformou o arcabouço de metas de inflação em um modelo operacional para bancos centrais, enfatizando que o horizonte relevante deve refletir essas defasagens e ser claramente comunicado para preservar a credibilidade da autoridade monetária. Bernanke, Laubach, Mishkin e Posen (1999) consolidaram essa visão ao mostrar que o regime de metas constitui uma estratégia de política monetária na qual a velocidade de convergência deve equilibrar estabilidade de preços e custos sobre produto e emprego.
Por fim, Akram (2007) mostrou que não existe horizonte ótimo universal e que, diante de múltiplos choques, ele depende da natureza, da persistência e da interação entre eles. E, principalmente, economias sujeitas a choques mais persistentes e com mecanismos de estabilização relativamente mais lentos – exemplo: expectativas desancoradas, desequilíbrio fiscal, alta inércia inflacionária – tendem a demandar horizontes de convergência mais longos.
Essa evolução também pode ser observada na prática dos principais bancos centrais que operam sob regime de metas de inflação. Na década de 1990, era comum a utilização de horizontes relativamente explícitos, normalmente próximos de dois anos. Com o amadurecimento do sistema, alguns bancos centrais continuam explicitando horizontes quantitativos, enquanto outros optam por formulações qualitativas.
Hoje, o Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra, o Banco da Nova Zelândia e o Banco da Austrália preferem formulações como “médio prazo” ou “ao longo do tempo”. Já o Banco do México não estabelece um horizonte fixo, preferindo comunicar a trajetória esperada de convergência da inflação em seus relatórios. Entre aqueles que explicitam horizontes quantitativos, o Banco do Canadá trabalha, em condições normais, com horizonte de seis a oito trimestres; o Banco Nacional da República Checa utiliza doze a dezoito meses, horizonte que foi temporariamente alongado durante o choque inflacionário de 2022; o Banco Central do Chile adota aproximadamente dois anos; o Banco da República da Colômbia utiliza doze a dezoito meses; e o Banco Central do Brasil adota oficialmente dezoito meses.
A principal lição da literatura e da experiência internacional não é sobre horizonte adequado, mas sobre comunicação. A credibilidade e o sucesso de um regime de metas de inflação não dependem de um horizonte rígido, e sim da coerência entre o horizonte adotado, a natureza dos choques, as defasagens da política monetária e uma comunicação clara da estratégia da autoridade monetária.
Tatiana Pinheiro é pesquisadora da FGV-EESP e consultora econômica, escreve artigos para o Broadcast quinzenalmente, às sextas-feiras. Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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