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Estrategista-chefe de ações do Itaú BBA, Daniel Gewehr, diz que 40% das compras de papéis na B3 não vem sendo via fundos de índice
29 de março de 2026
Por Caroline Aragaki e Maria Regina Silva
Mesmo diante do conflito no Oriente Médio, a tendência é que o fluxo estrangeiro continue vindo para o Brasil, a não ser que o Federal Reserve (Fed) comece a elevar os juros, mas este não é o cenário base, diz o estrategista-chefe de ações do Itaú BBA, Daniel Gewehr, em entrevista à Broadcast.
Desde que a guerra no Irã começou, o Itaú BBA percebeu que os investidores passaram a olhar as ações de forma mais específica, com 40% das compras de papéis da Bolsa brasileira não sendo via fundos de índice. O Brasil é considerado vencedor relativo num cenário incerto, por ter empresas fortes nos setores de commodities e infraestrutura, apontados como mais resilientes; ter um valuation descontado, novamente 5% abaixo da média histórica; empresas que devem ter crescimento nos lucros de 18% em 2026. Ele destaca ainda a gordura de uma taxa de juros real relevante, que apoia o carry trade no real e faz com que o ciclo de política monetária passe a ser de afrouxamento – ainda que menor do que antes da guerra – adiante. Confira os principais trechos da entrevista:
Broadcast: No que o investidor estrangeiro tem prestado atenção neste momento para montar o portfólio, e como o Brasil se insere?
Daniel Gewehr: O mundo está fazendo três grandes trades. O primeiro é a questão da diversificação para além dos EUA, reduzindo um pouco a exposição na parte de tecnologia do país – e essa tese de médio prazo é muito relevante, porque o Brasil é pequeno nos índices globais, mas vejo bastante interesse de investidores estrangeiros olharem, investirem, aprenderem mais sobre o Brasil. O segundo é que buscavam investir em ativos reais, relacionados à infraestrutura e commodities, que têm menos risco de disrupção. Olhando a composição do Ibovespa, é formado por um terço do setor financeiro, um terço de commodities, e um terço da economia doméstica. Está dentro das tendências globais. O último trade que o investidor global estava fazendo, mas que reduziu no curto prazo por conta da guerra, é o focado na aceleração do consumo doméstico. Mas acredito que diferentes tipos de investidores procuram, e começaram a procurar, o Brasil.
Broadcast: Quais tipos de investidor?
Gewehr: No dia a dia, eu falo com gestor local, gestor de América Latina e gestor de mercados emergentes ativo – este último é aquele dedicado a olhar a Bolsa brasileira. Além deles, começaram a aparecer outros perfis de investidores. Eu posso mencionar três: fundos de ações globais, que historicamente nem precisavam olhar América Latina porque a região é menos de 1% do índice; gestores de multiativos, que estão pensando em diversificar alocação para além dos Estados Unidos; e gestores macro globais. Nesse último grupo, ajudou o fato de o Stanley Druckenmiller – ídolo dos hedge funds no mundo – ter divulgado que comprou posição no Brasil no fim de janeiro e início de fevereiro, o que aumentou um pouco o interesse.
Broadcast: Em fluxo, isso já aparece nos números?
Gewehr: Aparece. O Brasil está com entrada em bolsa de algo como R$ 47 bilhões em 2026, versus R$ 25 bilhões no ano passado inteiro. Praticamente dobrou o fluxo de 2025 em três meses neste ano. Falam que o Brasil tem uma vantagem relativa: é um dos poucos países, se não o único, que tem chance de cortar juro e iniciou o ciclo de afrouxamento monetário. Podemos discutir que talvez o ciclo seja menor do que a média, dada a questão do petróleo lá fora, mas o Banco Central cortou e vai continuar cortando juros.
Broadcast: Quais características de mercado o investidor estrangeiro busca e que o Brasil tem?
Gewehr: O investidor de lá de fora geralmente me pede três coisas. A primeira, papéis, setores e mercados com crescimento e lucro de dois dígitos (acima de 10%). A segunda é ter lucros com tendência de aceleração. E a terceira é ter revisão positiva do sell side. O Brasil tem dois desses três predicados. Em nossos cálculos, o crescimento de lucro das empresas deve ser de 18% em 2026 ante 2025. No ano passado, o crescimento foi de um dígito na economia doméstica. Já quanto à parte de revisão do sell side, acho que o Brasil está perto da estabilidade. Não acho que haverá revisão para cima em geral, mas em alguns casos, sim. Podemos entrar um pouco mais em seleção, e de quem teve demanda dos investidores.
Broadcast: Muito se fala sobre como o fluxo para o Brasil foi focado em ETFs, e não em ações específicas. O senhor concorda?
