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Movimento em cascata, e crescente, renova os temores sobre o risco de liquidez no segmento e a possibilidade de contágio
27 de março de 2026
Por Aline Bronzati, correspondente
Depois das baratas do banqueiro Jamie Dimon, mais insetos começam a aparecer na economia dos Estados Unidos. Pesos pesados da gestão de recursos, como BlackRock, Blue Owl Capital, Morgan Stanley e, mais recentemente, Apollo Global Management e Ares Management, têm limitado saques em seus fundos de crédito privado. O movimento em cascata, crescente, renova os temores em Wall Street sobre o risco de liquidez no segmento e a possibilidade de contágio.
A série de anúncios nas últimas semanas trouxe de volta aos holofotes a fatídica fala do presidente do JPMorgan Chase, Jamie Dimon. Conhecido por suas previsões catastróficas, o banqueiro comparou, em outubro do ano passado, falências do setor de crédito privado a baratas e disse que havia mais delas nos balanços dos bancos americanos. O balanço do primeiro trimestre do banco de investimentos Jefferies, divulgado ontem, trouxe perdas de US$ 17 milhões relacionadas a perdas ainda com a fornecedora de autopeças First Brands, que faliu em 2025, e a britânica Market Financial Solutions, que colapsou no mês passado.
Em paralelo, dois dos maiores nomes do crédito privado nos EUA impuseram travas a investidores receosos nesta semana: a Ares Management e a Apollo Global Management. Ambas as gestoras impediram clientes de tirar recursos de seus fundos de crédito, ampliando o alarme crescente em torno de um mercado de US$ 1,8 trilhão nos EUA, sendo que a exposição dos bancos americanos chega a US$ 300 bilhões, calcula a Moody’s.
A Ares Management, com mais de US$ 600 bilhões em ativos sob gestão, limitou os saques de um de seus principais fundos de crédito em 5%, após receber pedidos de resgate que saltaram para 11,6% no primeiro trimestre. Dias antes da decisão, que segue medidas semelhantes adotadas por seus concorrentes como a própria Apollo, o Bank of America havia classificado a Ares como sua principal recomendação de compra no segmento de ativos alternativos, ao lado de gestoras como KKR, Blue Owl Capital e Blackstone. “A obsessão da mídia com o crédito privado gera uma oportunidade de compra a preços de liquidação no segmento de ativos alternativos”, escreveu o analista do BofA, Craig Siegenthaler, em relatório publicado na semana passada.
O acerto de contas da indústria de crédito privado nos EUA tem pressionado as ações de gestoras americanas. A Ares Management acumula perda de quase 10% em um mês e 37% no primeiro trimestre. Por sua vez, a queda dos papéis da Blue Owl Capital já chega a superar 20% em um mês, enquanto os da KKR registram declínio de quase 5%, após a agência Moody’s rebaixar um de seus fundos de crédito privado para junk, que indica alto risco de inadimplência.
“De discrepâncias de avaliação e tensões de liquidez a análises de crédito deficientes e fraudes, mais insetos estão saindo das frestas”, escreveu o presidente da Queen’s College e conselheiro econômico-chefe da Allianz, Mohamed El-Erian, no início do mês, em meio à multiplicação de imposições de limites de saques em fundos de crédito privado.
O economista, uma espécie de guru em Wall Street, voltou a questionar se o sistema financeiro lida apenas com baratas ou com cupins, que representariam riscos sistêmicos ao mercado. Ao contrário do BofA, que apontou o que chamou de obsessão da mídia, El-Erian diz que a proliferação de manchetes sobre restrições no crédito privado é um alerta para o que ele chama de cenário ATM, ou caixa eletrônico, em bom português. Trata-se de um fenômeno clássico de contágio, em que investidores são forçados a liquidar outros fundos saudáveis. “Se você não consegue vender o que quer, vende o que pode”, explica.
O tema ganhou reforço na lista de preocupações de órgãos reguladores em meio à escalada das tensões no Oriente Médio. O conflito, que se arrasta há quase um mês, provocou uma reviravolta hawkish nas expectativas dos investidores, que passaram a ver bancos centrais mais cautelosos com o risco inflacionário e dispostos a manter ou até elevar os juros, como sinalizou o Federal Reserve (Fed) na semana passada.
“Antes da erupção de um conflito, a economia estava em uma posição bastante resiliente. Mas, dado o foco no crédito privado e a natureza ilíquida desses veículos, certamente isso reforçou o foco nos resgates e na velocidade”, disse o assessor econômico e chefe do Departamento Monetário e Econômico do Banco de Compensações Internacionais (BIS, na sigla em inglês), Hyun Song Shin, ao comentar o relatório trimestral do organismo, publicado na semana passada. Ele alertou que se a demanda por resgates em fundos de crédito privado continuar, a situação pode se agravar à frente. “Sob condições extremas, a linha divisória entre liquidez e solvência pode se tornar tênue”, reforça El-Erian, que ainda não vê o mercado nesta situação.
A Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) redobrou a atenção ao segmento e também está de olho nas agências de rating de segundo escalão, que se multiplicaram nos últimos anos ao atender justamente o mercado de crédito privado em expansão. Os grandes bancos dos EUA também reforçaram a cautela. O JPMorgan Chase tornou mais rigorosas as condições para fundos de crédito privado e reduziu o valor de alguns empréstimos em suas carteiras, enquanto o Morgan Stanley limitou os resgates.
Para o Barclays, o crédito privado nos EUA enfrenta “problemas reais”, especialmente no setor de software, em meio aos avanços da inteligência artificial (IA), mas as preocupações com o segmento são “exageradas”. Esses problemas, avalia, evoluem lentamente, não são sistêmicos e são improváveis de desestabilizar os resultados macroeconômicos dos EUA em 2026 ou prejudicar o sistema financeiro de forma mais ampla. Barclays e Bank of America concordam que não se trata de uma repetição da crise financeira global de 2008.
“Não vejo nenhuma semelhança”, disse o presidente da BlackRock, Larry Fink, em entrevista à britânica BBC, nesta semana. “Zero”, acrescentou. A BlackRock é uma das várias gestoras que limitaram os saques de investidores a fundos de crédito privado. Segundo Fink, o problema atinge uma pequena fração do mercado geral e as instituições financeiras hoje são mais seguras.
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