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Entrevista: Salles sai em defesa de Michelle e diz que candidatura de Flávio é ‘frágil’

29 de junho de 2026

Por Levy Teles e Danielle Brant, do Estadão

Brasília, 29/06/2026 – Escanteado pela família Bolsonaro na formação de chapa para a disputa eleitoral em São Paulo, o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (Novo-SP) avalia como frágil a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência e vê na ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro um nome mais sólido para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Salles, deputado federal e pré-candidato ao Senado, diz que só apoiaria o filho mais velho de Jair Bolsonaro na briga pelo Palácio do Planalto no segundo turno – no primeiro, pretende subir no palanque do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema, do Novo, partido para o qual o parlamentar migrou em agosto de 2024 depois de se desfiliar do PL, de Valdemar Costa Neto.

Valdemar é alvo das principais críticas de Salles na entrevista que o deputado concedeu ao Estadão na última sexta-feira, 26. O ex-ministro chama de “pupilo de Valdemar” o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), André do Prado (PL), também apoiado por Flávio e Eduardo Bolsonaro para uma das vagas ao Senado por SP, ao lado do ex-secretário de Segurança Guilherme Derrite (PP).

“Nós sabemos quem é o Valdemar da Costa Neto (sic), aquele que foi preso no Mensalão, aquele que tem todo um histórico de um partido que já foi apoiador do PT, tem discurso dele junto com o Zé Dirceu, dizendo ‘nós da esquerda’. Ou seja, o André do Prado é o Valdemar da Costa Neto cuspido e escarrado”, afirma.

Confira os principais trechos da entrevista:

Na quarta-feira, a Michelle soltou um vídeo com críticas ao Flávio. Qual é a leitura que o senhor fez desse vídeo, qual o impacto eleitoral que ele pode ter de agora em diante?
Eu tenho grande respeito pela (ex) primeira-dama Michelle. E a Michelle teve um papel e tem ainda um papel muito importante de quebrar essa resistência, de mostrar que a direita também respeita as mulheres. A maneira com que ela escolheu de se manifestar publicamente é típica de alguém que já não aguenta mais a pressão. Esse movimento dos filhos do Bolsonaro, em especial do Carlos e do Eduardo, talvez menos do Flávio, em fomentar nas redes sociais via influenciadores ligados a eles. Esses influenciadores estão há meses, para não dizer anos, atacando a Michelle reiteradamente de uma maneira muito baixa. E ela chegou a um momento em que não aguentou. E ela, obviamente, pelo que descreveu, também teve problemas com o Flávio recentemente, de quem ela provavelmente esperaria uma atitude muito mais equilibrada e até de certa forma de repreensão aos irmãos e a esses influenciadores que têm proximidade com os irmãos de não continuar essa guerra velada ou até declarada pelas redes sociais. E ela se revoltou contra isso. Você pode até dizer que a manifestação dela é eleitoralmente ruim para candidatura da direita para derrotar Lula, e de fato não é positivo. Realmente é ruim. Mas também ela é um ser humano que chegou no limite da tolerância com esse tipo de abuso, com esse tipo de crítica, com esse tipo de atuação desleal contra ela.

O senhor sofre com esses ataques também?
Eu sofro, mas eu não ligo. Eu tenho minhas próprias posições. Eu comecei a militar na direita há 20 anos, quando fundei o movimento endireita Brasil. Eu não vim para a política junto com o Bolsonaro e nem muito menos com os filhos dele. Eu não dependo dos filhos dele para absolutamente nada. E segundo, eu respondo na mesma moeda na medida em que eu sou atacado.

Qual o grau de musculatura que a candidatura do Flávio tem? Como o eleitor vai absorver o caso Michelle e o caso dos áudios do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro?
Eu acho que é uma candidatura frágil. Eu acho, de fato, que ele vai ter muita dificuldade. A sorte dele é que, também pelo lado do PT, a coisa está muito complicada. Quer dizer, essa ligação do Jaques Wagner com Augusto Lima, e já, já, do Rui Costa, enfim, a relação também umbilical do PT com os rolos todos, mesada pro Lulinha lá do Careca do INSS e todo esse rolo que o PT está sempre metido, acaba tornando essa discussão uma coisa meio pastosa que pega todo mundo. Mas, por outro lado, esse episódio do Vorcaro subtrai da direita um pouco da capacidade de criticar e atacar. Porque você também, o pessoal falou: “Ah, e você, então você também tá envolvido”. Então, eu acho realmente que se fosse uma candidatura mais sólida seria melhor. Até a própria Michelle, na minha opinião, seria uma candidata mais sólida do que a candidatura do Flávio.

O senhor vai apoiar Flávio para presidente?
Só no segundo turno. No primeiro turno, não.

