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24 de junho de 2026
Por Cynthia Decloedt
São Paulo, 24/06/2026 – A expansão acelerada do mercado de dívida brasileiro explica boa parte do aumento das reestruturações de empresas e o recorde de recuperações judiciais que ocorrem neste momento, envolvendo grandes e emblemáticos conglomerados, avalia o representante do banco de investimento independente Houlihan Lockey no Brasil, Bruno Baratta. “Estamos vendo a dor de um crescimento relevante do mercado de capitais, que causou uma mudança estrutural no balanço das empresas, em contrapartida a um passivo que historicamente era muito concentrado em bancos”, afirma Baratta em conversa exclusiva com a Broadcast.
Há cerca de 10 anos, muitas empresas e, especialmente as grandes corporações, conseguiam resolver gargalos em seus passivos sem que o mercado percebesse, com as discussões acontecendo majoritariamente junto a um grupo de bancos, diz ele. Entretanto, acrescenta, hoje, isso não é mais possível, já que a dívida tomada junto ao mercado, por meio de instrumentos como debêntures, certificados de créditos do agronegócio (CRA) e imobiliário (CRI), chega a superar, em vários casos, à tomada com bancos. Com uma dívida tão pulverizada, as empresas são obrigadas a buscar ajuda da Justiça para coordenar uma reestruturação e, especialmente, evitar cobranças desordenadas de compromissos financeiros, ganhando os holofotes do mercado, explica.
Em 2025, o mercado de crédito privado atingiu um novo recorde, com as empresas captando aproximadamente R$ 730 bilhões, um avanço de cerca de 3% sobre o volume de R$ 712 bilhões registrado em 2024
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Bruno Baratta, representante do Houlihan Lockey no Brasil
Baratta vê a expansão do mercado de capitais como uma “evolução muito positiva” no crédito e um ciclo de aprendizado em andamento. “É um processo no qual todos aprenderão a lidar com situações que se desdobram de um mercado muito novo e que passa por um amadurecimento”, acrescenta ele. Baratta diz que o aumento no estoque de dívidas tomadas junto a investidores torna as negociações muito complexas, à medida que as escrituras dos títulos não são padronizadas e preveem quóruns para votação de mudanças em cláusulas que podem promover uma aceleração das dívidas difíceis de alcançar.
“Se olharmos o estoque de dívida emitida no mercado nos últimos três anos, naturalmente, algo vai dar um problema, a não ser que a economia ingresse em um ciclo virtuoso que permita, de fato, uma queda relevante dos juros e crescimento elevado”, diz. Por isso, Baratta afirma que, as reestruturações seguirão aumentando.
Atuação
A Houlihan Lokey está no Brasil desde 2023 e atualmente assessora credores da Braskem, que está em vias de uma recuperação extrajudicial. Entre outros grandes casos recentes de reestruturação, esteve ao lado de credores da Gol e da companhia InterCement. A atuação da Houlihan vai, entretanto, para além da assessoria em reestruturações, tendo participado como assessor financeiro do fundo de private equity (que compra participações em empresas) Walburg Pincus em um aporte de US$ 1 bilhão na Global Eggs, dona da brasileira Granja Faria, empresa líder na produção de ovos.
A abertura do escritório no Brasil marcou a entrada da Houlihan pela primeira vez em sua história em um novo país e região de forma orgânica. A Houlihan Lokey nasceu nos Estados Unidos em 1972 e Baratta conta que globalmente, cresce por meio de aquisições de boutiques de assessoria financeira, com cultura semelhante. No Brasil, como parte desta estratégia, as oportunidades de aquisições são sempre acompanhadas. “Mas não há nada previsto no curto prazo”, acrescenta.
Nos mais de três anos desde que iniciou suas atividades no Brasil, o banco de investimento expandiu rapidamente seu negócio para outros países da América Latina. “Hoje, menos da metade de nosso negócio é no Brasil e temos muita atividade no México, Peru, Colômbia, Chile, Argentina e Venezuela”, afirma.
Globalmente, a Houlihan tem dois terços de suas atividades voltadas para assessoria de fusões e aquisições (M&A) e de captação de dívida no mercado e um terço focado em reestruturações. A companhia é listada na Bolsa de Nova York, onde tem um valor de mercado perto de US$ 10 bilhões. Entre seus principais concorrentes estão a Lazard, Moelis Capital e a Rothschild, todas já atuando no Brasil há mais de dez anos.
Contato: cynthia.decloedt@estadao.com
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