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Para analistas, valuation atrativo e diferencial de juros seguem ditando tendência. Exceção é que piora do conflito eleve risco inflacionário
30 de março de 2026
Por Maria Regina Silva e Caroline Aragaki
A incerteza gerada nos mercados mundiais pela guerra no Oriente Médio não foi suficiente para afastar o investidor estrangeiro da B3 em março e a expectativa é a de que o ingresso de capital internacional continue. Apesar de algumas saídas desde o início do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, em 28 de fevereiro, o saldo no mês acumulado era de R$ 7,897 bilhões até quinta-feira (26) ante R$ 3,1 bilhões em março do ano passado. Neste primeiro trimestre, o resultado de R$ 49,606 bilhões até o momento indica que pode ser a melhor marca de capital externo na Bolsa desde 2022, quando totalizou no período R$ 65,3 bilhões.
O movimento de 2022 foi respaldado no elevado preço das commodities, em meio à guerra entre Ucrânia e Rússia, e juros elevados abrindo espaço para arbitragem com taxas básicas muito menores em países desenvolvidos.
Já em 2026, a perspectiva de novas entradas está associada principalmente ao fato de algumas ações no índice estarem com preços convidativos em relação a papéis de mercados como os Estados Unidos e a média dos países emergentes. Outros fatores se juntam a este quadro, como o afrouxamento monetário, iniciado em março, e a disputa presidencial na eleição deste ano.
O head de Research da Eleven Financial, Fernando Siqueira, aponta que o fluxo estrangeiro para o Brasil tem vindo da saída do mercado norte-americano. A tendência ainda é negativa para a bolsa dos Estados Unidos, em meio ao encarecimento das ações, a alguns resultados de empresas piores do que o esperado na margem, e à política imprevisível de Donald Trump, acrescenta.
Na contramão, a Bolsa brasileira é considerada uma das mais descontadas, segundo Bruno Takeo, estrategista da Potenza Capital. “A ideia de valuation atrativo segue valendo e o diferencial de juros é bom, com juro real elevado e deve continuar influenciando o fluxo estrangeiro para o Brasil”, avalia. A exceção é caso haja uma piora da guerra que eleve o risco inflacionário.
Na mesma linha, como a Broadcast mostrou, o estrategista-chefe de ações do Itaú BBA, Daniel Gewehr, considera que o fluxo externo para o Brasil deve continuar, a não ser que o Federal Reserve (Fed) comece a subir juros caso haja risco inflacionário elevado – o que não é o cenário base. Nos cálculos do BBA, a Bolsa brasileira negocia com um desconto de 5% em relação à média histórica.
Já se houver um acordo para cessar-fogo, como começou a ser ventilado pelos Estados Unidos nesta semana, a tendência é de que a busca por ativos como dólar e Treasuries diminua, avalia João Daronco, analista da Suno Research. “Uma parte do dinheiro pode ir para emergentes como o Brasil. Isso porque diminui o risco global.”
Ainda que uma Selic menor reduza o diferencial em relação às taxas norte-americanas, que estão entre 3,50% e 3,75%, a taxa brasileira ainda seguirá elevada. No último Comitê de Política Monetária (Copom), a Selic passou de 15% para 14,75% ao ano. Conforme o último boletim Focus, deve fechar 2026 em 12,50%.
Segundo Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, há uma certa resistência do investidor estrangeiro em deixar de aportar no Brasil, mesmo num ambiente incerto como o atual, em razão da atratividade. “Os ativos brasileiros são atrativos nessa diversificação geográfica porque estão baratos, o Brasil tem um orçamento de corte de juro e ainda pode ter um rali eleitoral”, diz.
Para Siqueira, da Eleven, a queda da Selic e as eleições serão os principais drivers do mercado brasileiro. “Esses fatores podem atrair investidores estrangeiros, mas também os locais”, afirma.
A ideia de alternância de poder em 2027 pode ser um motivador para novos fluxos dado que muitos apostam que uma mudança poderia dar um norte diferente às contas públicas do País em relação à atual, vista como expansionista.
“Tem muito estrangeiro querendo pegar carona no rali eleitoral brasileiro, nos moldes do que foi a eleição do Javier Milei, na Argentina”, conta Spiess.
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