No primeiro turno vai ser Zema?
O candidato do meu partido é o Zema. O Zema terá meu voto. E se não for o Zema, não sei. Mas se o Zema não for, se o Zema eventualmente não for candidato, a gente vou considerar. Agora, contra o Lula, vou deixar isso claro, eu voto em qualquer um. Inclusive no Flávio.

Como o senhor vê a disputa pelo Senado no campo da direita em São Paulo?
Veja só, (o presidente da Alesp) André do Prado não é, nunca foi um candidato que pudesse se dizer um representante da direita. E eu tenho uma explicação para isso, não é uma opinião. Ele foi candidato com a (ex-presidente) Dilma (Rouseff) e com (Aloizio) Mercadante no passado. Foi candidato com (o ex-governador) Márcio França. Apoiou todos os governadores que passaram pelo Palácio dos Bandeirantes desde que ele virou deputado estadual, inclusive o João Dória. Ele também foi contra o (governador de São Paulo)Tarcísio (de Freitas) em 2022. Eles ficaram do lado do Rodrigo Garcia (no primeiro turno). Ele não tem nenhuma credencial para se colocar como candidato da direita. Quando vem o argumento “ah, mas ele ajudou Tarcísio enquanto era presidente da Assembleia, aprovou uma série de coisas”. Ora, esse é o DNA do Centrão. O Centrão é governo. Não importa quem seja. Se o governador de São Paulo tivesse sido o (Fernando) Haddad ou o próprio Mercadante ou qualquer outro, Márcio França, ele teria apoiado da mesma forma. Ou seja, não é nenhum mérito ele ter ajudado o Tarcísio, porque isso foi puro oportunismo do Centrão, que apoia quem tá no governo em troca de cargos, em troca de verbas, de emendas, de uma série de vantagens por estar próximo do governo, próximo ao poder.

Qual a segunda?
Ele é cria do Valdemar da Costa Neto (sic), declaradamente o preferido, pupilo do Valdemar da Costa Neto. E alguém que é pupilo do Valdemar da Costa Neto fala por si só qual é o seu DNA. A gente tem uma frase conhecida na humanidade que “o fruto não cai longe da árvore”. Nós sabemos quem é o Valdemar da Costa Neto, aquele que foi preso no Mensalão, aquele que tem todo um histórico de um partido que já foi apoiador do PT, tem discurso dele junto com o Zé Dirceu dizendo “nós da esquerda”. Ou seja, o André do Prado é o Valdemar da Costa Neto, cuspido e escarrado. Por que tem que lembrar o seguinte, o Tarcísio quando foi se candidatar em São Paulo a pedido do (ex-presidente Jair) Bolsonaro, ele falou: “Olha, eu topo ir para São Paulo me candidatar, mas não topo ir pro PL”. Por que ele não topava ir pro PL? Justamente porque ele já conhecia da época em que ele foi superintendente do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) no governo da Dilma. Ele já conhecia as peripécias do então PR, que depois foi renomeado de PL, mas as pessoas são as mesmas. E esta é a mesma razão novamente, esse perfil do Centrão. Centrão é sinônimo de corrupção, de patrimonialismo, de fisiologismo, de ausência absoluta de interesse republicano e patriótico. É só interesse financeiro, poder e dinheiro. Tarcísio novamente não aceita André do Prado como vice-governador, em que pese a pressão gigantesca que o próprio André do Prado e Valdemar fizeram sobre o Tarcísio recentemente para que ele aceitasse colocar o André como vice-governador. O que acabou acontecendo? Ele deu como prêmio de consolação para alguém que ele não quis como vice a vaga pro Senado. Acho que o André não tem experiência, não tem conhecimento, não tem a postura e nem a estatura de ser um senador pelo Estado de São Paulo. Então, por essa razão, eu não entendo que o André do Prado deveria estar disputando votos aqui com a direita ou atrapalhando a direita. Então, se há alguém que tem que ser retirado da disputa para que a direita possa aumentar suas chances de vencer as duas vagas, esse alguém é ele.

E quanto às outras candidaturas no jogo?
Guilherme Derrite foi secretário de segurança pública do Tarcísio e está concorrendo pelo PP. Pela esquerda, por sua vez, você tem duas candidatas (Simone Tebet e Marina Silva) que são absolutamente alienígenas no Estado de São Paulo. Elas não têm nenhuma relação com o nosso Estado, nunca moraram aqui, nunca estudaram aqui, não têm nenhum vínculo com o nosso Estado, não conhecem nada do Estado de São Paulo. Estão vindo aqui aos 45 do segundo tempo, de maneira absolutamente oportunista e eleitoreira. A Marina foi execrada pela política do Acre, lá ela não consegue se eleger. E a mesma coisa Simone Tebet. Ela tinha uma carreira no Mato Grosso do Sul, teve que abandonar essa carreira por inviabilidade política eleitoral. Ou seja, os eleitores do Acre, os eleitores do Mato Grosso do Sul reprovaram ambas as candidatas na sua história política naqueles estados e estão tentando vir de maneira oportunista, eleitoreira e de certa forma um estelionato eleitoral, querer se candidatar por um Estado que elas não têm nenhum vínculo, não conhecem nada e não representam.