Gewehr: Fazendo a conta dos R$ 47 bilhões que entraram, calculamos que aproximadamente 70% foi por conta de fluxo simples, ETFs, e 30% de gestor ativo comprando e escolhendo a posição dos papéis específicos. Com o conflito no final de fevereiro, as pessoas imaginavam que sairiam recursos do Brasil, mas na realidade e para a surpresa de muita gente, na Bolsa há entrada de mais de R$ 5 bilhões em março, e teve um pouco de mudança no perfil de entrada. Até fevereiro, era, na maior parte, um fluxo passivo que comprava EWZ. Em março 40% dos estrangeiros começaram a comprar papéis específicos da Bolsa. O foco em março foi, basicamente, comprar empresas de petróleo. E uma surpresa positiva é que houve entrada também para o setor de utilities. Já os únicos dois setores que tiveram queda no ano de 2026 foram tecnologia, em linha com o que aconteceu no mundo, que ficou preocupado com a disrupção de Inteligência Artificial e ciclo de capex; e saúde, por causa de balanços. Depois da guerra, também reduziram exposição ao setor de consumo.
Broadcast: A tese de Brasil como vencedor relativo se apoia no ciclo de flexibilização monetária. Há outros pilares para essa visão?
Gewehr: Tem alguns vetores. Um deles é que, nesse mundo com medo de disrupção por IA, cresce a valorização de ativos físicos com baixa obsolescência, chamados de HALO (High Assets Low Obsolescence). E o Brasil é forte em commodities e infraestrutura, que entram nessa lógica. Há ainda um componente de valuation: enquanto a América Latina negocia com prêmio relevante versus histórico, cerca de 10% a 15%, o Brasil voltou a negociar algo como 5% de desconto para o histórico depois de a bolsa cair de 190 mil pontos e pouco para 180 mil pontos e pouco. Além disso, a bolsa brasileira tem um ROE (rentabilidade sobre patrimônio líquido) ao redor de 17%, o que reforça a percepção de qualidade relativa. Mas mesmo assim investidores estrangeiros não estão muito posicionados no Brasil.
Broadcast: A guerra altera algo na tese de que o Brasil é um dos lugares mais chamativos para fluxo?
Gewehr: Com a guerra, os investidores passaram a separar os mercados que são exportadores de petróleo dos importadores, e o mundo ficou com medo de quem depende muito da commodity, principalmente os mercados asiáticos. Na América Latina, Brasil, Argentina e Colômbia são mais do lado exportador e têm se beneficiado do movimento, até por isso foram os mercados que performaram relativamente melhor desde o início do conflito. Quem sofreu mais na América Latina foi o Chile e Peru, ambos importadores de petróleo. Por enquanto o investidor estrangeiro quis manter posição e ainda foi comprador líquido do Brasil.
Broadcast: O mercado avalia diversos cenários em relação à duração do conflito no Irã. Qual o cenário base do Itaú BBA e como isso deve afetar a Bolsa brasileira?
Gewehr: Se olhar o gráfico de precificação pelo Polimarket [plataforma de previsões], até sexta-feira mais da metade dos investidores achavam que a guerra ia terminar só depois de maio em diante, então já estão achando que vai levar mais tempo. Acho que o mercado quer voltar para o que estava no pré-guerra, diversificando além dos EUA e focando na tese de ciclo monetário no Brasil. Com a ideia de que a inflação vai ficar mais alta nesse ano, o mercado já se ajustou para uma tendência de ciclo de afrouxamento mais devagar do que o esperado, mas a tendência ainda é de corte. Dado que o Brasil estava atrasado em fazer esse ciclo, temos uma gordura de juro real muito relevante e isso é uma vantagem perante outros países.
Broadcast: Por que a margem de juro real é relevante?
Gewehr: Porque ajuda a deixar o câmbio mais controlado, com o carry relativamente melhor. Historicamente, quando o dólar se valoriza, o mercado emergente sofre e o Brasil sofre mais. Mas nesse mês de conflito foi diferente. Atribuo à força relativa do Brasil, que virou exportador líquido de petróleo e consegue cortar juros. A minha tese de médio prazo é de uma continuidade no ciclo de corte monetário suavizado no Brasil e isso torna a Bolsa relativamente positiva. A minha tese só não pararia em pé se o Fed aumentar os juros, mas não é o cenário base.
Broadcast: O investidor estrangeiro já está de olho na eleição do Brasil?
Gewehr: Eu não comento muito eleição diretamente, mas historicamente a volatilidade aumenta quatro meses antes das eleições. No curto prazo, o conflito e as segundas derivadas, como impacto em inflação e combustíveis, tomaram a dianteira. Dito isso, o estrangeiro pergunta para entender o próximo ciclo macroeconômico do País e acompanha o calendário eleitoral: Peru em abril, Colômbia em maio e Brasil em outubro.
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