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De pirâmide a cogumelo: a mudança prevista do gráfico demográfico brasileiro

6 de julho de 2026

Por Fabiana Holtz, do Viva

São Paulo, 06/07/2026 – Com o Brasil ultrapassando recentemente a marca histórica de 62 milhões de pessoas com idade acima de 50 anos, estudos já começam a apontar caminhos para se enfrentar o impacto da longevidade na economia. Segundo Eduardo de Rezende Francisco, professor e pesquisador principal do centro de estudos FGVanalytics, da Fundação Getulio Vargas (FGV), demograficamente, o gráfico etário da população brasileira já deixou de ter o formato de uma pirâmide a muito tempo.

“Hoje, ele tem um formato de barril e a tendência é que se transforme mais em um formato de cogumelo”, observa.

A leitura desse gráfico, continua ele, nos mostra que as populações em idades mais avançadas, de 40, 50, 60 ou mais, estão ocupando um protagonismo maior na economia e essa estrutura vai alterar a base de sustentação do crescimento – com menos jovens entrando no mercado de trabalho e mais pessoas demandando renda, cuidado, saúde e proteção social de maneira geral.

Vemos ao mesmo tempo a população idosa ocupando um papel econômico cada vez mais essencial, sendo responsável por uma parcela relevante da renda dos lares, do consumo, do trabalho e do apoio familiar.

Protagonismo prateado

De acordo com Francisco, existe um grande potencial de mercado da economia prateada que ainda é pouco explorado.

“Acredito que o ponto de partida é reconhecer que a longevidade deixou de ser uma agenda setorial. Normalmente quando pensamos em longevidade, o debate já vem atrelado ao paradigma da saúde ou da previdência como grandes vetores”, observa o especialista. A questão, porém, é bem mais complexa.

Segundo Eduardo Francisco, que participou do “Projeto Longevidade e Economia brasileira”, relatório lançado em agosto do ano passado pela Escola de Administração de Empresas de São Paulo da FGV (EAESP-FGV) a pedido do Instituto Itaú Viver Mais, a longevidade precisa começar a ser tratada dentro de uma agenda de desenvolvimento.

Para que isso aconteça, explica o pesquisador da FGV, é preciso que haja uma coordenação entre previdência, saúde, assistência social, moradia, mobilidade urbana, educação, além do mercado de trabalho, tecnologia, hábitos e comportamentos ligados a finanças. E tudo isso precisa envolver o setor financeiro de forma protagonista, acrescenta.

No curto prazo, de acordo com o estudo, é preciso fazer um diagnóstico territorial mais preciso da população 60+, pois aquele estigma de que esse grupo é formado por aposentados inativos já não se aplica a muito tempo.

A partir desse diagnóstico, aponta o pesquisador, é preciso começar a preparar as famílias e as instituições para uma sociedade que será muito mais multigeracional do que já é efetivamente.

“Creio que o efeito desse cenário sobre o crescimento dependerá da capacidade do País transformar longevidade em produtividade e inclusão, novos serviços e novos mercados”, conclui.

Embora movimente mais de R$ 2 trilhões por ano em consumo, especialistas reconhecem que a população 60+ ainda enfrenta barreiras de visibilidade.

Endividamento e Previdência

Diante desse contexto, o especialista avalia ser urgente pensar em soluções para a sustentabilidade previdenciária. Segundo Francisco, não dá para continuar olhando para sempre para essa questão como um problema a ser resolvido no futuro. A questão precisa ser atacada de forma integrada, começando pelo estímulo à poupança, que é algo que deve ser sempre revisto, bem como a construção de patrimônio da população ao longo da vida.

O enfrentamento ao superendividamento da população, de acordo com o especialista da FGV, principalmente entre a população idosa mais vulnerável, também precisa ser mais consistente.

Embora seja possível identificar alguns exemplos interessantes no País, o estudo aponta que as cidades de maneira geral ainda não estão preparadas para sustentar essa população idosa por mais tempo e com uma predominância cada vez maior. “E isso esbarra também em políticas de saúde preventiva, que precisam ser revisitadas o tempo todo”, afirma Francisco.

Para Antônio Leitão, gerente institucional do Instituto de Longevidade MAG, é possível identificar os pontos de transformação na sociedade e o governo está se movimentando para acompanhar. “Temos uma pauta de previdência social, do mercado de trabalho, de saúde e de desenvolvimento econômico de uma maneira geral”, pondera. Na visão de Leitão, a discussão da longevidade e do envelhecimento da população é transversal a cada uma dessas pautas, mas é preciso analisar o cenário como um todo para poder propor soluções que sejam efetivas.

As projeções demográficas apontam para uma reorganização estrutural da economia como um todo e os dois especialistas procuram evitar o fatalismo sobre o futuro. “É preciso olhar a longevidade em todas as suas dimensões e não apenas como um custo fiscal”, destaca Francisco.

Leitão entende que o Brasil na medida do possível tem se preparado para esse ambiente mais desafiador. “Acabamos de estabelecer, no final de 2024, uma política nacional de cuidados que é um tema absolutamente crucial em uma sociedade mais envelhecida. O cuidado é um tema de política pública que atravessa a questão do trabalho, da saúde, da assistência social. Enfim, é uma pauta extremamente relevante e que está sendo endereçada”, defende.

Envelhecer heterogêneo

Envelhecer no Brasil não é homogêneo, observa o especialista. E essa heterogeneidade esbarra em gênero. “A população feminina vive mais, por uma questão fisiológica, biológica, mas também por uma questão de comportamento, e acabam tomando a frente no que diz respeito a finanças pessoais”, reconhece.

Ao combinar dados de renda, escolaridade, idade, gênero, acesso à saúde e território, o estudo revela que a população brasileira como um todo já é economicamente afetada por essa nova realidade, em especial, os idosos.

“Eu diria que o Brasil se prepara para ganhar fôlego do ponto de vista estrutural, através de setores ligados à economia prateada. Saúde, cuidado, bem-estar, moradia adaptada, tecnologia assistida, telemedicina, serviços financeiros, enfim, há uma série de domínios que devemos estimular relacionados a essa população com característica gradativa de maior impacto econômico”, aponta Leitão.

Do ponto de vista econômico, também é possível estimular o crescimento através de incentivos ao turismo, lazer, alimentação saudável, seguros e soluções específicas de mobilidade para esse público, acrescenta Francisco. No caso dos modelos tradicionais de previdência e de saúde suplementar, talvez sejam necessárias adaptações para esses públicos – de acordo com a faixa etária.

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