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Fundamentos pressionam em maio, mas minério de ferro deve se manter perto dos US$ 100

30 de junho de 2026

Por Cecília Mayrink

São Paulo, 30/06/2026 – A piora marginal dos fundamentos do mercado pesou e a tonelada do minério de ferro caiu em junho. Analistas ouvidos pela Broadcast avaliam que os preços devem seguir limitados, ao redor dos US$ 100, de olho no comportamento da economia da China.

A tonelada da commodity caiu 4,85% em junho em relação a maio no mercado futuro da bolsa de Dalian, encerrando o mês em US$ 109,95. A cotação de fechamento mais alta nesse período foi de US$ 116,25 (em 2 de junho), enquanto a mais baixa foi de US$ 107,91 (em 25 de junho). Em Cingapura, o metal teve queda mensal de 5,94%.

A pressão negativa reflete uma piora dos fundamentos especialmente do lado da demanda, com sinais claros de desaceleração chinesa, avalia a analista do BB Investimentos (BB-BI) Mary Silva. “Observa-se um ritmo mais moderado de produção e recomposição de estoques, impactando diretamente o consumo de minério”, afirma.

Os dados operacionais da siderurgia chinesa reforçam esse cenário. Segundo a analista, a produção de aço segue a tendência de queda, acompanhando o enfraquecimento do consumo, em especial no setor imobiliário, cujo ritmo de construção e vendas continua piorando.

Em paralelo, ela destaca que as exportações de aço, que vinham funcionando como importante válvula de ajuste, também perderam força, em linha com as diretrizes do governo chinês de reduzir excesso de oferta externa.

O mês também foi pressionado por expectativas de aumento das exportações dos grandes fornecedores, demanda sazonal mais fraca e margem de rentabilidade das siderúrgicas chinesas em queda, acrescenta o especialista em investimentos e negócios internacionais e sócio da B8 Partners, Beny Fard.

Assim, junho foi avaliado como o mês “mais complicado” do ano até o momento, na visão do analista de siderurgia e mineração do Itaú BBA, Daniel Sasson. Ele lembra que se aproxima uma temporada considerada sazonalmente mais fraca de consumo na China, no período correspondente ao verão, o que também já começa a impactar os preços.

Em relação à economia da gigante asiática, o Goldman Sachs, inclusive, revisou em relatório a sua previsão de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do país no segundo trimestre para 3,5%, ante 4,0%, após dados econômicos fracos de abril e maio que decepcionaram, com exceção das exportações e da produção industrial. No entanto, o banco espera que o crescimento econômico do terceiro trimestre volte a acelerar para 5,0% e mantém inalterada sua projeção de PIB para o ano cheio em 4,7%.

Nesse ambiente, a China opera 2026 em um modelo de compras cada vez mais sensível a “custo e avesso a estoque”, pontua Beny, da B8 Partners. Segundo ele, as siderúrgicas priorizam modelos de compra mais cautelosos para “não formar muito estoque”, reagindo à fraqueza persistente do setor imobiliário, que responde por cerca de 50% do consumo de aço do país, ao mesmo tempo em que buscam minério de alto teor de ferro para otimizar eficiência de alto-fornos em contexto de margens apertadas.

“Os estoques portuários de minério na China atingiram cerca de 160 milhões de toneladas, um nível recorde para esta época do ano, o que reduz a urgência de novas compras e cria um teto para qualquer rali de preço no curto prazo, mesmo que a demanda dê sinais pontuais de recuperação”, avalia Beny.

Saúde

Considerando o desempenho da commodity até aqui, contudo, Sasson, do Itaú BBA, pondera que os preços seguem “saudáveis” e que, por enquanto, é possível dizer que o minério até surpreendeu positivamente nestes primeiros seis meses.

Além disso, ele destaca que o conflito entre os Estados Unidos e o Irã, iniciado no final de fevereiro, não impactou diretamente as dinâmicas de oferta e demanda no período. “O Oriente Médio não é super relevante nem do lado de produção, nem do lado de consumo de minério de ferro ou de aço”, explica.

Os efeitos, porém, podem ser classificados como “colaterais”, na sua avaliação, diante da alta dos preços do petróleo, uma vez que impactam os custos de frete transoceânico.

No curto prazo, a XP avalia, em relatório, que os preços do minério devem permanecer limitados a uma faixa entre US$ 100 e US$ 105 por tonelada. Na visão da corretora, o suporte atual dos preços, como visto especialmente em maio, quando a commodity mostrou estabilidade, tem sido cada vez mais sustentado por pressões de custo do que por uma recuperação consistente da demanda.

Silva, do BB-BI, aponta um ambiente ainda mais desafiador para o minério, com a China mantendo sinais de demanda mais fraca e níveis elevados de estoques, enquanto a oferta continua relativamente confortável. “Isso deve limitar uma recuperação mais consistente e manter a commodity operando mais lateralizada a ligeiramente negativa”, avalia.

Ela observa ainda que a tonelada acima dos US$ 100, porém, mostra que os preços seguem ancorados tanto pelos fundamentos globais relativamente resilientes, como pelo contexto geopolítico, que elevou os custos de energia e frete.

Contato: cecilia.kuinghttons@estadao.com

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