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18 de junho de 2026
Por Caroline Aragaki
São Paulo, O cenário fiscal do Brasil não permite que o investidor estrangeiro faça um investimento estrutural de longo prazo, ainda mais considerando a elevada incerteza com a proximidade das eleições, avalia o economista global da Oxford Economics, Felipe Camargo, em entrevista à Broadcast. O cenário-base da consultoria é de uma reeleição do presidente Lula, o que no economista não considera muito positivo, dado que a manutenção do arcabouço atual prevê estabilização da dívida pública, na melhor das hipóteses, apenas depois de 2030, acrescenta o profissional.
Camargo calcula, ainda, que o tarifaço dos EUA embutido no argumento da Seção 301 fará com que a alíquota efetiva tenha pouco efeito macroeconômico, saindo de 10,2% para 10,7%. Confira os principais trechos da entrevista:
Broadcast: A expectativa da Oxford é de que o preço do barril de petróleo só voltará a US$ 60 por barril, preço de equilíbrio, daqui a três anos. Nesse sentido, o fato de o Brasil ser um exportador líquido pode angariar mais interesse dos investidores para o País?
Felipe Camargo: O Brasil tem uma exposição positiva ao petróleo, no sentido de ser um grande produtor. Empresas que vendem energia ou que conseguem repassar o custo de energia quase que completamente para os consumidores, no preço, vão ter as margens protegidas ou até, em alguns casos, melhoradas. No caso da Petrobras, a margem melhorou, porque a quantidade produzida aumentou e eles estão vendendo a um preço 60% mais alto. Em conversas com clientes, identificamos alguns que se beneficiaram com esse repasse parcial do petróleo com a gasolina.
Broadcast: Ainda assim, a guerra, com o petróleo em nível mais elevado, trouxe uma deterioração forte nas expectativas de inflação para o Brasil. Na sua avaliação, como deve ficar a Selic?
Camargo: Temos que qualificar um pouquinho esse debate, porque uma coisa é o que está na curva de DI e outra é a expectativa que está no Focus. Claro que há um argumento de que no Focus você não está com a pele em jogo. Mas o mercado também trabalha com o fator de prêmio de risco. É natural que haja uma alta nas expectativas da Selic e da inflação temporárias, mas, quando se olha para o futuro, há uma questão também de incerteza e de as pessoas tentarem se proteger do risco de viver em situação binária, de possibilidade de o conflito realmente terminar ou se prolongar. Mas minha projeção de inflação vem subindo, e hoje está em 4,9% para o fim de 2026. Em 2027, estou bem abaixo do mercado e próximo do Banco Central (BC), em 3,5%.
Broadcast: A previsão da Oxford para o IPCA de 2027 é mais otimista que a da Focus. Por quê?
Camargo: Temos a visão de que o choque do petróleo, em um segundo momento, é bastante contracionista da atividade. E essa atividade, sendo mais contracionista globalmente e no Brasil, acaba sendo construtivo também para a Selic. Vejo a taxa indo para 13% em 2026, com cortes de 25 em 25 pontos-base, mas o viés é de alta. Para 2027, vejo mais cortes, com Selic indo a 10,50% no fim do ano.
Broadcast: Qual a expectativa para o balanço de riscos na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom)?
Camargo: Acho que virá altista, desde a última reunião estamos em um cenário mais desafiador para a inflação. O Copom terá que reconhecer que existe esse cenário binário sobre a guerra, que ainda não foi muito bem articulado na comunicação e parece mais consolidado internacionalmente do que aqui. Na Europa principalmente, a preocupação com energia é muito maior do que aqui, porque lá a exposição a gás é maior.
Broadcast: Apesar de o choque do petróleo ser contracionista para a atividade, algumas casas apontam receio de que mais medidas de cunho eleitoral possam impulsionar a economia. Qual é a sua avaliação?
Camargo: Acho muito difícil o governo dar uma coisa que estimule mais a atividade esse ano do que a isenção de imposto de renda para salários até R$ 5 mil que veio no primeiro trimestre. A renda disponível com a medida subiu em 5% a 10%, um aumento bastante robusto, a renda da classe média alta. Isso revitalizou o crescimento do consumo das famílias. Acho que ainda teremos um pouco de crescimento puxado pelo consumo no segundo trimestre, mas no terceiro vejo um ritmo quase que flat (estável). Para o fim de 2026, espero crescimento do PIB em 1,6%, um pouco abaixo do consenso, porque a Oxford, de maneira geral, está um pouco mais pessimista no agregado dos países a nível mundial. Em 2027, PIB deve crescer 1,7%.
