Plataformas Broadcast
Soluções de Dados e Conteúdos
Broadcast OTC
Plataforma para negociação de ativos
Broadcast Datafeed
APIs para integração de conteúdos e dados
Broadcast Ticker
Cotações e headlines de notícias
Broadcast Widgets
Componentes para conteúdos e funcionalidades
Broadcast Wallboard
Conteúdos e dados para displays e telas
Broadcast Curadoria
Curadoria de conteúdos noticiosos
Broadcast Quant
Plataformas Broadcast
Soluções de Dados e Conteúdos
Soluções de Tecnologia
2 de junho de 2026
Por Amélia Alves e Beth Moreira
São Paulo, 02/06/2026 – A forte entrada de investidores estrangeiros colocou a Bolsa brasileira em evidência nos primeiros meses de 2026. Mas a correção observada a partir de meados de abril, acompanhada por uma saída de R$ 41,6 bilhões em maio, segundo a B3, levantou dúvidas sobre a sustentabilidade desses ganhos. Ainda assim, o head da corretora do Scotiabank Brasil, Michel Frankfurt, mantém uma visão otimista para o mercado local. Em entrevista à Broadcast, Frankfurt aponta a combinação de juros, eleições e liquidez como os principais vetores do próximo ciclo da Bolsa, com chances de levar o Ibovespa a bater os inéditos 200 mil pontos. Na avaliação do estrategista, a correção observada desde então refletiu uma combinação de realização de lucros, resultados corporativos robustos nos Estados Unidos – que voltaram a atrair parte dos recursos para os mercados desenvolvidos – e algum arrefecimento das tensões no Oriente Médio. Para ele, ainda é cedo para medir os impactos práticos da possibilidade de novas tarifas contra o Brasil, no âmbito das recomendações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) e da designação de facções como terroristas. Leia a seguir os principais trechos da entrevista:
file://imagem/70/ScotiaBank096Retratos.jpg.jpeg:1.70.3.2026-06-02.1
Foto: Divulgação
Broadcast: Como você avalia o desempenho da Bolsa brasileira em 2026? O que mais o surpreendeu?
Michel Frankfurt: O que mais me surpreendeu foi a intensidade da entrada de capital estrangeiro. Foram quase US$ 11 bilhões entrando nos primeiros três meses do ano, principalmente em ações mais líquidas, como bancos, Petrobras e Vale. E não veio só para o Brasil. Veio para a América Latina como um todo. Se me perguntassem no fim do ano passado se eu esperava um fluxo dessa magnitude, eu diria que não. Sabíamos que a América Latina estava descontada e que, em algum momento, isso poderia mudar, mas não imaginava que aconteceria tão rápido.
Broadcast: O que explica esse interesse dos estrangeiros pela região?
Frankfurt: A América Latina era o patinho feio. Isso porque não tinha uma história de crescimento nem uma política amigável, exceto um ou outro caso. Por outro lado, houve um boom de inteligência artificial, de tecnologia, que tomou o mercado americano nos últimos anos. Quando surgiram dúvidas sobre os preços e o retorno dos investimentos em IA, os investidores começaram a procurar alternativas mais baratas. A região apareceu como uma opção descontada, com valuations atrativos e exposição a commodities.
Broadcast: Mas as tensões geopolíticas também ajudaram.
Frankfurt: Sem dúvida. A guerra acelerou um processo que já estava em curso. A América Latina é grande exportadora de commodities, como petróleo e minério, e ainda está distante dos principais focos de tensão geopolítica. Isso aumentou sua atratividade para investidores globais.
Broadcast: E o que mudou em meados de abril, quando a Bolsa perdeu força?
Frankfurt: Depois de uma alta muito forte, houve realização de lucros. E não foi pouco. Só em maio, saíram quase US$ 2 bilhões. Saiu de papéis líquidos, saiu de bancos, saiu do índice. Ao mesmo tempo, a temporada de balanços das empresas americanas surpreendeu positivamente, especialmente no setor de tecnologia. Isso reacendeu o interesse pelos Estados Unidos e reduziu o fluxo para mercados emergentes, incluindo o Brasil. Ou seja, realmente uma realocação.
Broadcast: Mas a saída de estrangeiros preocupa?
Frankfurt: Ainda não. Neste momento, parece mais uma correção do que uma mudança estrutural de visão. O fluxo que entrou muito rapidamente também pode sair rapidamente, principalmente dos ativos mais líquidos.
Broadcast: Mas dá pra dizer que o Brasil continua barato?
Frankfurt: De forma geral, sim. Ainda existem muitas empresas negociando a preços atrativos. Por isso, apesar das oscilações recentes, continuo vendo uma relação favorável entre risco e retorno para quem tem horizonte mais longo. Tem muita oportunidade em empresas de locação de carros, no setor imobiliário e de distribuição de combustíveis. Assim, temos boas oportunidades para quem comprar e tiver paciência. Mas, para mim, o grande call do ano é o macroeconômico: juros, guerra, eleições.
Broadcast: Então, qual a sua perspectiva para a Bolsa brasileira daqui para frente?
Frankfurt: Continuo positivo. Acredito que ainda existe espaço para o Ibovespa voltar a testar níveis próximos dos 200 mil pontos, embora o caminho não deva ser linear. Há fatores importantes que podem impulsionar uma nova reprecificação dos ativos brasileiros.
Broadcast: Quais fatores são esses?
Frankfurt: Eu destacaria três. O primeiro é o processo eleitoral. Depois, a trajetória dos juros e, por fim, a liquidez. Dependendo do cenário eleitoral, podemos ter uma melhora de percepção sobre o Brasil. Isso abriria espaço para cortes mais relevantes da taxa de juros. Além disso, há muito dinheiro aplicado em crédito e renda fixa que pode migrar para a Bolsa quando o ciclo de queda dos juros ganhar força. Então, a combinação entre cenário político, trajetória dos juros e fluxo de recursos deve ser determinante para definir o próximo ciclo da Bolsa brasileira.
Broadcast: Entre o risco de novas tarifas dos EUA e a maior pressão americana sobre facções criminosas que atuam na economia brasileira, quais podem ser os reflexos para o ambiente de negócios?
Frankfurt: Ainda é cedo para medir os impactos práticos, mas toda iniciativa que aumenta o combate à ilegalidade tende a ser positiva para o ambiente de negócios. Em alguns setores, existe uma preocupação histórica com práticas irregulares que acabam distorcendo a concorrência. Quando há uma atuação mais forte das autoridades, isso pode beneficiar as empresas que operam dentro das regras.
Broadcast: E do ponto de vista do investidor?
Frankfurt: Do ponto de vista do investidor, o mais importante é a previsibilidade e a qualidade institucional. Se houver avanços no combate a atividades ilegais e maior fiscalização, isso ajuda a reduzir riscos e melhora a percepção sobre determinados setores da economia. Ainda não sabemos qual será o alcance efetivo dessas medidas, mas o mercado tende a enxergar de forma positiva qualquer esforço que contribua para um ambiente de negócios mais transparente e competitivo.
Contatos: amelia.alves@estadao.com; beth.moreira@estadao.com
Veja também