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6 de julho de 2026
Artigo de: Fernando Veloso

A incerteza em relação à política econômica tem vários custos econômicos. Na presença de incerteza elevada, as empresas postergam investimentos e contratações, o que afeta negativamente a atividade econômica. Em várias circunstâncias, o impacto se torna permanente, quando empresários decidem cancelar projetos ou fechar unidades produtivas.
Diante da sua importância macroeconômica, vários pesquisadores buscam mensurar o grau de incerteza em relação à política econômica. O indicador mais conhecido é o Economic Policy Uncertainty (EPU), desenvolvido por Nicholas Bloom, Scott Baker e Steven Davis, que é baseado na frequência de notícias sobre incerteza de política econômica publicadas em jornais.
O EPU aumentou significativamente durante episódios como a crise financeira global de 2008, a pandemia de Covid em 2020 e a guerra comercial desencadeada pelo governo Trump. Além dos Estados Unidos, o EPU é calculado para várias economias avançadas e emergentes, incluindo o Brasil.
Embora os economistas tenham investigado os efeitos negativos da incerteza, muito menos atenção tem sido dedicada a um de seus determinantes mais importantes: a confiança nas estatísticas oficiais.
Estatísticas confiáveis são valiosas por vários motivos, mas um dos principais é a redução da incerteza. Quando os dados de inflação e emprego são mensurados de forma transparente e bem fundamentados tecnicamente, as empresas podem investir com mais confiança e os consumidores podem tomar decisões de longo prazo com maior segurança. Os formuladores de políticas, por sua vez, podem calibrar as políticas fiscal e monetária com maior eficácia.
Esse valor das estatísticas oficiais é difícil de mensurar diretamente devido às suas características de bem público, abrangendo toda a economia de forma difusa. No entanto, é possível utilizar uma abordagem indireta, examinando como episódios de perda de confiança afetam o grau de incerteza e como este, por sua vez, afeta a atividade econômica.
Um estudo recente de Nicholas Bloom e outros pesquisadores (“The Value of Reliable Statistics”) utilizou essa abordagem para estimar os efeitos no PIB decorrentes da demissão do diretor do Bureau of Labor Statistics (BLS) em agosto de 2025. O BLS produz muitos indicadores que embasam a tomada de decisões econômicas nos Estados Unidos, como a taxa de desemprego, dados de contratações e salários, além do Índice de Preços ao Consumidor. Esses dados influenciam a política monetária, o mercado financeiro, negociações salariais e decisões de investimento do setor privado.
Após a demissão do diretor do BLS em 1º de agosto de 2025, o índice EPU registrou um aumento superior a 50% na semana seguinte. No entanto, nem todo esse aumento pode ser atribuído exclusivamente a preocupações com a credibilidade estatística decorrentes da demissão, já que outros episódios ocorreram no mesmo dia, incluindo revisões significativas para baixo nos dados de emprego e o anúncio do pedido de demissão da diretora do Federal Reserve, Adriana Kugler.
Para isolar a parcela associada à redução da confiança nas estatísticas oficiais, os autores ajustaram a estimativa utilizando menções na mídia especificamente vinculadas à controvérsia do BLS e às revisões dos dados de emprego. Com essa abordagem mais conservadora, Bloom e coautores estimam que a erosão da confiança nos dados do BLS elevou o EPU em aproximadamente 9%.
Em seguida, os autores combinaram o aumento do indicador de incerteza com estimativas da literatura acadêmica sobre seu efeito na atividade econômica. Os resultados sugerem que a queda da confiança nos dados do BLS pode ter reduzido o PIB em cerca de US$ 20 bilhões.
Essa estimativa provavelmente subestima os custos econômicos da perda de confiança, já que não captura outros canais através dos quais a perda de confiança nas estatísticas oficiais afeta o PIB. Dentre eles, podem ser mencionados a piora na mensuração da produtividade do trabalho e no ajuste entre oferta e demanda por trabalho, com perdas de eficiência no funcionamento da economia.
Embora o estudo seja referente aos Estados Unidos, suas lições são muito relevantes para o Brasil. Os sucessivos artifícios utilizados pelo governo e pelo Congresso para excluir despesas das estatísticas de resultado primário e dos gastos contabilizados no arcabouço fiscal causam danos econômicos qualitativamente semelhantes, e possivelmente ainda maiores sob o ponto de vista quantitativo.
Fernando Veloso é Diretor de Pesquisa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social – Imds.
Os artigos publicados na Broadcast expressam as opiniões e visões de seus autores.
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