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17 de junho de 2026
Por Aguirre Talento, do Estadão
Brasília, 17/06/2026 – A Polícia Federal encontrou diálogos no celular do banqueiro Daniel Vorcaro com o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), nos quais o parlamentar pede a liberação de empréstimo do Banco Master para uma empresa da sua cunhada.
Questionado sobre o fato em entrevista ao Estadão, Motta se recusou por cinco vezes a responder se atuou para a liberação do empréstimo, mas disse que a operação cumpriu os parâmetros de mercado e “está dentro da legalidade”. Disse ainda que a empresa está honrando o pagamento das prestações. (leia a íntegra abaixo). A cunhada de Motta, Bianca Medeiros, foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou.
As informações sobre a conversa com Motta são apuradas em conjunto com outras menções ao presidente da Câmara detectadas no celular do banqueiro, como o pagamento de uma viagem do deputado a Lisboa. O diálogo sobre o financiamento ocorreu antes de Motta assumir a presidência da Câmara.
Em 2024, o banqueiro bancou despesas de Motta e também do senador Ciro Nogueira (PP-PI) em viagem ao exterior. Nas conversas e documentos obtidos pela PF, Vorcaro determina o pagamento de cinco diárias de “suíte jr.” no Four Seasons Hotel para Ciro e Hugo Motta. De acordo com a PF, o custo total para cada um seria de cerca de R$ 90 mil, com base na cotação do euro da época.
Ao Estadão, Motta afirmou que viajou de “carona” no voo do Vorcaro a convite do senador Ciro Nogueira (PP-PI).
Segundo a PF, o banqueiro cobrou de um funcionário que garantisse privacidade total na organização de um jantar, em Lisboa, que contaria com a presença de Ciro Nogueira e Motta, que há época exercia apenas o cargo de deputado federal.
Já as conversas detectadas abordam a liberação de um empréstimo de ao menos R$ 22 milhões do Banco Master para Bianca Medeiros, irmã da mulher do parlamentar, Luana Motta, em março de 2024. A existência do empréstimo foi noticiada pelo jornal Folha de S.Paulo e registrada em um documento de uma empresa dela na Junta Comercial da Paraíba. O valor foi usado para comprar um terreno em João Pessoa (PB), onde será construído um novo bairro.
De acordo com fontes com acesso às investigações, as conversas mostram que Motta pediu diretamente a Vorcaro a liberação desse empréstimo do Banco Master.
A PF produziu relatórios internos sobre a relação entre Motta e Vorcaro, que atualmente estão sob análise da equipe responsável pela Operação Compliance Zero.
Os investigadores avaliam se há indícios de crimes, para decidir se é necessário aprofundar a investigação em relação ao presidente da Câmara. A PF apura, por exemplo, se há relação de contrapartida entre o empréstimo do Master e uma emenda apresentada por Hugo Motta para obrigar seguradoras e instituições financeiras a aplicar recursos em créditos de carbono, o que beneficiaria os negócios da família de Vorcaro.
‘Não tem ilegalidade em nada nisso’, diz Motta
O presidente da Câmara foi questionado sobre o assunto em entrevista concedida ao Estadão na quarta-feira, 17. Leia abaixo:
Em março de 2024, o Master fez um empréstimo à cunhada do sr., num valor estimado de pelo menos R$ 22 milhões. O senhor tinha conhecimento desse empréstimo? Chegou a pedir para ele?
Quando você precisa de um empréstimo, você procura quem? O banco, não é? E a minha cunhada, que representa os negócios do meu sogro, procurou um banco. O banco tava legal à época? Podia operar? Ela tinha um crédito para poder fazer? Então foi uma operação legal. Não tem ilegalidade de nada.
O senhor não interveio de nenhuma forma?
Não tem ilegalidade de nada nisso.
O senhor chegou a intervir?
Não, não tem ilegalidade.
A gente tem uma apuração de que o senhor pediu a Vorcaro por WhatsApp, que pediu empréstimo para a empresa de sua cunhada. O senhor confirma?
O empréstimo é legal. O empréstimo é legal feita por uma empresa que tem lastro. E ele tinha uma instituição que estava funcionando dentro das regras. Está dentro da legalidade.
O senhor pediu a ele que liberasse o empréstimo?
Empréstimo tem critério para ser liberado, e a instituição dele estava legal. Você não vai conseguir arrancar de mim uma declaração que eu pedi, que eu não pedi. Se você tem a apuração, você publica a apuração. Eu não vou confirmar a informação. Eu não tenho obrigação de confirmar isso.
Após essa última resposta, Motta deixou a sala para conversar com a deputada Renata Abreu (Podemos-SP). Ao retornar, ele voltou ao assunto e concluiu: “E só para registrar, o empréstimo está sendo pago pela empresa”.
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