Broadcast: Com a expectativa de Selic a 13% e taxa dos Fed funds inalterada, na faixa entre 3,50% e 3,75%, o Brasil continua sendo atrativo para operações de carry trade?
Camargo: O Brasil tem hoje um dos melhores retornos de carry trade da região da América Latina. O da Colômbia está parecido, mas o nosso continua bastante atrativo e o Brasil está com uma conta corrente muito saudável, em virtude do petróleo. Todo o mundo está querendo comprar petróleo, em um cenário em que a reserva de inventário está se esgotando com a história do Estreito de Ormuz. Então o Brasil está ganhando uma importância geopolítica no mercado de petróleo em um momento-chave. Temos duas maneiras de olhar o câmbio na Oxford Economics, olhamos diferencial de produtividade, em termos de troca, e modelos de conta corrente. Quando juntamos os dois, apontam para dólar em torno de R$ 5 a R$ 5,20.
Broadcast: Em termos de tarifaço, qual é a sua expectativa?
Camargo: Lendo as notícias do Brasil, pareceu que as tarifas a partir da Seção 301 eram em adição às tarifas da Seção 122, que foram implementadas ano passado. Mas essas tarifas da Seção 122 têm data para expirar em julho agora. O Trump já havia anunciado que faria renovações a partir de outras Seções, e o Brasil foi nessa história. Aquelas tarifas que estavam implementadas anteriormente foram renovadas por outra Seção e não adicionam em cima daquela anterior, então a taxa efetiva de tarifa que os EUA estavam colocando no Brasil era de 10,2% – considerando as isenções -, e agora deve ir para 10,7%. Esse meio ponto porcentual de aumento da alíquota não é relevante, tanto que quando o anúncio foi feito foi meio que um não-evento para a maior parte do mercado financeiro. Em termos de composição, os setores mais prejudicados são os de manufatura de bens intermediários, então aço, metais.
Broadcast: E a decisão dos EUA de classificarem o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas?
Camargo: É uma questão mais geopolítica, na minha opinião, e vale ficar de olho em como Trump tem tratado aquilo que ele classifica como terrorista. Ele invadiu a Venezuela e sequestrou o Nicolás Maduro. Então a decisão é um sinal negativo, dado o contexto em que os EUA não respeitam as leis internacionais, fazem o que querem pela lei do mais forte. Poderiam talvez ir pela via de sancionar o Pix ou sancionar os bancos brasileiros que aceitam Pix e não fazem transações via cartão de crédito.
Broadcast: Qual é a visão do investidor estrangeiro para o Brasil? Temos visto uma saída de fluxo, após 2025 e começo de 2026 positivos.
Camargo: O investidor estrangeiro é pragmático e vai olhar o Brasil em uma tabela comparativa, mas o País está muito bem no relativo ao CDS, apesar de a situação fiscal estar claramente horrível. O play de Brasil é muito mais tático do que estrutural. O fiscal não permite com que o estrangeiro olhe para o Brasil como uma maneira de fazer investimento de longo prazo, de deixar o dinheiro por 10 anos. E estamos entrando em um cenário de maior incerteza com a eleição, o que explica, em parte, o fluxo negativo em relação ao que estávamos vendo no começo do ano. Mas também é um movimento de risk-off internacional. Se olhar para Colômbia, China e México, também existe um enxugamento de liquidez. É internacional, em todo o lugar, e não só no Brasil.
Broadcast: O fiscal impedindo uma posição mais estrutural para o Brasil ocorre independentemente do resultado das eleições?
Camargo: O cenário base é de reeleição de Lula, o que não é muito positivo em termos de fiscal, porque a expectativa é de estabilização da dívida, na melhor das hipóteses, depois de 2030. Isso é desconfortável, se houver um cenário de choque e de aumento nos juros, a dívida pública descarrila e fica completamente fora do controle. Há uma falta de capacidade deste governo de mostrar certa sensibilidade a isso.
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