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1 de julho de 2026
Artigo de: André Meloni Nassar

O Brasil tem apresentado, em fóruns internacionais com foco na descarbonização do setor de transportes, a enorme aderência do modelo de agricultura tropical aqui desenvolvido para a produção de biocombustíveis e, consequentemente, defendido os combustíveis de base agrícola como solução para a essa transição. O caso mais relevante da nossa agricultura tropical quanto à produção de matérias-primas sustentáveis é o sistema de duas safras: o cultivo de soja em primeira safra e o de milho em segunda na mesma área, ambos no período de verão, ou seja, dentro da mesma temporada de chuva.
Não há exemplo igual no mundo. Existem casos de duas lavouras na mesma área, mas sendo uma de verão e outra de inverno, como também ocorre no sul do Brasil. Mas o nosso modelo é diferente. O principal argumento dos críticos dos biocombustíveis de base agrícola é que as matérias-primas geram mudança de uso da terra, seja de forma direta (às vezes) ou indireta (sempre). É exatamente esse ponto que estamos, como país, combatendo ao dar foco ao sistema integrado soja-milho.
Trata-se de uma estratégia sequenciada: o primeiro passo é demonstrar que a expansão do milho em segunda safra não tem efeito sobre a mudança no uso da terra, porque ele é plantado na mesma área de soja, sendo esta ainda responsável pela maior parte da rentabilidade desse sistema. O segundo passo é provar que a soja plantada sob o regime de duas safras tem seu impacto minimizado na mudança de uso do solo justamente porque viabiliza o crescimento do milho segunda. Ao se expandir, ela avança sobre áreas de lavouras também cultivadas em segunda safra ou sobre pastagens, que possuem grande capacidade de intensificação.
Algumas importantes conquistas já foram obtidas. A Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) reconheceu que existem matérias-primas agrícolas produzidas em sistema de múltiplas lavouras e que isso resulta em um fator de iLUC (valor de penalidade atribuído à mudança indireta no uso da terra) específico e menor do que o padrão. Assim, o SAF produzido a partir de etanol de milho cultivado nesse sistema recebeu uma penalidade de iLUC correspondente à metade daquela atribuída à mesma rota que utiliza o grão de primeira safra. Naturalmente, os EUA não ficaram satisfeitos com esse reconhecimento.
O segundo reconhecimento veio da Organização Marítima Internacional (OMI). O grupo técnico responsável pela certificação de emissões aprovou um padrão de emissão direta para o etanol de milho de segunda safra proposto pelo Brasil. Refiro-me à emissão direta porque ela não envolve a mudança no uso da terra, conforme mencionado anteriormente.
Na OMI, a discussão ainda está na fase de definição dos padrões de emissões do ciclo produtivo. As emissões por mudança no uso da terra serão tratadas oportunamente pela entidade.
Além do padrão de emissão do etanol de milho segunda, o Brasil submeteu à OMI os padrões para o biodiesel de soja, biodiesel de sebo bovino e etanol de cana-de-açúcar. As demais propostas seguem em debate no grupo técnico da organização. Em ambas as frentes, estamos atuando para viabilizar o SAF e o biodiesel de soja quando esta é cultivada em consórcio com o milho ou outra lavoura de segunda safra.
Essas conquistas foram alcançadas porque o Brasil conta com um corpo de pesquisadores competentes, tanto do setor público quanto do privado, que há anos investe nesse tema. Em minha trajetória anterior, antes de assumir a presidência executiva da Abiove, tive a honra de integrar esse grupo.
Como mencionado, os avanços do milho de segunda safra brasileiro contrariaram os norte-americanos, que reagiram com todo o seu arsenal de guerra contra nós. Não se trata, porém, de um conflito militar, mas de uma disputa na qual as armas são a influência no mundo científico por meio de artigos revisados por pares. Apesar de dispormos de dados agropecuários e econômicos, capacidade de publicação e conhecimento em econometria e modelagem para disputar em pé de igualdade, o peso dos EUA no cenário científico ainda é muito superior.
