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1 de julho de 2026
Artigo de: Redação
A agência meteorológica dos EUA, a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), confirmou oficialmente o El Niño em junho de 2026. O fenômeno pode se tornar o mais intenso já registrado. Modelos do Centro Europeu de Previsão Meteorológica (ECMWF) indicam anomalias na temperatura da superfície do Pacífico equatorial de até 3,2 graus Celsius acima da média histórica até o fim do ano. Se confirmados, esses níveis superariam os episódios mais severos dos últimos 50 anos.
Historicamente, eventos fortes de El Niño, como os de 1982, 1997 e 2015, provocaram quebras generalizadas de safra, perdas de rebanho, deslocamentos populacionais em busca de alimento e apelos humanitários bilionários. O cenário atual amplia esses riscos. A disrupção no transporte marítimo causada pela guerra com o Irã já elevou os custos globais de fertilizantes e outros insumos agrícolas. Ao mesmo tempo, cortes profundos na ajuda externa pelos EUA e outros países enfraqueceram uma rede de proteção importante para as populações mais vulneráveis.
Segundo a Food and Agriculture Organization (FAO), mais de 80% dos impactos agrícolas do El Niño devem recair sobre países de baixa e média renda. No Sahel, o risco é especialmente alto. A insegurança alimentar se agravou nos últimos cinco anos em meio aos conflitos no Mali, em Burkina Faso e no Níger. Na África Austral e no corredor seco da América Central, há 50% de chance de seca nos próximos meses em áreas agrícolas e de pastagem. No Sul e no Sudeste Asiático, a Índia pode enfrentar uma monção de verão mais fraca, o que pressionaria culturas dependentes de chuva, como arroz e milho, em um setor que emprega 45% da força de trabalho do país. Já o Chifre da África e partes da América do Norte podem registrar chuvas intensas e enchentes, também destrutivas para a produção agrícola. Cientistas alertam que as mudanças climáticas tornaram o El Niño mais errático, com alternância entre chuvas curtas e imprevisíveis e períodos prolongados de seca.
Os efeitos econômicos tendem a ser severos e duradouros. Estudos recentes estimam que o episódio de 1997-1998 gerou cerca de US$ 5,7 trilhões em perdas globais. O evento atual pode custar ainda mais em termos absolutos. Em geral, o pico do fenômeno antecede em seis a doze meses o impacto total sobre a produção agrícola. Por isso, os efeitos mais graves sobre a oferta global de alimentos devem se concentrar ao longo de 2027. Para países já pressionados por dívidas elevadas e pouco espaço fiscal, a capacidade de resposta será limitada. A combinação de choque climático, insumos mais caros e menor ajuda internacional forma um quadro particularmente preocupante.
No Brasil, o fenômeno deve afetar a safra 2026/27 de forma desigual entre as regiões. O excesso de chuva ameaça o trigo no Sul. No Centro-Oeste e no Matopiba, a irregularidade das precipitações e o calor elevado preocupam o plantio de soja e milho. No Norte e no Nordeste, o risco principal é de estiagem. O impacto mais forte sobre os preços de alimentos, porém, deve aparecer com mais intensidade a partir de 2027, quando os efeitos sobre as grandes safras chegarem aos preços ao consumidor. Como o primeiro turno das eleições ocorre em outubro, antes do pico desse choque nos preços, o El Niño não deve impactar significativamente a disputa presidencial. O problema climático será, sobretudo, uma herança para o próximo mandato, seja ele de Lula reeleito ou de um novo ocupante do Palácio do Planalto.
O Eurasia Group é a maior consultoria de risco político do mundo e produz a cada semana uma análise de conjuntura política do Brasil para os clientes do Broadcast Político e Broadcast+
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