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Junho marca 2º mês de saída de estrangeiro da Bolsa, mas saldo do ano segue maior que o de 2025

2 de julho de 2026

Por Luísa Laval*

São Paulo, 02/07/2026 – A B3 registrou saída líquida de capital externo na Bolsa pelo segundo mês consecutivo em junho. Os estrangeiros retiraram R$ 7,785 bilhões da Bolsa, o que reduziu o saldo positivo de 2026 para R$ 33,847 bilhões, a metade do recorde de R$ 69,070 bilhões registrado em 14 de abril. Ainda assim, o montante é 26% superior ao do primeiro semestre do ano passado.

O movimento se deve tanto a fatores externos quanto internos: lá fora, as negociações em torno do fim da guerra do Irã reacenderam o interesse pelos mercados asiáticos, juntamente com a busca por ativos relacionados à tecnologia e à inteligência artificial (IA), muito mais fortes em países como a Coreia do Sul e Taiwan.

“A queda pela metade tem muito a ver com a rotação dos fluxos que passaram de ações de valor para crescimento”, avalia o estrategista-chefe do BTG Pactual, João Scandiuzzi. “As ações brasileiras são sobretudo de valor: são empresas consolidadas, pagadoras de dividendos, geradoras de lucro, sólidas, mas que não têm exatamente o mesmo apelo, por exemplo, do setor de tecnologia em termos de crescimento e de potencial de mercado”, diz.

Justamente por ter um grande peso na área de commodities, o Ibovespa recuou 1,1% em junho, também afetado pela queda de 20% do petróleo no mês, depois que o cessar-fogo firmado entre Estados Unidos e Irã aumentou a oferta da commodity com a liberação das exportações iranianas. O movimento resultou na maior perda trimestral dos preços do petróleo desde 2020.

No horizonte local, voltam as preocupações com os juros: ao contrário do otimismo dos primeiros meses do ano, quando se esperavam cortes significativos na taxa Selic, na última ata o Comitê de Política Monetária (Copom) trouxe uma visão mais hawkish (dura) e sinalizou a chance de não haver cortes na taxa de juros.

“No início do ano, tínhamos um cenário bastante claro, que era de dólar mais fraco no mundo”, aponta o head de Equities na Bradesco Asset Management, Rodrigo Geraldes. “Isso vem ali para formar uma série de motivos, mas em especial a queda de juros no mercado americano e uma preocupação constitucional. Tínhamos o Brasil com uma perspectiva de corte de juros, e o País era uma das melhores alternativas, era o mercado emergente que mais tinha corte de juros em 2026.”

Mercado descontado

Apesar da redução do ritmo, o saldo estrangeiro até junho de 2026 ainda é 26% superior ao do mesmo período do ano passado. Para o segundo semestre, o mercado ainda projeta um Ibovespa com ganhos e alguma volta de capital estrangeiro, mas dificilmente no mesmo patamar dos R$ 69 bilhões registrados em abril.

Em relatório, o Citi afirmou que o Brasil parece cada vez mais barato em relação a mercados desenvolvidos: o banco destaca que o múltiplo de 8,4 vezes o preço sobre lucro projetado do mercado brasileiro representa um dos maiores descontos para países desenvolvidos em muito tempo e avalia que, com a desescalada do conflito com o Irã, a normalização do petróleo e o espaço para o Banco Central cortar juros, a relação risco-retorno começa a ficar mais assimétrica para cima, ou seja, com tendência de alta.

Por outro lado, o mercado ainda se divide quanto à rota dos juros. “As negociações para o fim da guerra [do Irã] trazem algum alívio, mas não em termos absolutos que mudam da água para o vinho, nem aqui, nem lá fora”, pontua Scandiuzzi, do BTG. “Aqui estamos com um cenário pior, tem o El Niño, surpresas de inflação, alimentação, industriais? Uma boa pergunta é quais vão ser as condições e quando elas estarão mais maduras para uma retomada desse ciclo de afrouxamento [dos juros]. Isso na nossa visão deverá acontecer provavelmente no próximo ano.”

Há um novo fator que aparece no horizonte e gera incerteza: as eleições brasileiras de outubro. “Ninguém vai querer mostrar vontade de ajuste e vemos uma série de estímulos para a economia que também têm sustentado a atividade mesmo num patamar de juros elevado”, diz Geraldes, do Bradesco Asset. “Não acreditamos que vai chegar ao ponto de zerar o fluxo do ano. Mas também não vemos uma grande alteração a ponto de fazer com que ele volte a chegar perto do que foi no início do ano.”

Contato: luisa.laval@estadao.com

*Com a colaboração de Camila Vech, Vinícius Novais, Darlan de Azevedo

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