Milagrosamente, em 2026, foram publicados dois artigos voltados a provar que o sistema brasileiro de duas safras induz ao desmatamento. Naturalmente, os autores de ambos os estudos atuam em instituições norte-americanas. Os periódicos são muito bem conceituados, o Journal of Enviromental Economics and Management e Communications Earth & Environment, e, apesar de utilizarem métodos distintos, o propósito de ambos é praticamente idêntico. Parece até que foram planejados em conjunto.
Apresento a seguir a tese básica dessas publicações para, em seguida, expor as devidas críticas. O argumento central é que a segunda safra de milho agrega rentabilidade ao produtor. O sistema soja-milho, assim, torna-se mais lucrativo, o que amplia a capacidade de expansão e, indiretamente, promovendo maior desmatamento na fronteira agrícola, especialmente quando o cultivo ocorre em regiões limítrofes à Amazônia. Ambos os trabalhos utilizam técnicas de econometria para medir o impacto da rentabilidade no aumento da demanda por área.
Em primeiro lugar, esse tipo de análise não traz novidade alguma. Existem artigos publicados por pesquisadores dos próprios EUA demonstrando que o aumento da rentabilidade na produção de milho eleva a demanda por terras para cultivo, reduzindo a área protegida pelo Conservation Reserve Program (CRP). Por meio do CRP, o produtor norte-americano mantém áreas em pousio por longos períodos em troca de uma compensação financeira paga pelo governo de seu país. Essas terras passam por uma recuperação de vegetação e têm justamente o propósito de diversificar a paisagem, ou seja, possuem um claro objetivo ambiental.
Esse tipo de avaliação foi realizado nos EUA ainda no início do programa de etanol de milho, há mais de uma década, evidenciando que a maior lucratividade do grão leva ao abandono do CRP e à sua conversão para a lavoura. Maior rentabilidade estimula a expansão da produção por meio do ganho de produtividade e do aumento da área plantada; sempre foi assim. A diferença é que, na visão dos EUA, o Brasil não pode passar pelo mesmo processo que eles próprios viveram no passado. Claro que pode e, mais do que isso, deve.
Em segundo lugar, cabe uma pergunta: o que faz mais sentido, a expansão da área em um sistema combinado de duas lavouras ou o crescimento de forma independente, que ocorreria da mesma maneira se a soja e o milho fossem plantados separadamente no Brasil? É evidente que a expansão em duas safras poupa terra se comparada ao avanço em safras independentes. O contrafactual é óbvio, no meu entendimento, mas isso os artigos não testam, porque contraria a narrativa politicamente escolhida.
Em terceiro lugar, os documentos fazem questão de esquecer que o Brasil possui uma legislação que obriga cada propriedade rural a conservar um porcentual de vegetação nativa por meio de reserva legal. Isso difere substancialmente dos EUA, onde a preservação ambiental ocorre quase sempre em áreas públicas, e nunca em propriedades privadas.
Nestas últimas, a conservação só acontece mediante o pagamento do CRP. E, dado que o efeito de desmatamento apontado nos artigos foca na Amazônia, nunca é demais lembrar que a reserva legal é de 80% para conversões realizadas após 2008.
É interessante notar também que um dos artigos fala em especulação de terra (land especulation) no Brasil, enquanto, nos EUA, preferem chamar o fenômeno de desenvolvimento imobiliário (real state). Mas não é a mesma coisa? Claro que é. A lição que fica para nós é clara: a guerra acadêmica está lançada. Estão atacando um dos principais pilares da agricultura tropical brasileira, o sistema de duas safras, que torna a nossa produção muito mais eficiente do que a norte-americana. Precisamos contra-atacar, cientes de que os periódicos norte-americanos não vão facilitar a aprovação de estudos liderados por pesquisadores brasileiros.
André Meloni Nassar é presidente executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), ex-secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura e ex-presidente do Conselho de Administração da Embrapa
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