O fim da "taxa das blusinhas" recoloca Shein e Shopee no centro da disputa pelo consumidor brasileiro, mas encontra um varejo nacional mais preparado.
31 de julho de 2026
Por Júlia Pestana
A taxa das blusinhas mal saiu de cena e as plataformas asiáticas já fincaram suas bandeiras em solo brasileiro. Enquanto Brasília ainda discute o destino da medida, Shein e Shopee competem com operação local, com CNPJ, estoques e centros de distribuição no Brasil. O resultado é que a pauta do varejo deixou de ser tributária e se voltou para a estratégia competitiva. Para analistas, as varejistas brasileiras chegam a esse novo momento em posição mais favorável do que há dois anos, após acelerarem investimentos em preço, logística, velocidade de entrega e experiência de compra.
Há pouco mais de dois meses, o governo editou uma medida provisória que zerou a alíquota de 20% do Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada “taxa das blusinhas”, instituída em agosto de 2024.
Os efeitos da MP já começaram a aparecer, embora o texto dependa da aprovação do Congresso para se manter. Em junho, as remessas internacionais bateram recorde e somaram R$ 2,6 bilhões, alta de 77,5% em relação a maio e mais que o dobro do registrado um ano antes.
Esse salto não é tão surpreendente. Antes da criação da taxa, o Brasil recebia mais de 18 milhões de encomendas de baixo valor por mês. A cobrança derrubou o volume para cerca de 11 milhões ainda em 2024, mas as plataformas se recuperaram e romperam a marca de 15 milhões mensais mesmo com o imposto em vigor.
Embora o ambiente competitivo possa voltar a se intensificar, a XP avalia que as varejistas brasileiras estão em condições mais favoráveis do que há dois anos. “As empresas fortaleceram sua proposta de valor tanto em produto quanto em preço, enquanto a capacidade de fazer entregas mais rápidas segue como vantagem competitiva”, disse a analista Danniela Eiger.
Dentro de casa
A Lojas Renner é vista como a mais preparada para competir com as plataformas internacionais. Para Eric Huang, analista do Santander, a companhia entra agora em uma fase de capturar os ganhos de anos de investimentos em logística, digitalização e cadeia de suprimentos.
“A maturação do centro de distribuição de Cabreúva, bem como a integração entre os estoques físico e online, fortalecem a capacidade da varejista de ganhar participação de mercado mesmo diante do avanço das plataformas internacionais”, disse.
A C&A também já vinha se adaptando antes da mudança tributária, com ajustes na política de preços, redução de estoques, maior agilidade na reposição de produtos e ganhos de eficiência operacional.
Por isso, segundo o presidente da companhia, Paulo Correa, o fim da taxa não trouxe uma virada brusca no dia a dia da concorrência: “Há pouca evidência de uma mudança material no ambiente competitivo após as alterações na tributação das importações”, disse.
Assimetria
No entanto, nem todas as varejistas avaliam que as mudanças dos últimos anos bastam para equilibrar a disputa. “É impossível falar em competição justa e está longe de ser uma simples taxa das blusinhas. Na prática, é um incentivo chinês dentro do mercado brasileiro”, disse o presidente da Riachuelo, André Farber.
Caso o governo não recrie a cobrança, a companhia avalia rever investimentos e empregos, bem como adotar o modelo cross-border, ou seja, passar a vender também por meio de importação direta, como fazem as próprias plataformas chinesas.
A discussão divide também entidades setoriais. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) sustenta que a revogação amplia a desigualdade tributária entre empresas brasileiras e plataformas internacionais.
Por outro lado, a Associação Brasileira de Mobilidade e Tecnologia (Amobitec), que reúne empresas como Shein e Alibaba Group, defende que o fim da cobrança contribui para a “democratização do consumo” e argumenta que a taxa penalizava sobretudo consumidores das classes C, D e E sem gerar ganhos comprovados para o varejo nacional.
Além da blusinha
A disputa deixou de ser restrita ao vestuário. Segundo Luiz Guanais, analista do BTG Pactual, a penetração das plataformas internacionais avança sobre acessórios eletrônicos, beleza, decoração, artigos esportivos e até itens de mercearia.
“O Mercado Livre já aponta o Brasil como um de seus mercados de crescimento mais rápido, e a Shopee também trata o País como uma de suas frentes internacionais mais estratégicas”, lembra Guanais.
Ainda que as plataformas asiáticas enfrentem desafios como complexidade logística, volatilidade cambial e prazo de entrega, as varejistas locais devem sentir uma competição mais dura pelo consumidor de média e baixa renda, com menor poder de precificação.
Uma cesta de oito produtos pesquisada pelo BTG mostra a Shein vendendo 6% mais barato que a Riachuelo, 10% abaixo da Renner e 13% abaixo da C&A – diferença que vem encolhendo graças aos ganhos das varejistas em abastecimento, estoque e arquitetura de preços, o que leva o próprio banco a dizer que o setor está mais preparado hoje do que estava no auge das importações, entre 2023 e 2024.
O desafio agora, segundo os analistas, será em sustentar os avanços em margem bruta e qualidade de estoque sem perder competitividade, com o próximo capítulo já datado: o Congresso tem até 9 de setembro para decidir se torna definitiva a isenção, ou devolve ao varejo nacional o fôlego tributário perdido em maio.
Veja também