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Vídeo ‘calculado’ mostra ambição política de Michelle e naufrágio de Flávio, dizem analistas

25 de junho de 2026

Por Geovani Bucci e Lavínia Kaucz

São Paulo e Brasília, 25/06/2026 – O vídeo em que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) critica diretamente o enteado e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), evidencia uma ambição política própria, na avaliação de analistas ouvidos pelo Broadcast Político. Para eles, a gravação vai além de uma manifestação pessoal e foi cuidadosamente construída como gesto político, com edição elaborada e palavras calculadas.

De acordo com o cientista político e professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) Eduardo Grin, Michelle tem consciência de sua influência sobre um público cativo no meio evangélico, sobretudo entre as mulheres. Para ele, seria ingênuo tratar o vídeo apenas como uma manifestação pessoal.

“Ela já percebeu que Flávio Bolsonaro naufragou como candidato e que alguém terá de disputar esse espaço. Ela já começa a se posicionar”, afirma Grin. “Ao fazer isso, me parece que ela sinaliza o seguinte: prefere que Flávio perca e passa a disputar o espólio político dele, porque ele não deve vencer. A candidatura já estava bastante prejudicada e, com essa denúncia, tende a ficar ainda mais.”

O desgaste de Flávio teve início em meados de maio, após a revelação de que ele havia pedido financiamento ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Master e preso por acusações de fraude bancária, para uma superprodução cinematográfica biográfica sobre Jair Bolsonaro, intitulada Dark Horse. Desde então, o filho do ex-presidente viu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliar a vantagem nas pesquisas de intenção de voto.

Na noite da última quarta-feira, 24, Michelle publicou um vídeo nas redes sociais no qual relatou ter sido “humilhada” pelo enteado. “Ele foi muito ríspido, me desrespeitou e me maltratou ao telefone. E eu não tinha feito nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política”, afirmou.

Em resposta, Flávio publicou uma carta aberta ainda na noite de ontem, na qual pede desculpas e afirma que “nunca” desrespeitou, maltratou ou humilhou uma mulher: “Jamais o faria com a esposa do meu próprio pai”.

O conflito público entre a ex-primeira-dama e o enteado começou em dezembro do ano passado, quando Michelle criticou publicamente a decisão do diretório cearense do PL de apoiar a candidatura do ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) ao governo do Estado. Ela disse não aceitar uma aliança com “um homem que é contra o maior líder da direita”, referindo-se ao marido, Jair Bolsonaro. Na ocasião, Flávio reagiu nas redes sociais e acusou a madrasta de atropelar a vontade do pai.

De acordo com os analistas, o vídeo pode ter impacto na campanha de Flávio à Presidência, especialmente entre as mulheres. Historicamente mais resistentes ao bolsonarismo, elas representam um segmento no qual Flávio registra 53% de rejeição, segundo pesquisa Datafolha divulgada em junho de 2026.

“Provavelmente tem alguma implicação política, não só na campanha do senador, mas, mais do que tudo, para o posicionamento da Michelle. Ela sai fortalecida”, avalia Hilton Fernandes, cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

“Apesar de aparecer, ela sempre foi alguém que tinha que se submeter à vontade da família. Com o vídeo, ela deixa claro que tem um poder próprio, que consegue sair do guarda-chuva da família”, diz Fernandes.

O cientista político também observa que, no vídeo, a ex-primeira-dama fala em nome de Jair Bolsonaro e que o ex-presidente tem pouca margem para reagir publicamente, pois está proibido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de usar redes sociais.

Fernandes também destaca que o material não parece ter sido produzido por impulso. “Chama atenção que foi tudo muito bem feito: palavras bem escolhidas, cenário bem produzido”, afirma. “Dá a impressão de que vai além do cenário no Ceará”, analisa.

“Michelle é uma personagem importante no bolsonarismo. Ela ganhou muita visibilidade desde o governo de Jair Bolsonaro porque amenizava a imagem dele, que era mais agressiva, e foi muito usada na campanha de 2022. A partir dali, ela se torna uma liderança política”, lembra Fernandes.

“Essa condição de ser a pessoa que tem informações privilegiadas porque convive com ele e ouve conversas a coloca como alguém com poder dentro da estrutura do partido. Ela pode falar coisas e tem um poder que antes poderia estar mais concentrado nas mãos do Flávio.”

Contato: geovani.bucci@estadao.com; lavinia.kaucz@estadao.com

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