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Entre estreantes de 2021, Raízen, Oncoclínicas e Mobly acumulam perdas e buscam reestruturação

25 de junho de 2026

Por Cecília Mayrink, Crisley Santana e Vinícius Novais

São Paulo, 25/06/2026 – A supersafra de IPOs de 2021, quando mais de 45 empresas abriram capital na B3, não rendeu apenas frutos positivos. Muitas empresas, que completam agora cinco anos na Bolsa, são negociadas com baixa liquidez e pouco interesse dos investidores, com ações valendo centavos.

A forte alta da taxa de juros, que terminou o ano passado em 15%, encareceu o crédito, reduziu o apetite por risco e pressionou o consumo. Somada a endividamento e alavancagem elevados, além de problemas operacionais, resultados fracos e até disputas societárias, a deterioração acabou levando essas empresas a perdas expressivas, com alguns casos resultando em reestruturações e até recuperação extrajudicial, conforme analistas ouvidos pela Broadcast.

Entre as estreantes de 2021, a Raízen é um dos exemplos mais recentes de companhias que enfrentam dificuldades. A empresa acumula perdas de 93% desde a estreia e, atualmente, a ação vale menos de um real. O papel, que fazia parte do Ibovespa até março, foi excluído do índice após pedido de recuperação extrajudicial.

Para o BB-BI, o plano apresentado pela empresa no fim de maio é profundo e busca equilibrar preservação operacional e reequilíbrio financeiro, mas ainda carrega “elevada incerteza no curto prazo”, tanto pela necessidade de formalização das medidas quanto pela execução futura do plano, que dependerá de disciplina financeira, entrega operacional e avanço nos desinvestimentos.

Na ocasião, o Citi também manteve uma visão cética em relação à empresa, destacando as incertezas em torno da reestruturação e os potenciais impactos para os acionistas. A Raízen tem uma dívida de R$ 64,7 bilhões e busca acordo com credores, no maior contrato desse tipo já fechado no País.

A alavancagem alta também é ponto de atenção em Oncoclínicas: ao fim de março de 2026, a dívida líquida da companhia era de R$ 3,43 bilhões. Para o Citi, que descontinuou a cobertura da empresa, prevalece a visão cautelosa pela combinação de baixa visibilidade operacional e alavancagem acima do ideal. Hoje, o papel beira a casa dos centavos, bem abaixo do preço de estreia (R$ 14,46). Um pedido de recuperação extrajudicial é esperado pelo mercado.

Mobly, Cruzeiro do Sul e Agrogalaxy são outros exemplos de desempenho negativo na Bolsa desde a abertura de capital. Em relação à Mobly, o analista da Suno Research, João Daronco, lembra que, na pandemia, as famílias investiram mais em suas próprias casas, o que ajudou a acelerar o crescimento da empresa naquele período. “O mercado precificou a companhia nas alturas. A partir dali, teve uma virada muito forte nesse ciclo”, avalia. Não à toa, o papel acumula queda de quase 100% nos últimos cinco anos, até aqui.

A Mobly, que se juntou à TokStok formando o grupo Toky, enfrentou problemas financeiros e ainda uma briga societária, entrando com pedido de recuperação judicial em meados de maio. No dia, a ação chegou a cair 45%, fechando em R$ 0,17.

Na época, a empresa apontou que a recuperação judicial era consequência de um ambiente macroeconômico desafiador, que vem impactando as vendas do setor de móveis e decoração: taxas de juros ainda elevadas, maior nível de endividamento das famílias, entre outros fatores. No pedido, a empresa aponta para uma dívida de R$ 1,1 bilhão.

Sobre a Cruzeiro do Sul, Daronco, da Suno, lembra que a empresa abriu capital em 2021, um ano positivo para o setor de educação em meio à expansão do ensino a distância (EAD). “O que não era esperado era o aumento da concorrência. A vantagem competitiva necessária no ambiente digital é muito menor, ou seja, não se tem tantas barreiras de entrada, permitindo que as empresas ofereçam cursos a preços muito baixos. Isso diminui e destrói a rentabilidade de todos os players do setor”, afirma o analista.

Já a GetNinjas, plataforma de contratação de serviços, movimentou mais de R$ 550 milhões no IPO. Ao longo da trajetória, porém, a empresa viu suas ações despencarem mais de 90%, diante de problemas operacionais e resultados fracos. Em 2023, a empresa foi alvo de uma oferta hostil da Reag Alpha Fundo de Investimento e posterior OPA. Assim, a empresa que intermediava serviços entre prestadores e consumidores foi substituída por uma gestora de fundos, depois investigada pela operação Carbono Oculto.

“Em meio à crise envolvendo o grupo Reag, a companhia listada passou por novas mudanças societárias e de identidade. A liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em janeiro de 2026 atingiu uma instituição financeira ligada ao grupo, não a antiga GetNinjas em si”, explica o head de alocação da InvestSmart XP, Rafael Bellas.

A Agrogalaxy, por sua vez, foi uma companhia que conseguiu crescer por meio de aquisições, mas que adotou estratégias de negócios que não foram bem-sucedidas, na visão de Daronco, da Suno. A companhia já foi uma das maiores redes de revenda de insumos agrícolas do País, mas enfrentou grave crise que a levou a fechar metade das lojas, demitir 40% dos funcionários e sair de três Estados.

A empresa entrou em recuperação judicial em setembro de 2024, com cerca de R$ 4,6 bilhões em dívidas. O plano foi aprovado por 82,4% dos credores e homologado pela Justiça em 30 de maio de 2025, ano em que fez um grupamento de ações. No terceiro trimestre de 2025, último balanço divulgado, a companhia reportou prejuízo líquido ajustado de R$ 611,8 milhões. A crise da AgroGalaxy refletiu dificuldades do setor de revenda de insumos, pressionado por quebra de safras, inadimplência rural e aperto creditício.

Contato: vinicius.novais@estadao.com; cecilia.kuinghttons@estadao.com; crisley.santana@estadao.com

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