E no caso do ex-vereador Carlos Bolsonaro?
A crítica para Simone e Marina serve pro Carlos. É exatamente igual, tentar uma carreira política num local em que ele não tem nenhuma relação. Ali já haviam duas candidaturas bem postas, que era do (Esperidião) Amin e da Caroline de Toni. Esse movimento chegou de última hora, atrapalhou completamente o xadrez eleitoral lá do Estado.

Valdemar hoje controla o partido que tem os maiores recursos do fundo eleitoral e que costuma simbolizar o discurso da direita. Hoje há uma discussão sobre como a direita poderia conquistar mais espaço. Como isso seria possível?
Olha, há o Valdemar e os valdemaristas, a turma ligada a ele dentro do PL, que eram os políticos que já compunham o PL antes de o Bolsonaro e a turma da direita ir para lá em 2022. Eles controlam o partido até hoje. Ou seja, o Valdemar e os valdemaristas usam os bolsonaristas para ter voto, porque eles, valdemaristas, não têm voto.Eles usam para inchar o seu fundo, o tempo de televisão e coisas do tipo. Mas quando se trata de indicar pessoas para comandar o partido, para comandar cargo-chave tanto na Câmara quanto no Senado, ele só indica valdemarista.

O senhor poderia dar exemplos?
Cito três e podia citar mais, mas vou citar três exemplos. Vice-presidência da Câmara no acordo em que se fez indevido, na minha opinião, junto com o PT para eleger o Hugo Motta. Quem que ocupou a vice-presidência da Câmara na cota do PL? Um deputado que inclusive já foi candidato pelo PT no Rio de Janeiro, que é o Altineu (Côrtes). Altineu é governista, vota com o PT, tem cargos no PT, tem um monte de emenda parlamentar a mais do que é o mínimo das emendas impositivas. Olha a vice-presidência do Senado, que também indevidamente o PL se juntou, igual na Câmara, se juntou com o PT para eleger o (Davi) Alcolumbre. Quem é que tá lá na vice-presidência do Senado na cota do PL? Eduardo Gomes. É o cara do PT, vota tudo com o governo, tudo com o Lula, tem cargo no Lula. Quer dizer, não tem nada de direita nem bolsonarista. Quando coube ao PL indicar o cargo mais cobiçado da Câmara, que é a relatoria do Orçamento, quem que o PL indicou? Um valdemarista (Luiz Carlos) Motta. Ou seja, os cargos de poder e dinheiro vão todos para os valdemaristas, enquanto que as questões de voto, eles se apoiam nos bolsonaristas, porque eles próprios não têm voto.

Qual o futuro que o senhor vê para a direita?
Vai haver, sim, uma espécie de detalhamento de que tipo de direita ou que perfil de direita cada grupo é. Você talvez tenha alguns grupos que se dizem de direita e que têm maior pretensão ou maior tendência de intervir no Estado, intervir na economia, intervir no planejamento. Outros que vão ter, como eu já disse, menos vontade de privatizar tudo, de diminuir o tamanho do Estado. E a mesma coisa na questão comportamental. Você tem gente que é de direita, mas não é tão favorável, por exemplo, à legítima defesa, posse de armas ou ter armas, e outros são, que é o meu caso. Depois você vai ter gente de direita que é totalmente a favor de liberar as drogas, achando que é o mercado que tem que resolver, que a intervenção no mundo do combate às drogas só piorou o problema. Eu sou do outro grupo. Eu sou do grupo que acha que droga tem que ser proibida e ponto final. E assim vai. Então este refinamento, esse detalhamento do que é ser de direita, ele está acontecendo numa velocidade muito grande.

E para a esquerda?
Hoje não há substituto pro Lula. Nenhum nome da esquerda, nem Boulos, nem Camilo Santana. Nenhum nome hoje tem, nem de perto, a representatividade, a força, a popularidade que o presidente Lula tem para o público da esquerda, evidentemente. Eu acho que se fosse hoje a saída do Lula do cenário político, haveria um vácuo inexorável e inevitável. Agora, a política é muito dinâmica. De agora até o momento em que o Lula sair do cenário, que pode ser o mês que vem, seis meses, um ano, enfim, podem surgir lideranças.

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