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19 de junho de 2026
Artigo de: Roberto Bocca

A interrupção dos fluxos de energia pelo Estreito de Ormuz causou impactos muito além dos mercados de petróleo e gás. Os efeitos rapidamente se espalharam pelo transporte marítimo global, pelas cadeias industriais de suprimentos e pelas contas das famílias, além de intensificarem as pressões inflacionárias e fiscais.
Mas a crise também reforçou uma realidade urgente: para muitos países, a transição energética envolve tanto segurança e resiliência econômica quanto sustentabilidade. Durante grande parte da última década, a principal questão que moldou o debate sobre a transição era se as tecnologias limpas conseguiriam crescer em escala suficientemente rápida para competir com os combustíveis fósseis. Em muitos setores e regiões, essa questão já foi respondida. Em 2025, as energias renováveis e a energia nuclear geraram 42% do consumo global de eletricidade, a geração renovável cresceu 9% e o investimento global em energia limpa atingiu um recorde de US$ 2,3 trilhões.
A questão mais difícil agora é saber se os países conseguem construir sistemas energéticos diversificados e seguros, que continuem acessíveis, sustentáveis e resilientes sob pressão.
Novas pesquisas do Fórum Econômico Mundial sugerem que muitos países estão tendo dificuldades para avançar simultaneamente nesses três aspectos. Embora o avanço global na implementação de energia limpa tenha continuado no último ano, os pilares que determinam se esse progresso poderá se manter – investimentos, infraestrutura, estabilidade regulatória e inovação – ficaram sob pressão. A segurança energética
apresentou os sinais mais claros de tensão, à medida que as tensões geopolíticas, os gargalos de infraestrutura e a concentração das cadeias de suprimentos se tornaram mais intensos. A crise em Ormuz apenas acelerou essa tendência.
Essa vulnerabilidade está influenciando cada vez mais a forma como os governos enxergam a transição energética. No passado, o progresso era medido principalmente pela implementação: a velocidade e o custo com que os países conseguiam ampliar a capacidade renovável, expandir veículos elétricos ou atrair investimentos. Hoje, a segurança se tornou um indicador mais importante de sucesso: a capacidade de manter sistemas energéticos confiáveis e acessíveis diante de uma crescente incerteza geopolítica.
Os países que respondem de forma mais eficaz estão reduzindo sua exposição a choques externos ao investir em capacidade doméstica e em fontes de energia diversificadas.
A China é um exemplo. Embora ainda dependa parcialmente de combustíveis fósseis importados e do carvão nacional, o país também está acelerando a eletrificação e a expansão da rede elétrica com uma implementação rápida e em larga escala de energias renováveis. Energia eólica e solar agora geram 22% da eletricidade do país. A relevância desse movimento não está apenas no ritmo e na escala. Está no objetivo de reduzir a exposição a choques externos por meio da construção de um sistema energético mais resiliente e integrado internamente.
A Europa está seguindo um caminho diferente para alcançar um objetivo semelhante. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, investimentos em redes elétricas, armazenamento de energia, hidrogênio, bombas de calor e fabricação doméstica de tecnologias limpas passaram a ser vistos tanto como uma necessidade estratégica de autonomia e competitividade quanto como uma questão climática. Um dos principais objetivos é reduzir a exposição a importações potencialmente voláteis – embora o impacto da interrupção em Ormuz tenha reforçado a dimensão do desafio.
O Brasil, por sua vez, mostra como uma maior resiliência pode se apresentar. Décadas de investimentos em biocombustíveis, combinadas a uma matriz elétrica doméstica relativamente limpa, deixaram o país menos exposto à volatilidade recente do que muitos de seus pares. Novos investimentos em etanol, biodiesel e combustível sustentável de aviação estão ampliando essa vantagem. Juntos, esses esforços ajudam a proteger o país contra choques externos enquanto avançam seus objetivos de descarbonização.
O Japão aponta para outra dimensão do desafio da resiliência: segurança das cadeias de suprimentos e inovação. A segurança energética está cada vez mais se expandindo para além dos combustíveis, abrangendo minerais críticos, baterias, semicondutores e equipamentos para redes elétricas. Um sistema nacional de estoques de metais raros ajuda a proteger contra interrupções no fornecimento internacional, enquanto décadas de avanços em eficiência energética, sustentabilidade e inovação mostram como segurança pode ser combinada com capacidade industrial. O resultado é um modelo em que a resiliência fortalece a competitividade, em vez de apenas proteger contra riscos.
Juntos, esses exemplos reforçam uma mudança na lógica competitiva da transição. Os países capazes de oferecer energia confiável a partir de fontes diversificadas, infraestrutura robusta e cadeias de suprimentos seguras estarão melhor posicionados para atrair investimentos e fortalecer sua capacidade industrial. A capacidade de resistir a interrupções tornou-se uma vantagem econômica estratégica.
Para os governos, isso significará não apenas ampliar a implementação de energias renováveis, mas também construir redes elétricas, sistemas de armazenamento e estruturas de investimento que tornem os sistemas mais resilientes. Para as empresas, a estratégia energética se tornará inseparável da estratégia de competitividade. Fabricantes, data centers e empresas industriais já estão expostos não apenas aos preços da energia, mas também à confiabilidade das redes elétricas, às interrupções no fornecimento de combustíveis e às limitações de infraestrutura.
Esses fatores terão um papel cada vez maior nas decisões de investimento, à medida que as empresas passam a valorizar mais a previsibilidade e a continuidade do fornecimento.
A principal lição da interrupção em Ormuz não é apenas o quanto os mercados globais continuam vulneráveis aos choques dos combustíveis fósseis. É que a segurança energética não está separada da própria transição, mas se tornou cada vez mais uma das condições para que ela aconteça. Sem energia segura e confiável, a acessibilidade se torna frágil e a sustentabilidade fica mais difícil de manter.
Os países que sairão mais fortalecidos da próxima fase da transição serão aqueles com sistemas energéticos diversificados, capazes de permanecer seguros, acessíveis e sustentáveis em um mundo mais incerto.
*Roberto Bocca, Chefe do Centro de Energia e Materiais do Fórum Econômico Mundi
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