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29 de maio de 2026
Por Karla Spotorno
A evolução da carreira feminina no mercado financeiro é nítida, mas ainda há muitas barreiras. Uma forma de driblar esses obstáculos é criar redes assertivas de apoio e captar os homens para esse debate, na avaliação da presidente da Fin4She, Carolina Cavenaghi. “O mercado financeiro foi feito por homens para homens e também para quem teve muito acesso a oportunidades e repertório. Então, muitas mulheres, principalmente, as jovens, crescem sem referências próximas de mulheres com carreira nesse setor. Essa é uma barreira muito difícil de quebrar”, afirmou Cavenaghi à Broadcast.
Por conta disso, o evento anual da Fin4She, que tem a Broadcast como parceira de mídia, vai reunir executivas e empreendedoras para falar de suas experiências e também para discutir temas diversos do universo financeiro. O 7º Fin4She Summit deve reunir 1.500 participantes, a maioria mulheres, nos dia 1º e 2 de junho, em São Paulo.
Nesta entrevista, Cavenaghi argumenta sobre a importância de mostrar exemplos de mulheres bem-sucedidas porque, ainda hoje, é necessário inspirar e mostrar caminhos para as profissionais que pensam em ingressar ou ascender no mercado financeiro. “Nossa ideia é mostrar quem está por trás dessas histórias de sucesso”, diz a presidente da Fin4She. Essa é a receita para inspirar, mas também para apoiar a construção de um networking (rede de apoio) produtivo, segundo a empresária. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.
Broadcast – O que mudou desde o primeiro evento?
Carolina Cavenaghi – O Fin4She Summit chega à sétima edição muito diferente da primeira. O summit deixou de ser apenas um espaço de inspiração para se tornar também um espaço de negócios, de formação, conexão, construção de futuro. No primeiro evento, falávamos muito sobre como abrir espaço para as mulheres. Hoje, vemos mulheres liderando as mesas de debate, falando sobre negócios, investimentos, tecnologia, inovação, saúde e grandes instituições apoiando e criando também oportunidades. Outra mudança importante é a mentoria. É um espaço para que as mulheres possam, de fato, se apoiarem e aprenderem umas com as outras, e a gente também traz algumas palestras no modelo de talks individuais para que a gente se aprofunde aí nos conteúdos por meio de especialistas.
Broadcast – A programação tem muitos relatos de executivas e empreendedoras. Ainda é preciso expor os casos de sucesso para inspirar outras mulheres?
Cavenaghi – Sim, mas acredito que mudou a forma como contamos essas histórias. Durante muito tempo, os casos de sucesso feminino eram apresentados quase como uma exceção. Hoje, tentamos discutir a trajetória real de quem está por trás dessas histórias de sucesso. Então, queremos falar das dúvidas, dos riscos, dos momentos de recalcular rota, do desafio da liderança, de maternidade, ambição e poder coexistindo ao mesmo tempo. As mulheres não querem mais ouvir histórias perfeitas. Querem relatos mais humanos e honestos para conseguir enxergar possibilidades reais de construção de carreira, de poder, de independência, de fracassos.
Broadcast – Quais as principais dificuldades de entrada no mercado financeiro hoje?
Cavenaghi – Acho que existem ainda muitas barreiras. O mercado financeiro ainda é muito masculino. É feito por homens para homens e para quem teve muito acesso, repertório, percepção de pertencimento e oportunidade. É um mercado que exige um nível técnico muito alto, sendo que, nos próprios processos seletivos, a escolha já começa por qual faculdade o candidato frequentou. É um mercado, historicamente, muito fechado, técnico e pouco diverso. Então, muitas mulheres crescem sem referências próximas de mulheres com carreira nesse setor. Outro ponto é a rede, que podemos chamar de networking. É uma rede que serve de porta de entrada muito grande no mercado financeiro. Se pudéssemos falar de uma rede no mercado financeiro, é algo, historicamente, muito masculina, elitizada e que concentra muitas das oportunidades às quais poucas pessoas têm acesso.
Broadcast – Para as mulheres que conseguem entrar no mercado financeiro, quais as principais barreiras para ascender a cargos de liderança?
Cavenaghi – No dia a dia da Fin4She, vemos que mais ou menos metade do mercado financeiro já é ocupado por mulheres. Mas, quando olhamos cargos de liderança, elas estão em somente algo como 10% das posições. Então, tentamos discutir como quebrar o teto de vidro da média liderança. Nossa conversa com as empresas é como preparar as líderes de média gerência para que elas não desistam de suas carreiras e não deixem de ser promovidas, para que elas não ganhem menos que os homens e para que elas possam trilhar um caminho de ascensão para cargos mais altos.
Broadcast – Na sua visão, quais alavancas são essenciais para a entrada e ascensão de mulheres no mercado financeiro?
Cavenaghi – Existem algumas que são essenciais. A primeira questão é falar sobre educação, oportunidade e acesso. É dessa forma que a candidata tem condições de chegar preparada e com autoconfiança em um processo de seleção. Outra alavanca é ter um networking estratégico. Várias mulheres que chegaram em posições de liderança falam muito sobre esse networking estratégico e mentoria. Muitas movimentações de carreira acontecem por conta de influência de outras pessoas, com quem as pessoas [homens e mulheres] foram construindo confiança e se preparando para os cargos. E quando falo em networking, estou falando em algo assertivo. Não é só tomar um “cafezinho” despretensioso, o que é bom. Mas é preciso alimentar uma rede de forma assertiva, buscar pessoas que podem ser seus mentores, olhar para a carreira.
Broadcast – De que forma os homens contribuem para a agenda das mulheres no mercado financeiro?
Cavenaghi – Trazer os homens para essa conversa é muito importante. Essa agenda não avança sem os homens. Eles têm um papel fundamental como aliados, patrocinadores, agentes de transformação dentro das instituições, dentro do mercado. Acredito muito nessa aliança e acredito que é assim que vamos caminhar, evoluir como sociedade.
Contato: karla.spotorno@estadao.com
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